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3 ANÁLISE ECONÔMICA DA ARBITRABILIDADE DE LITÍGIOS

3.2 A GRATUIDADE PARA O CONSUMIDOR

3.2.2 Os riscos de oportunismos

Duas são as hipóteses de oportunismos que saltam aos olhos quando da análise da gratuidade para o consumidor, quais sejam a utilização da não gratuidade como desestímulo à busca pela resolução da controvérsia pelo consumidor, o que, entretanto, somente surte efeito quando da existência da cláusula de barreira (que impede a busca pelo judiciário), e a influência, na hipótese da gratuidade obrigatória para o consumidor, do poderio financeiro do fornecedor na decisão, a partir do momento em que todos os custos ficam por sua conta.

Conforme analisado supra, encontram-se, no exemplo norte-americano, ambos os oportunismos: tanto os julgamentos enviesados em decorrência de acertos financeiros escusos entre ente arbitral e fornecedor, como no escândalo da NAF229, fortemente auxiliados pela cláusula impeditiva de ingresso no judiciário por parte do consumidor, o que, inclusive, dispensava a utilização da gratuidade como atrativo, quanto o uso dos encargos financeiros da arbitragem como desincentivo, reforçado pela costumeira previsão de pagamento adiantado e independente do resultado230.

No panorama brasileiro, todavia, o cenário muda. Vê-se que a cláusula de barreira, essencial em ambos os casos, é incompatível com o sistema legal pátrio231, além de ser

jurisprudencialmente rechaçada232, e a arbitragem somente se pode instituir, em relações

consumeristas, como estudado em capítulo anterior, com a aceitação do consumidor após o surgimento do conflito, tendo, esse sujeito, a prerrogativa de, preferindo, optar pela via estatal. Desse modo, a tentativa de desestimular o consumidor a levar suas pretensões resistidas à resolução jurisdicional por meio da atribuição exclusiva ou repartida dos ônus financeiros da arbitragem não surte qualquer efeito, tendo em vista que o consumidor pode se socorrer do poder judiciário e do benefício da gratuidade de justiça.

A influência do poderio financeiro do fornecedor no julgamento da lide, no entanto, merece atenção. Nancy Andrighi233 sugere a atribuição do dever de fiscalização ao Ministério Público como ferramenta para coibir esse tipo desvirtuamento e proteger o consumidor de

229 V.g., MAGGS, Peter B. Abusividade da cláusula de arbitragem no direito norte-americano, em especial nos contratos com consumidores. Tradução por: MARQUES, Cláudia Lima. Revista de direito do consumidor, São Paulo, v. 79, p. 193-219, 2011. p. 206.

230 MAGGS, Peter B. Op. cit. p. 198.

231 “Art. 51. São nulas de pleno direito, entre outras, as cláusulas contratuais relativas ao fornecimento de produtos e serviços que: [...] VII - determinem a utilização compulsória de arbitragem”. BRASIL. Lei 8.078, de 11 de setembro de 1990. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L8078.htm>. Acesso em: 07 jan. 2018.

232 V.g., “a [...] instauração da arbitragem pelo consumidor vincula o fornecedor, mas a recíproca não se mostra verdadeira [...] É que a recusa do consumidor não exige qualquer motivação. Propondo ele ação no Judiciário, haverá negativa (ou renúncia) tácita da cláusula compromissória”. BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Recurso Especial 1.189.050/SP. Brasília, 01 de março de 2016. Lex: jurisprudência do STJ. Ementa.

233 ANDRIGHI, Fátima Nancy. Arbitragem nas relações de consumo: uma proposta concreta. Revista de

acertos escusos entre fornecedores e instituições de arbitragem. No entanto, a simples previsão de fiscalização não deve bastar para o legislador – podendo-se criar mecanismos de incentivos e barreiras eficientes a oportunismos, não há motivo para sobrecarregar em demasia o Parquet: que ele seja o fiscalizador, sim, mas que a norma ajude por si só a impedir a proliferação de ocorrências de condutas indesejadas234.

Em assim sendo, como o regramento sobre gratuidade pode influir nessa questão? A princípio, a resposta é simples. Olhando-se exclusivamente para esse fator, a atribuição integral dos ônus financeiros da arbitragem, por via de lei, a qualquer das partes confere ao sujeito escolhido o poder de influir no julgamento, senão sob uma perspectiva individualizada do caso, sob uma ótica de escala – sendo o fornecedor, parte economicamente mais forte, a decisão favorável a seus interesses enseja a continuação da escolha pelo mesmo órgão julgador235, enquanto a frustração de seus interesses pode provocar a mudança de ente decisor, o que constitui elemento potencialmente relevante, pensando-se sob a ótica lucrativa, para o(s) árbitro(s). Sendo, todavia, o consumidor, haveria a possibilidade de haver semelhante influência? Sim, porém não de forma imediata. Uma vez não sendo este o litigante habitual que normalmente é o fornecedor, a decisão que lhe é desfavorável pode interferir na escolha de futuros consumidores litigantes, por meio da circulação da informação, especialmente pela

internet, de que tal e qual centro de arbitragem ou determinado grupo de árbitros não decide

favoravelmente aos consumidores. Para tais efeitos, no entanto, há a dependência de que essa proliferação informativa ocorra eficientemente, em meio ao excesso de informações hoje em dia circulantes, e apesar das vulnerabilidades do consumidor. Em assim sendo, o ônus financeiro a cargo exclusivamente do consumidor também pode, ainda que de maneira mais tímida do que a da hipótese do fornecedor, influir na decisão do árbitro. Todavia, não se olvide que, uma vez ficando às suas custas o ônus financeiro da arbitragem, o consumidor, via de regra, tenderá a optar pelo aparato estatal, no qual pode se beneficiar da gratuidade de justiça.

Finalmente, de modo que a se chegue a conclusões efetivas, necessário se faz analisar conjuntamente o regramento da gratuidade com o da direcionalidade.

234 “Os formuladores de políticas públicas nunca devem esquecer os incentivos: muitas políticas alteram os

custos e benefícios para as pessoas e, portanto, alteram seu comportamento”. MANKIW, N. Gregory. Introdução

à economia. Tradução da 5ª edição norte-americana. 2. ed. 5. reimp. São Paulo: Cengage Learning, 2013. p. 7.

235“Câmaras ou árbitros reiteradamente indicados pelas grandes empresas, para milhares de ações envolvendo

consumidores, podem, ao longo do tempo, se amoldar aos interesses daquele que os indica”. TAPAI, Marcelo. A arbitragem como meio alternativo para a solução de conflitos. Revista de direito do consumidor, São Paulo, v. 106, p. 590-598, 2016. p. 595.

3.2.3 Efeitos da combinação entre as normas sobre direcionalidade e as normas sobre