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Os rituais de nascimento, casamento e morte

No documento CURITIBA 2011 (páginas 71-76)

4.3.1 Sobre o nascimento

Segundo Pereira (2009), um cigano só terá verdadeira importância para a sua comunidade quando se casar e tiver filhos. Sobre o nascimento, Pires Filho (2005) afirma que o bebê cigano quando nasce é motivo de festejos e de grande alegria.

A mulher cigana quando se encontra grávida, é alvo de toda atenção e é preservada por todo clã cigano, devendo ser mantida sob vigilância e cuidados especiais, não podendo ver ou ouvir fatos desagradáveis, estar em lugares que sejam feios, até mesmo ver máscaras ou fotografias feias (PIRES FILHO, 2005, p. 37).

Muitos rituais se evidenciam na ocasião do nascimento do bebê cigano e, a exemplo disso, há os diversos rituais de purificação.

Muitos são os modos de vida que caracterizam a etnia cigana, dentre eles a valorização da língua, de proteção e de reconhecimento paternal. Sobre esses rituais, Costa (2006) esclarece:

No ritual de purificação, o recém-nascido era lavado e banhado abundantemente em água corrente. No ritual de proteção o recém nascido era untado com óleo que deveria proteger a criança contra o mau-olhado. Era também costume o emprego de talismãs e de amuletos contra os espíritos maus. Nos rituais de reconhecimento paternal era costume, no norte da Hungria, embrulhar o recém-nascido em faixas sobre as quais

tinham sido derramadas algumas gotas de sangue do pai. (p.190)

Foi possível encontrar, na literatura, outras práticas interessantes em relação ao nascimento do bebê cigano, como o fato de que:

Quando nasce o bebê, no momento de sua primeira mamada, a mãe cigana lhe sopra no ouvido seu primeiro e mais importante nome, que ninguém fica conhecendo e que deverá levá-lo para o túmulo consigo. Esse nome, nem mesmo o pai fica sabendo. Os ciganos entendem que dessa forma a criança fica protegida das tentações dos demônios, dos duendes e dos maus espíritos. (COSTA, 2006, p. 38).

Ainda segundo Costa (2006), “esse nome somente deverá ser usado pela mãe nos momentos de muita dificuldade daquela criança, fazendo suas orações para ajudá-la, por ser um nome completamente místico e somente reconhecido por ela (mãe) e pelo universo místico”. (p. 38)

Conzannet (citado por COSTA, 2006) refere que, de uma maneira geral, os ciganos adotaram a religião das populações sedentárias. Assim, nos países cristãos, o batismo tornou-se um ritual quase obrigatório. De acordo com Pires Filho (2005), em geral, o batizando costuma estar vestido todo de branco e deve permanecer junto de seus padrinhos, formados por casais, podendo ser mais de um.

Os homens ficam de um lado e as mulheres do outro; o padrinho acompanha e participa de toda a cerimônia batismal permanecendo ao lado de quem está sendo batizado, o tempo todo fazendo parte efetiva de tudo e oferece como presente naquele momento uma moeda de ouro que leva o nome de galby, com o propósito de lhe trazer fortunas e muita sorte, com prosperidade e saúde, assumindo a responsabilidade como um segundo pai. Esse galby será usado no pescoço com uma corrente de ouro para toda vida. (PIRES FILHO, 2005, p. 39)

Segundo Costa (2006), as primeiras menções aos batizados de crianças ciganas aparecem na “Cosmologia Universalis” de Sebastien Münster, em 1489-1552, onde referia que, apesar da ausência de religião, os ciganos batizavam as suas crianças.

4.3.2 Sobre o casamento

Segundo Costa (2006), o casamento cigano era essencialmente visto como uma realidade humana, natural, não introduzindo nele a intervenção de força ou de seres superiores. Pereira (2009) refere que o “casamento entre os ciganos tem tanta importância – chega a ser considerado ponto de honra – que as mulheres e homens que permanecem solteiros têm, dentro dos grupos, uma posição menos valorizada.” (p. 69)

Do mesmo modo que acontece nos nascimentos, o casamento cigano envolve uma série de rituais, práticas e comemorações. No entanto, algumas regras devem ser rigorosamente cumpridas. Costa (2006) refere que

a primeira regra do casamento era a interdição dos casamentos mistos: ciganos com não-ciganos. Tratava-se, essencialmente, de uma tendência para se casarem com parentes ou conhecidos, preferência esta que estava ligada aos seus modos de vida: o nomadismo. (p.193).

Outra regra que deve ser seguida à risca é a virgindade da noiva. Se a moça que casar não for mais virgem, tal condição pode resultar em imediata separação. Segundo Paiva (2009), no dia seguinte ao casamento “é feito o exame do sinal de virgindade, através do lençol manchado. Quando verificada, explodem em festas, rasgam a camisa do pai da noiva e o carregam pela casa ou acampamento”. (p. 8)

Os ciganos não toleram o adultério e bigamia, condição prevista tanto para o homem quanto para a mulher, sendo que, se o casamento não der certo, poderá ser dissolvido, e o homem e a mulher poderão casar várias vezes.

No que diz respeito à idade para se casar, entre os ciganos, geralmente, realizava-se a partir dos 12 anos, “idade a partir da qual os ciganos consideravam que uma rapariga cigana podia ser pedida em casamento, embora houvesse

exceções e se assinalassem casamentos com jovens aos 10 anos”. (COSTA, 2006, p. 194)

Os rituais do pedido de casamento variavam muito de comunidade para comunidade. Assim, nos ciganos da Transilvânia, era o rapaz que escolhia a rapariga oferecendo-lhe um lenço de seda vermelho que colocava à volta da tenda da sua família. Noutras comunidades utilizavam-se intermediários para demonstrar os sentimentos do futuro noivo, oferecendo à noiva flores, lenços ou peças de ouro. Para outras comunidades, como por exemplo, entre os ciganos da Bélgica, da Suíça e da Espanha, o ritual era do tipo patriarcal. Os jovens não tinham iniciativa nenhuma, sendo o pai do jovem que procurava a noiva. A intervenção do pai, ao procurar a noiva para seu filho, seguia, também, um ritual. Assim, o pai da noiva ao aceitar beber um copo de vinho oferecido pelo pai do jovem, significa que ele aceitava o jovem para a sua filha. (COSTA, 2006, p. 195).

Com base no exposto, é possível perceber que a cultura cigana preserva os seus valores, suas regras e os rituais que ao longo dos anos tem acompanhado os diferentes grupos ciganos que transitam pelo mundo.

4.3.3 Sobre a morte

De acordo com Pereira (2009), o culto aos mortos é uma área sagrada para os ciganos e revela que este é um povo com forte sentido de religiosidade, que crê no além e pode-se dizer que herdou da filosofia hindu a ideia do retorno permanente à vida. Cozannet (citado por COSTA, 2006) também refere a ideia do retorno, ao colocar que os ciganos acreditavam na imortalidade da alma e representavam-na de uma maneira material. Isso quer dizer que os ciganos ignoravam a categoria do espiritual como realidade não corporal.

Se o cigano falava de espíritos, de demônios, da alma, era sempre na forma de seres mais ou menos materiais. A construção destes seres espirituais era como que uma projeção das forças da natureza. Era um tipo de religiosidade primitiva. Neste sentido, a concepção de imortalidade era próxima da religião egípcia e do espiritualismo grego, que recusavam desvalorizar a vida na terra em detrimento de uma imortalidade imaginária. (COSTA, 2006, p. 203).

A literatura concernente às populações ciganas aborda sobre ritos que fazem parte do culto aos antepassados. Nestes ritos, existem algumas práticas preservadas pelo grupo Rom, e que são realizadas três dias após a morte de um determinado membro do grupo e se repetirá 41 dias depois. De acordo com Pereira

(2009), o ritual intitulado pomana é muito preservado pelo grupo Rom, e caracteriza-se da caracteriza-seguinte maneira:

À pomana comparecem parentes e amigos do morto vindos de todas as partes do país. Dá-se então um banquete com as comidas e bebidas preferidas do antepassado. Caso ele não ingerisse bebida alcoólica, não haverá bebida alcoólica. Do mesmo modo, as pessoas que comparecerem à pomana só fumarão se o antepassado tivesse esse hábito. Caso contrário, ninguém pode fumar. À cabeceira da mesa, onde é oferecido o banquete aos convidados, ficará uma pequena mesa com uma foto do morto, alguns pertences que não foram enterrados com ele, muitas flores e frutas e um prato com as mais diversas comidas, que deverá permanecer sempre cheio. (PEREIRA, 2009, p. 76).

A autora enfatiza o fato de que embora a pomana seja uma oração familiar do ritual balcânico, ela se difundiu para os ciganos eslavos, para os demais ciganos europeus e é seguida pelos ciganos brasileiros, de modo que cada subgrupo possui rituais diferentes para essa prática cultivando a essência do rito. Pereira (2009) destaca, ainda, que toda essa série de rituais que constituem a pomana, além de revelarem o sentimento e carinho dos ciganos pelos seus antepassados, são a garantia de que o duho13 não ficará mais vagando pelos lugares da terra e seguirá em paz para outro local.

Com base no exposto, é possível perceber que os rituais que envolvem o luto são muito valorizados pelos ciganos, tornando as práticas a eles relacionadas momentos de bastante comprometimento com aquele que faleceu. Por outro lado, foi possível encontrar na literatura informações interessantes relativamente à morte de crianças. De acordo com Coelho (1995), as crianças (pelo menos algumas) são enterradas nos cemitérios cristãos. O cadáver é acompanhado de homens e mulheres, soltando estas grandes alaridos. No entanto, não existem rituais mais específicos envolvendo a morte das crianças, ou seja, não bailam e nem cantam nessa ocasião, como no caso da morte de adultos.

Pereira (2009) refere, ainda, que depois da morte de um cigano seu nome não pode mais ser pronunciado, a não ser em caso de muita necessidade.

No documento CURITIBA 2011 (páginas 71-76)