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Contam os mais idosos moradores de Cruzeiro do Sul, como a Senhora Maisa Correa de Souza, nascida em 1922, Colocação Besouro, no Porto Seguro alto Juruá, perto do Seringal Triunfo: “os homens olharam o céu, as estrelas, a lua e devem ter achado muito bonito o Cruzeiro e aí deram nome à cidade. O Cruzeiro é bonito mesmo, bonito de ver no verão. Cruzeiro tá pareado. Era bonito, agora tá ficando feio -- né, nega véia?” (Maisa Correa de Souza, 88 anos)

Essa fala de Dona Maisa Correa de Souza é uma primeira introdução que revela a percepção da natureza por parte dos moradores da região como um todo, abrangendo desde o comportamento dos animais na mata até a aparência das constelações no céu. É o que

buscaremos trazer agora com observações acerca “das mudanças nos tempos” que ex- seringueiros, agricultores e ribeirinhos vêm vivenciando atualmente em seu cotidiano.

As mudanças no clima são algo diferente do normal, considerados fenômenos incomuns e que interferem diretamente nas atividades cotidianas, como a preparação e o cultivo do roçado, a caça, a pesca e na vida dos ex-seringueiros, ribeirinhos e agricultores moradores da região do Juruá. Os moradores vêm percebendo e dizendo que o clima tem se alterado muito, aspecto determinante do calendário agrícola da região. O que será exposto a seguir são as nuances dessas mudanças climáticas, sendo que de acordo com esses moradores essas transformações vêm sendo percebidas e têm acontecido com mais velocidade nos últimos anos. Antigamente, dizem eles, a estação das chuvas se distinguia claramente da estação das secas. Sabe-se que essa área da floresta amazônica se distingue pela existência de duas estações: a seca ou verão e a chuvosa ou inverno. O ano era então dividido da seguinte maneira: o período das chuvas ou inverno, que se estendia de outubro até abril, marcado pelas primeiras chuvas entre final de setembro e meados de outubro; e o verão, que começava com as primeiras friagens em final de abril, indo até o início de julho, época em que “chegava a força do verão” e que ia diminuindo e se encaminhando para o período de inverno que ocorria em meados de setembro. Ciclo este que se repetia com certa normalidade ano após ano, o que facilitava a execução das atividades realizadas pelos habitantes da floresta.

Em algumas falas se nota que essa anormalidade vem sendo recorrente desde a seca de 2005, que atingiu algumas partes da região Amazônica e a região do Juruá. A normalidade constitui em obter chuva e sol em quantidades desejadas e sua alternância em períodos pré- determinados, conhecidos e aguardados para a agricultura, para que tanto os indígenas como os ribeirinhos e ex-seringueiros, muitos atualmente pequenos agricultores, possam efetuar seus trabalhos garantindo o alimento dos seus e a provisão de renda para a família. Da percepção dessa normalidade vem a constatação das transformações climáticas. Portanto, o ciclo ordenado do clima é essencial para a economia local, e essencial para a vida dos agricultores da região. Os discursos narrativos expressam os conhecimentos naturais e climáticos, dentre outros, e demonstram a modificação e as mudanças nesses sistemas como um todo, resvalando no cotidiano dos moradores da floresta desta região. Os moradores da floresta revelam que detinham o conhecimento dessas representações. Esse saber se deu através do acúmulo das percepções dos aspectos naturais como um todo, desde o comportamento dos animais influindo e/ou vaticinando sobre aspectos climáticos, a chegada do verão, das friagens, dos repiquetes e do período chuvoso

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que os possibilitavam organizar suas atividades anuais, especialmente a agrícola, de acordo com esse calendário e ritmo climático.

Muitos moradores da floresta, de ramais ou interiores, comentam que desde 2005 não foi mais possível falar em estação seca, pois chove praticamente o ano todo, inclusive nos meses que outrora ocorria o auge da estação seca ou “da estiagem”. As friagens que marcavam o início do verão não existem mais, os ventos estão modificados e chove muito mais do que antes entre os meses de maio e setembro. Buscar as interpretações dessas alterações, tendo como ponto de vista as percepções dessa população é o que se pretende aqui, bem como averiguar possíveis reações a essas alterações no clima local. Busco assim trazer à tona o que vem sendo modificado no ritmo de vida desses moradores da floresta.

Observar a natureza e sua dinâmica é prática comum entre populações que vivem nas selvas tropicais, em meio à dinâmica de estações e sazonalidades de rios, estiagens e chuvas, e isto forma a base das maneiras de agir dessas populações perante o que é hoje sua atividade essencial, isto é, a agricultura.

Importância dos roçados

Assim como muitos indígenas, os ex-seringueiros e ribeirinhos detêm um grande cuidado com relação ao plantio do roçado.

Nota-se que cada casa da Reserva Extrativista do Alto Juruá tem sua rotina no roçado e com os produtos a serem vendidos na Vila ou em Cruzeiro. Em agosto, por exemplo, é momento de colher cana e feijão, e também plantar feijão, jerimum e melancia. Fazer farinha para comer e para vender é uma atividade constante ao longo do ano, sempre que haja roçados.

Dona Socô diz que não quer ir pra cidade (Cruzeiro) porque lá é tudo do comprado, aqui dá pra botar roçado de banana, fazer farinha, roçado (entende-se macaxeira), roçado de arroz, roçado de feijão. “As pessoas daqui dizem ‘vou por roçado’, já se entende que é macaxeira, só as outras coisas que a gente diz do que é.” Quando a macaxeira está madura o sinal é dado quando o olho da macaxeira forma bolinhas: é quando ela está boa pra fazer farinha. Pode plantar macaxeira com milho e mamão, a batata, o inhame, pimenta, tudo se planta dentro do roçado. “Planta no verão e colhe no outro verão, demora um ano pra colher, com um ano tá madura e boa pra fazer farinha, mas tem aquelas que com nove meses já se pode tirar da terra.” Dona Maria

Margarida Cordeiro Moreira (Maritô), da Comunidade Quieto, rio Amônia, fala sobre seu roçado: na “roça eu planto de quatro qualidades: curimé é roça ligeira, é de seis meses; a mulatinha é roça pra dois anos; a liberata é amarela e ligeira também igual ao curimé, e a camparia é pra um ano; tem a fortaleza é da casca branca e a mulatinha que é da casca vermelha. É plantado tudo num tempo só em setembro e quando é pra colher, colhe-se a curimé, a liberata e as outras depois.” De acordo com Maria Ferreira da Silva (Dona Maria), 74 anos, moradora da Comunidade Belfort, “tudo que se quiser plantar se planta no verão: cebola, couve, horta, melancia, feijão da praia, é tudo no verão, você não planta nada no inverno. No inverno as plantas morrem todas, por causa da chuva se cria mofo e mata os pés de folha.”

O plantio está sendo afetado contudo pela mudança no verão e pelas “chuvas fora de época”. De acordo com Juscelino Rodrigues de Souza (Peba) da Restauração, “o verão (2009) está demorando a chegar e que essas chuvas fora de época não são normais. Tem gente plantando o feijão de praia e torcendo para que ele não apodreça, porque tem roça de mandioca que já está apodrecendo.” Luzia Pereira Barros (Dona Sôco), 47 anos, moradora da Comunidade Belfort disse “que ainda não começou a fazer o verão mesmo com aquela friagem e com rio de água morninha, esse ano tá chovendo bastante e fora do tempo.” Segundo ela, “pode estar atrasando para começar o verão, e por conta disso o verão pode ser mais forte.”

De acordo com Francisco de Oliveira da Silva (Chico Velho), da Comunidade Quieto – rio Amônia, a área a ser escolhida, onde será colocado o roçado, depende da localização, de preferência terras altas, “mais pra não alagar mesmo”, e áreas que já se tornaram capoeiras, onde ocorrerá a derrubada dos paus grossos e alguns finos, deixando o chão mais limpo possível para facilitar a queima do roçado. A queima é uma ação controlada pelo agricultor que cava um aceiro em torno da área a ser queimada para que o fogo não se alastre.

Há toda uma ciência da queima do roçado. De acordo com Chico Velho, “pra saber se aquele

é um bom dia tem que perceber a cantoria dos bichos que tão dizendo se vai chover e a hora. Antigamente não tinha erro, a gente também olha o rio, se está em vazante é sinal de chuva e os ventos e as nuvens correndo.” Como se pode perceber, há um grande cuidado com o momento de colocar o roçado.

Antigamente, abril e maio era a ocasião da derrubada da capoeira a ser queimada. A queima ocorre no final da estação seca, que ocorria antigamente, segundo nosso interlocutor e outros moradores, em agosto. Em seguida vinha o plantio. Agora, vem ocorrendo a queima até em meados de novembro.

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A roça nova (em vez da que é plantada na capoeira) exige mais trabalho do agricultor porque o tempo do derrubar até o queimar aumenta, devido ao fato de os paus estarem mais fortes e verdes: “eles tem que ficar mais secos pra coivarar de uma só vez”. Quando a roça não é bem queimada por algum fator, geralmente chuva, tem que se repetir a queima, isto é, “encoivarar o roçado”, juntando o que não queimou e voltando “a botar fogo novamente”. As roças seguem um processo de rotação pela qual as áreas usadas são abandonadas após três anos de uso -- quando ocorre o declínio de produtividade --, para que ali cresça novamente uma capoeira nova que será em poucos anos uma capoeira velha, e depois floresta nativa, reconhecida como mata secundária apenas por excepcionais especialistas, nativos ou não.

Francisco Epifânio do Nascimento (Chico Epifânio), de Marechal Thaumaturgo, comenta sobre o aumento da quantidade de chuvas no ano como um todo e os efeitos disso sobre o trabalho nos roçados. A fala de Seu Epifânio mostra que antigamente era necessário entender a dinâmica do tempo por causa da seringa, enquanto atualmente a preocupação principal do tempo tem relação com a agricultura.

“Hoje eu acho que tá mais chovendo; antigamente passava mais de mês sem chover e hoje não passa dez dias, e se chover muito a chuva estraga o legume. Tem que ser chuva certa, num certo ponto para que o legume resolva crescer. Pra fazer o roçado, broca-se o mato e se derruba os paus; quando tá seco se toca fogo na coivara, planta- se o milho, planta-se a roça, planta-se o arroz e se faz as carreirinhas, depois se faz outra carreirinha de novo, fica tão bonito, tudo tinha a época certa. Eu plantei de tudo, milho, roça, ananás, cana, feijão, milho, melancia, tudo que tinha de plantação eu plantei. Começava em abril e fazia uma tal de friagem e chegava verão, verão mesmo com força era em maio, eu cheguei a alcançar mais de mês sem chover, verãozão medonho, hoje as friagenzinhas que vem não duram três dias, tem vez que vem um dia só e acaba, que friagem é essa? Agora setembro era a época de chuva, as pessoas esperavam sempre em setembro pra dar as manivas. Quando era no tempo de seringa, cinco horas o cara tem que estar no ponto, serviço à toa doido, eu tinha duas estradas, eu cortava seis dias na semana, corta e fecha o corte e pega o balde e vai colhendo. O balde enche, você coloca dentro do saco, amarra a boca depois de ficar cheio e se joga nas costas e vem até chegar em casa; antigamente a gente defumava, botava fogo numa fornalha e ia defumar, ia lavando ali e a fumaça ia qualhando, aí depois a gente parou de fazer a borracha de leite talhado e aí fazia as pranchas de borracha, depois inventaram de fazer aquela borracha fina, aí dava muito trabalho, mas ficava uma bota bonita, dava mais dinheiro. Quando eu deixei de cortar só defumava e botava pra qualhar e aí foi caindo e eu não cortei mais, pus meu filho pra tomar conta e mexia só com a roça mesmo, as vezes caçava pra comer, o que encontrar matava, ficava de noite esperando nas comidas, os bichos vinham comer e a gente comia ele.” (Francisco Epifânio do Nascimento)

A preparação do roçado é completamente dependente das estações do ano, pois o roçado deve ser queimado antes das chuvas e plantado logo em seu começo. Por isso, a observação das estações é de suma importância. O início do verão é esperado e o final dele é monitorado com muita atenção, pois é preciso terminar o trabalho de botar o antes do início das chuvas.

Mas atualmente, depois que as chuvas passaram a ser constantes e intensas, “não tem tempo certo”; os paus e galhos que foram derrubados e brocados correm o risco de ficar úmidos demais e assim não pegam mais fogo e todo o trabalho é perdido. De acordo com Francisco Oliveira da Silva (Chico Velho), da Comunidade Quieto, rio Amônia, “hoje em dia aí que tem que ficar de olho nos tempos mesmo, com toda a atenção, porque não regula mais, e se não pastorar o tempo mesmo aí é que tá arruinado mesmo.”

Outra fala sobre as mudanças no clima que afeta o início do plantio e das alternativas para tentar ludibriar as anormalidades dos efeitos dessas transformações para o plantio do roçado é de Zé do Vale, da da Comunidade Quieto, Colônia Três Irmãos, rio Amônia:

“Meu pai é Pedro de Souza do Vale e minha mãe é Raimunda Gomes de Azevedo, a família Vale é grande aqui por Thaumaturgo. O Amônia era o antigo Seringal Minas Gerais que ia da Vila até a fronteira com o Peru, eu conheço todo o tempo ele. Eu lembro que abril era época mesmo de broca de barranco e maio brocar a cana-brava pra plantar roça. Junho era a época certa de friagem. Hoje não tem mais planejamento de antigamente, a gente faz meio pelo rumo e reza pra não dar alagação, não tem o que fazer, só minha casa que eu refiz ela com barrote bem alto mesmo para não chegar água, só chegar se for acabar o mundo mesmo” (José Gomes do Vale – Zé do Vale, 46 anos).

Nota-se que Zé do Vale, e não só ele na região, comenta sobre o início dos trabalhos no roçado e sobre as alternativas que vem sendo adotadas por ele e por outros para se precaverem de perder as sementes e o trabalho, bem como a casa, que fica à beira do rio,55 como muitas outras na região.

Dona Raimunda Gomes de Azevedo, observa sobre a antiga regularidade dos tempos: “Meu pai é o José Margarido, sou irmã do Raimundo Margarido, Luciano Margarido, Francisco Margarido (Chico), Sebastião Margarido que mora em Rio Branco. Eu tenho uma filha que mora em Pucalpa, Olinda Gomes de Azevedo, a família sempre morou na Vila, eu nasci na boca do Amônia, a gente sempre plantou tabaco, inhame, batata,

55 Antigamente muitas casas de seringueiros se localizavam em centros, como eram chamados locais no interior da mata e afastados da margem dos rios principais. Eram lugares onde havia seringueiras mais produtivas. Com o fim da atividade extrativa, esses seringueiros migraram para a beira dos rios, onde se tornaram agricultores, e onde o transporte é mais fácil. Nos seringais, seringueiros plantavam roçados, mas o produto era para o consumo familiar. Nos dias atuais, há também a venda de produtos agrícolas, de onde provém para muitos o sustento da família.

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feijão, macaxeira de quatro tipos e primeiramente, nos dias de verão em maio era época de plantar tabaco no barranco e depois do último repiquete nas praias, tudo agendadinho mesmo. Tinha vizinho que teimava e plantava na praia, não sabia ou queria ver se ganhava mais. Aí de certo vinha o repiquete e levava a plantação e tinha que plantar de novo, não adiantava brigar com os tempos, perdia mesmo. Tinha que obeceder os tempos senão perdia mesmo. Hoje não tem mais data pra repiquete e tem ano que nem tem, as pessoas ficam esperando e não dá, o jeito mesmo é plantar em roçado mesmo pra garantir um dinheirinho, mesmo que não dê bonito mesmo. No inverno só fazia comer o que tinha mesmo e fazia os meninos limparem o roçado, o bananal, os pés de fruta, de coco, quando dava ficava aquele chuvisqueiro só.” (Raimunda Gomes de Azevedo, 75 anos).

Como exposto, “os tempos de antigamente tinham regulação” e o que está se comprovando é que não há mais essa normalidade de um verão e inverno devidamente divididos e esperados. Muito pelo contrário, o que há é anormalidade. Ela se expressa na insegurança dos agricultores em saberem se já se iniciou o verão e se eles podem realizar principalmente o plantio em praia. Caso não se tenha iniciado de fato o verão, que era identificado quando ocorria o último repiquete, que em dias atuais é dificilmente identificado com regularidade como outrora, perde-se o todo trabalho e as sementes.

Dona Marlene Lopes de Oliveira, casada com Raimundo Batista do Nascimento, moradores da comunidade Santa Luzia, também comentam sobre as mudanças no verão e as diferenças de antigamente para os dias atuais:

“Antigamente, de maio a outubro era o verão mesmo. Agora não existe mais friagem e nem regulam os meses. Piracema era com certeza em agosto e setembro, e o inverno de novembro até abril. E ai vinha de novo o verão, os seringueiros sabiam que antigamente em abril já dava pra sair pra cortar e esperavam animados a chegada desse dia: era buzina, era grito, era tudo muito animado. Fazia a buzina com buzo: é um caracol que serve pra fazer buzina, era todo mundo com sua buzina animado. (...) Antigamente dava pra jogar as semente [i.e. semear], hoje tem que enterrar mesmo pra pegar porque com a quentura que está se jogar a semente vai ficando fraca e morre. Hoje o inverno está mais forte e o verão menor e forte também. Antigamente em maio e junho era época de feijão de praia, melancia, batata, mamão, se plantava pra dar em agosto e setembro, hoje não regula mais, já vi muita gente perder a plantação porque vem repiquete assim de uma hora pra outra, é assim.” (Marlene Lopes de Oliveira, 57 anos).

Dona Marlene e Seu Raimundo comentam a percepção das mesmas transformações que ocorrem nos altos dos rios em áreas de interiores das florestas, nos ramais em que moram atualmente. Esses ramais – estradas de terra que dão acesso a lotes agrícolas --, foram áreas de floresta, mas nos dias atuais estão mais devastados. As comunidades à beira de ramais têm fácil acesso, diferentemente dos altos dos rios que apenas possuem acesso por via fluvial. A menção ao

fato de que atualmente é preciso enterrar bem as sementes remete ao verão mais forte. O senhor José Carlos de Oliveia revela:

“Antigamente se podia ir no meio do tabocal e da capoeira fina mesmo e jogar as sementes de feijão, hoje não dá não, tem que plantar mesmo porque o sol tá muito forte, tá baixando, né, e derrota a semente ela não nasce, a gente perde muito assim, agora tudo é bem diferente mesmo, tem coisa que eu fazia que não dá para fazer mais” (José Carlos de Oliveira, 78 anos, da Comunidade Campinas)

Raimundo Faustino (Seu Tanque) diz:

“Se plantar em lua ruim os produtos não vão prestar. A roça e o milho se plantam em setembro agora, na primeira chuva e na lua nova, mas tem vez que a primeira chuva dá lá pro final de setembro e até em outubro mesmo. Na lua cheia só dá fiapo, a primeira lua nova de setembro, quando ela é nova (uns três dias dela é nova) é o jeito de plantar e aí o milho vem com uma força monstra. O jeito agora é curiar a lua e os tempos mesmo, porque tem que ser depois da primeira chuva. O feijão era botar em março e fevereiro na lua nova também, e agora no primeiro dia de lua nova de maio porque tá atrasado o verão. Agora em maio é hora de aprontar o roçado, tem vez que tá sendo junho, faz-se a limpa e depois de o verão bem firmado é que planta e tem a força da lua pra dar bem o que planta, tem de ver.” (Raimundo Faustino (Seu Tanque), 50 anos, Comunidade Boca do Caipora, rio Juruá).

Sebastião Oliveira da Silva (Tengo) também comenta sobre alguns problemas para a colocação de roçado, principalmente do roçado de praia atualmente:

“Antigamente o feijão era plantado assim mesmo, jogado em praias em abril pra colher agora em junho antes do último repiquete, e tinha que plantar no escuro com a lua é nova. Lua nova bem baixinha e quando é sete ou oito da noite ela tá sentando. A de hoje a noite ela é crescente para cheia não é boa pra plantar. Tem gente que gosta de plantar no escuro porque livra do mal e do inseto da broca, livra da praga comer. Meu pai sempre falava, é eu faço, mas a época de plantar é que hoje tá complicado porque a gente não sabe mais quando vai dar repiquete. Eu já vi muita gente perder o

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