CAPÍTULO III – A LÓGICA DAS COMPETÊNCIAS E A FORMAÇÃO DE
1. CONCEITO DE COMPETÊNCIAS – suas origens e vinculações com o campo
1.1. Os saberes do trabalho: a abordagem cognitivista
A psicologia cognitiva,49 uma das áreas que integram as chamadas ciências cognitivas,50 vem inspirando largamente os estudos sobre competências, em especial aqueles oriundos do campo da ergonomia.
A ergonomia, de reconhecida filiação ao taylorismo, considera que as novas tecnologias tornaram as tarefas mais complexas, o que implica também, em conseqüência, o desenvolvimento de trabalhos mentalmente mais complexos; esse novo contexto orientou uma mudança de foco nas pesquisas e estudos na área que se voltaram
para a análise do processo de trabalho em termos de processo de pensamento (AUBRET et al., 1993). É a atividade trabalho que será, doravante, o foco da
“abordagem ergonômica da atividade humana”.
Fortemente influenciados pelas ciências cognitivas, os teóricos dessa abordagem constróem suas definições vinculando dois termos: competência e performance. De acordo com Mandon (apud HILLAU, 1994), competência é capacidade de saber mobilizar seus conhecimentos e qualidades para fazer face a um problema dado. Nessa mesma linha de argumentação, Leplat (1995), aponta que as competências se caracterizam por alguns aspectos: 1) são sempre finalizadas, posto que se caracterizam pela mobilização de conhecimentos com vistas à realização de um objetivo – uma competência é sempre uma competência para; 2) são, portanto, operativas e funcionais;
3) são aprendidas – não se nasce competente;
49 A psicologia cognitiva tem como objeto de estudo o conjunto dos estados mentais e dos processos psíquicos que fornecem ao sujeito uma representação interna de dados que lhe são externos; esse processamento de informações tem como finalidade a tomada de decisões visando a ação. Conceber o homem como um sistema de tratamento de informações (STI) – captura informações provenientes do mundo externo, as memoriza, realiza operações sobre essas informações e as transmite em direção ao mundo exterior, é uma abordagem epistemológica na pesquisa centrada na compreensão dos processos de pensamento, do conhecimento e dos estados mentais etc (DIJUS, 2002, p. 3).
50 As ciências cognitivas agregam o conjunto de disciplinas que têm como objeto de estudo os sistemas cognitivos. Na psicologia, o termo cognitivo é usado para designar os processos pelos quais as informações sobre o meio são adquiridas e utilizadas. Pode se referir tanto aos organismos vivos quanto a sistemas sociais e artificiais. Esses sistemas são considerados “sistemas cognitivos porque eles, a) dispõem de conhecimentos, quer dizer, de representações internas sobre dados externos; b) eles tratam os dados externos (input) e, c) eles tem um comportamento (output) baseado sobre esses conhecimentos e sobre o tratamento que estes podem receber” (TIJUS, 2001). O estudo dos sistemas cognitivos tem como objeto compreender como os sistemas naturais realizam tarefas complexas (as ciências da vida); visam também pesquisar como os sistemas artificiais devem ser concebidos de modo que possam realizar tarefas complexas. De acordo com Tijus (2002), trata-se de problemáticas que comportam similitudes na medida em que, o estudo do comportamento dos organismos pode ser feito pela fabricação de sistemas cognitivos artificiais análogos aos sistemas cognitivos naturais (pela modelização-simulação na informática); do mesmo modo, sistemas cognitivos artificiais podem se inspirar no funcionamento dos sistemas cognitivos naturais. Como exemplo do que acabamos de mencionar, citamos os estudos acerca da Inteligência Artificial e dos sistemas experts.
4) são organizadas em unidades coordenadas; por fim, a competência é uma noção abstrata e hipotética, só se podem observar suas manifestações. Ela é inferida a partir da performance constatada (LEPLAT, 1995; LEPLAT, apud HILLAU 1994).51 Corroborando as idéias de Leplat, Montmollin também postula que a competência é sempre competência para alguma coisa, “pois a atividade (de trabalho) é sempre orientada para ação. Não há nenhuma atividade trabalho sem objetivo ou “razão” específica” (1994, p.40, tradução nossa). Para o autor, as competências são conjuntos de saberes e de saber-fazer, de condutas-tipo, de procedimentos estabilizados, de tipos de raciocínios que podem ser colocados em ação, sem implicar necessariamente aprendizagens novas (MONTMOLLIN, apud HILLAU, 1994). Como se mobilizam esses conhecimentos? Para o autor, o conceito de metaconhecimento52 é promissor para se compreender essa questão, pois se as competências se estruturam em “modelos”, em “unidades de saber” que incluem a identificação da situação e as ações esperadas para sua realização, então, é preciso que se saiba qualquer coisa sobre essas “unidades”, de modo que sejamos capazes também de geri-las. Ao propor o conceito de metaconhecimento, Montmollin pretende resolver o problema da relação entre as aquisições cognitivas anteriores e a situação de ação; entre as qualidades individuais e as propriedades da situação – saber mobilizar os conhecimentos seria, para o autor, o traço constitutivo da competência.
Em síntese, podemos dizer que, para esses autores, as competências referem-se sempre a atividades e contextos particulares nos quais se exprimem; assim, não existe uma estrutura universal, geral, que se pode chamar de competência. É análise e estudo
51 A distinção entre competência e performance remonta aos estudos de Chomsky sobre o desenvolvimento da linguagem humana. Para o autor, a competência lingüística se refere a um conjunto de regras que regulam os comportamentos no uso da linguagem; esses comportamentos não são observáveis e nem acessíveis a consciência do sujeito. Constituem em uma espécie de matriz universal, de sistema de regras que torna possível criar uma infinidade de novos enunciados e de compreender igualmente enunciados diversos, desde que proferidos na língua materna. Chomsky designa esse sistema operativo da linguagem de gramática generativa. A competência lingüística, essa capacidade de produzir linguagens adaptadas a situações de ordens totalmente diversas, é inata e é diferente dos comportamentos da linguagem, denominados de performance (desempenhos ou comportamentos observados). Piaget, inspirando-se em Chomsky também estabelece distinção entre competência e performance. Para Piaget, a competência se refere a capacidade do sujeito de mobilizar os esquemas cognitivos para atuar em situações diversas. Somente é observável por meio dos comportamentos manifestados sob a forma de desempenho ou performance (FREITAG, 1986). 52 Esse conceito de Montmollin se inspira no conceito de metacognição. Por metacognição designa-se o
conhecimento que o sujeito tem do seu próprio funcionamento cognitivo e daquele do outro. Atualmente, esse termo se refere também para designar também os mecanismos de regulação e de controle dos processos cognitivos. Esses mecanismos se referem àquelas atividades que possibilitam a orientação e a regulação da aprendizagem e do funcionamento cognitivo nas situações de resolução de problema ( MARTIN et. al. 2001).
dos campos de atividades que torna possível sua identificação; assim como não existe atividade em geral, também não existe competência em geral (MONTMOLLIN, 1994).