3. OS SABERES DOS PROFESSORES
3.1 SABERES DOCENTES
3.1.2 Os saberes docentes segundo Clermont Gauthier
Clermont Gauthier (2013, p. 17) define o ensino como sendo um “ofício universal”, tendo “um papel fundamental em nossas sociedades”. O autor sugere que, para que o ensino seja eficiente no campo docente, é necessário conhecer os “elementos do saber profissional docente” para que os professores possam exercer a sua atividade profissional com mais competência. Neste sentido, Gauthier (2013, p. 19) entende que existe um “repertório de saberes” próprios do ensino, que são mobilizados pelos professores durante a sua atividade profissional, mesmo que esta atividade não revele os “saberes que lhe são inerentes”.
Gauthier (2013, p. 24) preconiza que, na educação, assim como nas demais profissões, “existem saberes a serem aprendidos como parte da formação”, os quais não se resumem apenas em conhecer o conteúdo ou ter talento, bom senso, entre outros, mas que permitem “a execução das tarefas que lhe são próprias” e a efetivação de um corpus de saberes (GAUTHIER, 2013, p. 20). Nesta perspectiva, o conjunto de saberes docentes desenvolvido em um determinado processo formativo necessita corresponder à realidade e ao contexto educacional no qual o professor desenvolverá a sua ação de ensinar, precisa ser examinado e “reexaminado à luz do contexto real e complexo de sala de aula” para evitar dois grandes erros de formação: o de um ofício sem saberes e/ou de saberes sem ofício (GAUTHIER, 2013, p. 27).
Assim Gauthier (2013) sustenta que uma ação pedagógica desprovida de saberes não é suficiente, outrossim, que saberes desconectados do ofício são irrelevantes, e, portanto, é preciso pensar em uma formação embasada em um “ofício feito de saberes”. Isso porque, no exercício da sua profissão, o professor mobiliza “vários saberes que formam uma espécie de reservatório no qual o professor se abastece para responder a exigências específicas de sua situação
concreta de ensino” (GAUTHIER, 2013, p. 28). Estes saberes são apresentados no quadro abaixo.
Quadro 5: Os saberes dos professores segundo Gauthier
SABERES
Disciplinares (A matéria) Curriculares (O programa) das ciências da educação da tradição pedagógica (O uso) Experienciais (A jurisprudência particular) da ação pedagógica (O repertório de conhecimentos do ensino ou a jurisprudência pública validada) Fonte: GAUTHIER (2013, p. 29) 1. Saberes DisciplinaresDe acordo com Gauthier (2013), os saberes disciplinares são aqueles que correspondem ao conhecimento produzido pelos cientistas e pesquisadores nas diferentes disciplinas das “diversas áreas do conhecimento”. Estes saberes são desenvolvidos nas universidades através dos cursos de formação “sob a forma de disciplinas”. Neste sentido, por não serem produzidos pelos professores que atuam no ambiente escolar, ao ensinar, eles precisam extrair os saberes produzidos por esses pesquisadores e cientistas. Desta forma, “de fato, ensinar exige um conhecimento do conteúdo a ser transmitido, visto que, evidentemente, não se pode ensinar algo cujo conteúdo não se domine” (GAUTHIER, 2013, p. 29).
2. Saberes Curriculares
Os saberes curriculares são os saberes relacionados ao programa de ensino, isto é, ao “corpus que será ensinado nos programas escolares”. Neste sentido, os programas de ensino são produzidos e modificados de quando em quando, conforme as orientações de agentes contratados pelo Estado. Ou seja, esse corpus não é produzido pelos professores; em oposição, os professores tornam-se agentes transmissores desses programas disciplinares desenvolvidos por especialistas e transformados em livros, cadernos e manuais por diferentes editoras. Desta forma, o professor, ao desenvolver atividades que são inerentes a sua profissão, como, por exemplo planejamentos, avaliações, entre outros, utiliza como base os saberes curriculares do programa de ensino.
3. Os Saberes das Ciências da Educação
O professor, durante seus percursos formativos, desenvolve saberes relacionados ao sistema escolar, isto é, as noções de funcionamento de uma escola, a sua carga horária, os agentes envolvidos neste processo, sobre o que é um sindicato, um conselho escolar, como funcionam e desenvolvem-se as reuniões escolares, entre outros. Tudo isso contribui para a melhor compreensão do seu ofício, da importância da sua atividade e do processo educacional. Estes saberes relacionados à escola (seu funcionamento, público, classes sociais, diversidade cultural, etc.), embora não estejam diretamente relacionados à ação pedagógica do professor, também são saberes específicos da sua profissão e servem como “pano de fundo tanto para ele quanto para outros membros de sua categoria socializados da mesma maneira. Esse tipo de saber permeia a maneira de o professor existir profissionalmente” (GAUTHIER, 2013, p. 31).
4. Os Saberes da Tradição Pedagógica
Quando um futuro professor inicia a formação acadêmica universitária, isto é, a sua formação inicial, ele já traz consigo uma representação do que é uma escola, de como é o cotidiano escolar, do que é ser um professor que sabe ou não ensinar e do ensino simultâneo predominante em sala de aula. Essas representações da escola e da profissão servem “de molde para guiar os comportamentos dos professores” e, embora, às vezes, apresentando inúmeros erros, podem ser modificados ou adaptados “pelo saber experiencial, e, principalmente, validado ou não pelo saber da ação pedagógica” (GAUTHIER, 2013, p. 32).
5. Os Saberes Experienciais
A experiência do professor é algo individual e pessoal, desenvolvida a partir das suas vivências. Através do hábito, a experiência se expande, proporciona aprendizagens e se consolida, propiciando mais segurança na concretização da ação pedagógica e contribuindo para que ela se desenvolva mais fluentemente, isto é, com menos tensão e/ou menos esforço.
Nesta perspectiva, o professor, no interior da sua rotina, elabora estratégias, testa encaminhamentos, faz experimentos, relaciona-se, etc., efetivando, assim,
“uma espécie de jurisprudência” que também irá compor o seu reservatório de saberes para, posteriormente, serem mobilizados durante a sua atividade profissional. Esses saberes são bastante relevantes e, de um modo geral, permanecem limitados à sala de aula e organizados em forma de truques. Neste contexto, o que os limita “é exatamente o fato de que ele é feito de pressupostos e de argumentos que não são verificados por meio de métodos científicos” (GAUTHIER, 2013, p. 33).
6. Os Saberes da Ação Pedagógica
Os saberes da ação pedagógica constituem os saberes produzidos pelos professores na sua experiência docente quando desenvolvem “uma espécie de jurisprudência particular, feita de mil e um truques que funcionam” (GAUTHIER, 2013, p. 34), mas que, no entanto, foram validados e verificados através de “pesquisas realizadas em sala de aula” (GAUTHIER, 2013, p. 33). Nesta perspectiva, os saberes experienciais dos professores que foram legitimados através dessas pesquisas tornam-se conhecidos e “aprendidos por outros professores”, contribuindo, então, no desenvolvimento da formação docente.
Neste sentido, reconhecendo que, de um modo geral, raramente os saberes experienciais tornam-se públicos e/ou são sistematizados através de pesquisas, muitos saberes – que seriam extremamente úteis na formação de professores, sobretudo para o ensino e aprendizagem escolar – acabam se perdendo “quando o professor deixa de exercer o seu ofício”. Sobre isso, Gauthier (2013) destaca que os saberes da ação pedagógica são uma das bases no desenvolvimento da identidade profissional do professor e “para profissionalizar o ensino é essencial identificar saberes da ação pedagógica válidos e levar outros atores sociais a aceitarem a pertinência desses saberes” (GAUTHIER, 2013, p. 34).