3 HISTÓRIA, ESTRUTURA E COTIDIANO DA ESCOLA DE DANÇA DE
3.3 Os saltos para fora do palco principal: Paracuru exporta sua
A fala recorrente dos entrevistados e presente em pesquisas e reportagens sobre a Escola de Dança de Paracuru se apoia muitas vezes na importância da formação técnica e humana da instituição. Alguns bailarinos seguiram a carreira na dança, seja como professores ou como gestores da área cultural ou política. Vários trabalham em escolas ou academias da cidade, mas outros seguiram caminhos fora de Paracuru, e aqui citarei três casos.
O primeiro envolve dois ex-bailarinos dos que começaram o projeto, Fredson de Sousa e Jefferson Freitas, que foram para Campina Grande/PB para desenvolver, como professores de extensão na Universidade Estadual da Paraíba, um projeto de balé para jovens, seguindo os mesmos moldes da Escola de Paracuru.
Fredson me relatou65 que, em 2009, a coordenadora do curso de artes da UEPB, Cláudia Saboia, soube do trabalho do Flávio Sampaio e foi a Paracuru para conhecer o projeto. Após alguns dias, ela fez um convite para que um dos professores fosse para Campina Grande para ser docente nesta escola de artes da universidade. Não conseguiu nesta primeira tentativa, mas em 2010, retornando e levando alguns bailarinos que já participavam das aulas existentes na época, convenceu Lairton Freitas, outro professor da Escola, a ir até Campina Grande. Ele desistiu da ideia, mas conseguiu convencer Fredson, que se mudou para lá. Flávio Sampaio relata em sua entrevista que Fredson quase desistiu da ideia, por medo da mudança, mas o convenceu da importância e da oportunidade que poderia ser única em sua vida.
Fredson relata que, após quatro meses, seu contrato foi firmado e começou a desenvolver o trabalho junto a jovens que já faziam balé, mas acabou também chamando atenção de dançarinos dos projetos de suingueira e de hip hop. Assim, dezenas de jovens, sendo muitos homens, começaram a aprender o mesmo método de ensino do balé que Fredson absorveu junto a Flávio Sampaio. Dois anos depois, Jefferson acabou sendo convencido por Fredson a ir para lá e, além de ter se tornado ensaiador do projeto de balé, começou a desenvolver trabalhos com dança contemporânea, firmando assim um trabalho de parceria entre projetos.
Vi algumas reportagens que, assim como ocorre nas reportagens da Escola de Paracuru, mostram os preconceitos e desafios dos meninos que fazem balé. Fredson comenta que o trabalho deles já é reconhecido nacional e internacionalmente, sendo que duas bailarinas e um bailarino foram convidados para um intercâmbio na Suíça e outro também é bailarino profissional de uma companhia em Natal/RN e atualmente está dançando na Alemanha. Além disto, vários bailarinos formados no projeto já estão trabalhando como professores de balé, tanto em Campina Grande como em cidades próximas. Também uma bailarina está cursando graduação em Dança na Bahia e trabalha numa escola de dança de lá.
O segundo exemplo é de Alex Santiago que é o que mais diversificou seu trabalho não somente na dança, mas também na gestão de projetos e no meio político. Alex talvez seja o bailarino que mais se identifica e convive com Flávio. Em várias ocasiões ele me falou sobre isto, inclusive afirmando que muitos projetos e ideias que se concretizaram surgiram em conversas de bar ou em bate papos com Flávio, “inspirados por uma garrafa de vinho”.
Ao deixar de dançar na Companhia, assumiu a coordenação de projetos da Escola, além de continuar sendo professor. A partir daí, assumiu um cargo na secretaria de turismo da
65 Fiz contato com Fredson por meio do WhatsApp, obtendo respostas por áudio. Após a escrita, mostrei a ele, houve algumas correções e ele autorizou a utilização dos dados na pesquisa.
cidade na gestão 2013-2016. Também é coordenador da Paixão de Cristo de Paracuru; curador do Festival de Dança do Litoral Oeste; e membro do Conselho Nacional de Cultura, representando o estado do Ceará na área de dança. Em 2018, assumiu a pasta do setor de cultura na Secretaria de Cultura, Turismo e Meio Ambiente, novamente em Paracuru, após a cassação do prefeito, ocorrida em 2017.
Alex considera como um dos seus melhores trabalhos fora da Escola a assessoria técnica e artística que prestou na cidade de Tabuleiro do Norte/CE. Localizada a 300 Km de distância de Paracuru, hoje a cidade também conta com um trabalho consolidado em dança. Durante cinco anos, Alex realizou oficinas e ajudou a criar a companhia de dança “Ciclos” e uma mostra de dança que já produziu oito edições até 2017. Em sua entrevista, ele deixa claro que essa experiência foi fundamental para a ampliação de seus conhecimentos na gestão de projetos, além de ajudar a fundar um polo de dança no leste do estado.
O terceiro caso é o de Gabriel Brito, que hoje faz parte da Companhia Jovem do Balé de Hamburgo, na Alemanha. Conversei com Gabriel por WhatsApp e nos áudios ele relatou que se interessou pela Escola quando tinha sete anos e viu uma chamada para a seleção de novos alunos. Com o apoio da mãe, resolveu entrar na Escola para “passar o tempo”, que não foi porque era apaixonado pelo balé, mesmo porque era muito novo. Fez parte de uma das primeiras turmas, já que afirma que entrou na turma de 2004 ou 2005.
Ficou cerca de quatro anos na instituição, teve que se mudar para Fortaleza e o amor que alimentou pelo balé, graças ao que viveu na Escola, o fez continuar a dançar na Escola Goretti Quintela. Em 2015, participou de uma seleção para uma bolsa artística na Alemanha, foi para lá e no fim de 2016 foi convidado compor a corpo de baile da companhia na qual dança. Ressaltou o quanto a Escola de Dança de Paracuru fez com que ele se apaixonasse pelo balé, graças ao empenho dos professores e à paixão de Flávio Sampaio. Também viveu situações de preconceito por parte de alunos da escola onde estudava, mas o apoio da mãe e o gosto pela dança fizeram com que não desistisse.
Figuras 13 e 14 - Gabriel Brito, quando era aluno da Escola de Dança de Paracuru e, atualmente, no Balé de Hamburgo
Fonte: Arquivo da Escola de Dança de Paracuru
Interessante apontar, nestes casos, que a Escola pôde levá-los a seguir projetos de vida que ampliaram seus horizontes. Outros bailarinos também realizam ou realizaram trabalhos fora de Paracuru. Walef Rocha, atualmente bailarino da Companhia, também ministra aulas em algumas escolas de dança de Fortaleza e já venceu competições de dança tanto no Ceará como fora do estado. Jamerson Rennan, professor da Escola e bailarino da Companhia, também faz parte do corpo de baile da companhia de dança do Espaço Rossana Pucci, em Fortaleza; onde Walef também é bailarino. Lairton Freitas, ex-bailarino da Companhia, iniciou mestrado em Portugal, pesquisando temática sobre dança. Outros tantos exemplos podem ser citados, que fazem com que a Escola obtenha uma capilaridade que nem mesmo Flávio Sampaio e a equipe da instituição tenham dimensão.
3.4 Uma mudança de foco: a pedagogia da dança de Flávio Sampaio
A Escola de Dança de Paracuru, como espaço para o ensino-aprendizagem da dança a longo prazo, se tornou um local privilegiado para experimentações que vinham sendo alimentadas por Flávio Sampaio já há anos. No vídeo institucional criado pela Escola em 2011, Flávio apresenta seu raciocínio e as motivações que o levaram a buscar compreender uma forma diferente de trabalhar o balé nos corpos daqueles jovens:
Nessa escola nós estamos fazendo essa experiência de juntar a técnica do balé clássico para formar bailarinos para o futuro, bailarinos de hoje, bailarinos contemporâneos.