5.4 As histórias que brotam da terra
5.4.1 As histórias do homem que queria virar batiputá
5.4.1.5 Os segredos da natureza: o coqueiro que avisava chuvas
Sobre as coisas do nosso costume é muito importante as pessoas pensarem um pouquinho sobre o segredo da natureza. A natureza faz parte do ser humano e é pra mode o ser humano fazer parte da natureza.
Eu tô nessa idade e ainda não encontrei um cidadão que mora em cima da terra e que diz assim: Zé Domingo, eu estudei bastante pensando em descobrir o segredo da natureza e descobri um pouco. Não é preciso dizer que descobriu muito não. Eu tenho certeza que eu vou embora daqui, porque nós todos vamos, e eu não encontro essa pessoa pra me dizer que sabe dos segredos da natureza.
O segredo da natureza não ficou pra cidadão em cima da terra, não! Ele pode estudar, fazer o que quiser, mas não descobre não! Agora (pausa), se abrir os sentidos e prestar atenção, ele avista um pouquinho da natureza. Sabe cuma? Se chama EX-PE-RIÊN- CIA...
Eu tenho uma casa de taipa ali em cima. Fui lá dá de comer as galinhas e os bichinhos lá. Aí eu saí com a lanterna na mão, pois era de madrugada; faltava quinze minutos pra quatro hora da manhã. Aí eu fui atrarresando um correguinho alí. Aí eu fui passando por um pé de coqueiro baixinho que ainda não tava butando côco. Aí eu escutei a experiência do coqueiro; ele me segredou a chuva com voz de vento. Aí eu disse: Opa, vai chover!
Olhei prum lado e outro e não vi a lua clara e nem nuvem nenhuma e fui lá pra perto dele. Fiquei escutando aquele remorso do coqueiro. Aí eu voltei pra casa, ainda era escuro. Entrei pra dentro. Aí eu disse: mulher, esses diazim vai chover. Olha se não chover ainda hoje. Ela disse assim: o que foi que tu viu? Aí eu disse: um coqueiro tava alí me avisando que vai chover! Antes do sol nascer foi água pra todo canto. O chão ficou bastante molhado.
Esse povo que mora aqui sabe que eu penso que o inverno ainda não passou. Nós ainda estamos no inverno, pois o pasto está todo verde. De vez em quando ainda chove. Isso se chama as experiências. A experiência, cada um de nós cria e pode ter, é só prestar atenção no tempo e na natureza.
Depois de ouvir as experiências de Seu Zé Domingo, através de suas histórias, perguntei como aprendeu a trabalhar na agricultura, fazer casa de taipa, fazer remédios com as plantas e outras tantas coisas. Então, ele me disse:
As coisas que aprendi, uma parte foi eu vendo alguém fazer. Eu aprendi com os
mais velhos. Eu prestava atenção e via o que era certo. Outra parte, eu aprendi criando no meu pensamento. A gente corre o sentido e imagina que também dá certo (intuição). Desse jeito a gente aprende...
Por fim, perguntei-lhe: Se o senhor pudesse virar uma planta que planta o senhor escolheria?
Eu não chego pra mode eu compor a quantidade de planta que eu gosto. Proque as plantas da alimentação é um tipo e as plantas medicinal é outro tipo. Mas eu ficava mais conformado em ser uma planta medicinal do que ser um planta da alimentação. Mas tem muita planta medicinal, que avé maria... eu adoro demais! Tem várias plantas medicinal que eu gosto, mas tem duas que, pra mim, faltando, eu acho que seria uma coisa muito triste: primeiro o batiputá e segundo a janaguba.
As histórias que seu Zé Domingo nos conta trazem diversas formas de aprender os saberes tradicionais. Na primeira história do menino que ajuda a construir a casa de taipa como atividade da escola, ele a fez comunitariamente, junto com pessoas mais experientes. Vale ressaltar que o menino se afeiçoou à casinha. Então, o afeto que desenvolveu pelo que fazia, e com quem fazia, é elemento central na aprendizagem.
A segunda pequena história, que traz os gêmeos, é reveladora de uma aprendizagem que acontece ao fazer junto com outro mais experiente, como era o caso do avô que capinava o quintal. Eles pegaram a enxada e dispuseram-se a fazer o serviço sem o interesse de dinheiro ganhar, mas de aprender a campinar e um bom conselho levar.
A terceira história mostra a aprendizagem através do saber adquirido pela empiria, ou seja, a partir da experiência de levar o golpe, tomar uma atitude diante da situação, e observar o resultado da ação. Importante observar que a relação se deu diretamente com as plantas e a fé no poder de sua cara.
A última história mostra a relação humano-natureza de forma integrada, onde seu Zé Domingo previa a chuva conversando com o coqueiro. Essa é uma forma mais “refinada” de aprendizagem que requer uma profunda conexão com a natureza, muito rara nos tempos de hoje, quando vivemos no mundo de forma apressada, sem percebermos os detalhes e as especificidades das vidas que nos circundam.
Quando perguntado como seu Zé Domingo aprendeu o que sabe, ele nos confessa que por uma parte foi observando alguém fazendo, por outro lado, ele próprio fazendo. Ele aprendeu com os mais velhos. Prestava atenção e via o que dava, ou que não dava certo. De
outro modo, ele aprendeu criando no próprio pensamento, através do ato criativo. Aprendeu pelo sentido e imaginação que também dava certo.
Segundo ele, aprender os segredos da natureza não ficou para cidadão em cima da terra. Pode-se estudar, fazer o que quiser, mas não se descobre muita coisa. Porém, abrindo-se os sentidos e prestando atenção, o homem pode compreender um pouquinho da natureza através da experiência. A experiência é criada por cada pessoa, contudo, torna-se necessário ater-se ao tempo e à natureza.
Esta reflexão de seu Zé Domingo em relação ao aprender pela experiência coaduna com o pensamento de Larrosa (2015, p. 32) ao afirmar que “o saber da experiência é um saber particular, subjetivo, relativo, contingente, pessoal”. Ou seja, cada pessoa vive a sua própria experiência. Ninguém pode viver a experiência do outro da mesma forma que o outro viveu, o que se pode é reviver a experiência a partir do outro e apropriar-se dela de alguma forma.