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Os sentidos de princípio da evolução em A origem das espécies

Como se viu no capítulo anterior, há diversas relações de sentidos que se estabe- lecem por antonímia na obra de Darwin. Pois muitos dos trechos que foram reescritos ou inseridos ao longo das seis edições de A origem das espécies, foram respostas a opositores à teoria da evolução. O recorte a seguir de A origem das espécies foi extraído da 6ª edição, em que o termo aparece por 7 vezes, três delas nessa parte:

processo de modificação e produção

de uma

As a record of a former state of things, I have retained in the foregoing paragraphs, and elsewhere, several sentences which imply that naturalists believe in the sepa- rate creation of each species; and I have been much censured for having thus ex- pressed myself. But undoubtedly this was the general belief when the first edition of the present work appeared. I formerly spoke to very many naturalists on the subject of evolution, and never once met with any sympathetic agreement. It is probable that some did then believe in evolution, but they were either silent, or expressed themselves so ambiguously that it was not easy to understand their meaning. Now things are wholly changed, and almost every naturalist admits the great principle of evolution. There are, however, some who still think that species have suddenly given birth, through quite unexplained means, to new and totally different forms: but, as I have attempted to show, weighty evidence can be opposed to the admission of great and abrupt modifications. Under a scientific point of view, and as leading to further investigation, but little advantage is gained by believing that new forms are suddenly developed in an inexplicable manner from old and widely different forms, over the old belief in the creation of species from the dust of the earth. (DARWIN, 1872a, p. 424, grifos meus)

Como um registo do estado anterior das coisas, utilizei, nos parágrafos preceden- tes em outras situações, muitas expressões que afirmam que os naturalistas acredi- tam nos atos de criação independente de cada espécie, e fui muito censurado por ter me expressado de tal modo. Mas sem dú- vida essa era a crença geral quando da pu- blicação da primeira edição do presente trabalho. Eu anteriormente discuti com muitos naturalistas sobre o tema da evo- lução, e nenhuma vez encontrei alguma concordância simpática. É provável que alguns já acreditassem na evolução, mas ou ficaram em silêncio, ou se expressaram de um modo tão ambíguo que não conse- gui entender o que eles queriam dizer. Agora as coisas estão completamente mu- dadas quase todos os naturalistas admitem o grande princípio da evolução. Há, no entanto, alguns que ainda pensem que as espécies deram origem a novas formas completamente diferentes de modo re- pentino e de maneira quase inexplicável: mas, como já demonstrei, fortes evidên- cias que se opõem à admissão de modifi- cações grandes e abruptas. Do ponto de vista científico, e conduzindo a mais in- vestigações, apenas pouco avanço é obtido ao acreditar que novas formas se desen- volveram subitamente, de uma maneira inexplicável a partir de formas antigas e completamente diferentes, sobre a antiga crença na criação das espécies a partir da poeira da terra.

Recorte 38 O recorte 38 tem o mesmo tom da maioria dos textos que foram inseridos na sexta edição: o de responder críticas, acusações e ataques dirigidos à teoria ou ao autor. Aqui, Darwin se defende de ter empregado termos que afirmam que os naturalistas acreditavam na criação independente das espécies e não na evolução, quando uma espécie vai dando origem a outra de modo lento e gradual. Naturalistas aparece predicado por ‘acreditam nos atos de criação independente de cada espécie’, desse modo faço a seguinte paráfrase:

(38.1) Naturalistas acreditavam nos atos de criação independente de cada espécie.

Temos em seguida a frase: “essa era a crença geral até a publicação da primeira edi- ção desta obra”, em que essa retoma atos de criação independente de cada espécie. O termo do presente trabalho é a reescritura por substituição de A origem das espécies (obra em que aparece o texto). É possível afirmar nesse caso que “crença geral dos naturalistas até a publicação da primeira edição de A origem das espécies” determina “atos de criação independente de cada espécie”.

Assim:

(38.2) Atos de criação independente de cada espécie era a crença geral dos naturalistas antes da publicação da primeira edição de A

origem das espécies.

Tomando a sequência do parágrafo temos: “Eu anteriormente discuti com muitos na- turalistas sobre o tema da evolução, e nenhuma vez encontrei alguma concordância sim- pática”. Ao empregar o advérbio anteriormente, Darwin fala de antes da publicação de

A origem das espécies (o presente trabalho); naturalista é retomado por repetição e arti-

cula com muitos, no primeiro enunciado; e em: “nenhuma vez encontrei alguma concor- dância simpática” podemos parafrasear por não encontrei nenhum naturalista que concor- dasse ou fosse simpático à evolução. O termo evolução reescritura tema da evolução.

Desse modo, proponho a paráfrase:

(38.3) Antes da publicação de A origem das espécies nenhum dos muitos naturalistas com quem conversei era simpático ao tema da

evolução.

Até este ponto é possível notar que Darwin pondera que há uma incompatibilidade entre “acreditar nos atos de criação independente de cada espécie” e concordar com a

evolução (tema da evolução). Essa oposição ficará mais clara quando analisarmos o res-

tante do parágrafo.

Darwin coloca um antes e um depois da evolução; ela é o ponto de virada. Isso pode ser verificado em: “Agora as coisas estão completamente mudadas e quase todos os na- turalistas admitem o grande princípio da evolução”. O advérbio anteriormente é a marca do antes; e agora é o que marca o depois da publicação. Podemos ver que as coisas

reescritura “antes [...] nenhuma vez encontrei alguma concordância simpática”; e que o

agora significa, enquanto articulado com antes. Então:

(38.4) Agora, quase todos os naturalistas admitem o grande prin- cípio da evolução e não acreditam em atos de criação indepen- dente de cada espécie.

Após apresentar a sua defesa em relação às censuras que veio a sofrer quando atri- buiu certas expressões aos naturalistas, Darwin passa a se contrapor a outra ideia que também considera incompatível com a evolução, onde se segue: “Há, no entanto, alguns que ainda pensem que as espécies deram origem a novas formas completamente diferen- tes de modo repentino e de maneira quase inexplicável”. Nesse caso, temos aqueles que também admitem o princípio da evolução e não acreditam na criação independente das

espécies. Todavia, esses últimos pensam que as espécies deram origem a novas formas, e

essas novas formas eram completamente diferentes das espécies que as originaram, sur- giram de modo repentino e por meios inexplicáveis.

Basicamente, todos os elementos do enunciado são novos: ainda– como em (37.4) – tem seu sentido articulado com “Agora, com a publicação da primeira edição de A ori-

gem das espécies”. Ou seja: Ainda, agora com a publicação [...] etc; e ‘formas’ retoma

‘espécies’ por reescritura; ou seja: espécies deram origem a novas espécies completa- mente diferentes[...].

Os elementos apresentados anteriormente serão retomados na sequência do pará- grafo: “mas, como já demonstrei, fortes evidências que se opõem à admissão de modifi- cações grandes e abruptas”.

Há uma reescrituração por especificação quando “pensar que as espécies deram ori- gem a novas espécies, completamente diferentes de modo repentino e por meios inexpli- cáveis” aparece no enunciado subsequente como “admitir modificações grandes e abrup- tas”; aqui temos:

(38.5) Alguns que admitem a evolução ainda pensam que as es- pécies deram origem a novas formas completamente diferentes de modo repentino e por meios inexplicáveis por modificações gran- des e abruptas.

Darwin equipara essas as ideias às crenças presentes em (38.1) e (38.5): “Do ponto de vista científico, e conduzindo a mais investigações, apenas pouco avanço é obtido ao acreditar que novas formas se desenvolveram subitamente, de uma maneira inexplicável a partir de formas antigas e completamente diferentes, sobre a antiga crença na criação das espécies a partir da poeira da terra”. Nesse recorte, “acreditar que as novas formas se desenvolvem subitamente, de uma maneira inexplicável” retoma “pensar que as espécies deram origem a novas formas, completamente diferentes de modo repentino e por meios inexplicáveis”. “A crença em atos de criação independente de cada espécie” é reescritu- rado por “a antiga crença na criação das espécies a partir do pó da terra”. Darwin coloca essa última crença no mesmo nível da ideia de modificações abruptas; aquele que acre- dita em uma não tem vantagens sobre aquilo em que se acredita em outra. Desse modo:

(38.6) Acreditar em modificações grandes e abruptas não tem vantagens sobre a crença na criação

Essas duas maneiras de pensar se opõem às ideias publicadas por Darwin em A

origem das espécies; contra a ideia das modificações abruptas pesam: demonstrações, evidências convincentes e claras. Além disso, Darwin coloca seu olhar dentro da pers-

pectiva científica: “Do ponto de vista científico [...]”. Assim, ele reforça a sua posição como embasada por demonstrações e de uma perspectiva científica; ao passo que os opo- sitores têm apenas ideias e crenças.

O ponto crucial no recorte 38 está no fato de que admitir o princípio da evolução implica não acreditar em atos de criação independente e aceitar que espécies geram outras espécies, mesmo que muito diferentes do ancestral, de modo abrupto e inexplicável. Isso, para Darwin, representa apenas um pequeno avanço em relação à crença nos atos de cri- ação. Com base no que foi exposto anteriormente:

DSD 30

evolução ├ princípio├ origem de novas formas a partir de outra espécie

┬ agora

─────────────────────────────────────────

criação ├ crença geral ├ origem independente de cada espécie

antes

No recorte analisado nesta seção, vemos que Darwin não procura de modo direto explicar sua teoria, ele apenas aponta para aquilo que não está em conformidade com ela. O que não está em conformidade com ela, é determinado por crença [belief], enquanto a

evolução é determinada por princípio, que é seguido por um adjetivo realizante: grande;

ele também procura aliar suas ideias ao novo, ao atual e relegar seus opositores ao pas- sado, ao antes.

Assim, se de um lado está uma crença geral em que antes era majoritariamente aceita; do outro lado temos um grande princípio, agora, admitido, pautado por evidências e demonstrações.