3. TRABALHADORES E SUAS HISTÓRIAS DE RETORNO E
3.3 Os sentidos do trabalho para os participantes
Antes de apresentar as discussões sobre os suportes que os participantes receberam durante o afastamento e retorno ao trabalho, optou-se por apresentar os sentidos do trabalho para os trabalhadores que participaram desse estudo, tendo como base a evidente centralidade do trabalho na vida das pessoas, discutida anteriormente no item 1 desta pesquisa, principalmente sob a ótica de Castel (2012) e Antunes (2005, 2009, 2011). Sustenta-se que essa centralidade se manifesta por meio dos discursos sobre os sentidos do trabalho.
Para abordar esse tema, tomou-se como ponto de partida o fato de que a maioria dos participantes não aponta diferenças em relação ao sentido do trabalho em suas vidas antes do afastamento e após o retorno ao trabalho. No caso, apenas dois participantes relataram que o sentido do trabalho e o olhar sobre ele mudaram após o episódio de afastamento que vivenciaram, como mostram os depoimentos a seguir.
S2: Era uma coisa que eu gostava, eu me sentia bem saindo de casa para
trabalhar. Hoje, eu não posso dizer a mesma coisa. Hoje... Eu nunca me afastei nesse setor que eu estou agora, mas vontade de voltar pra lá eu não tenho. Inclusive, eu estou muito em dúvida em relação a um pedido de transferência, eu penso até em pedir minha conta; só não faço porque o psiquiatra acha importante que eu trabalhe, que eu tenha uma atividade certa, de levantar tal hora, me trocar, voltar, e ter aquele problema de horário certo. Se não fosse isso, eu acho que já não estaria mais. Eu gostava, eu adorava ir lá. Era estressante, tudo, mas eu gosto muito de ajudar as pessoas.
S3: [...] lógico que eu estava super envolvida antes desse problema todo. Pra
mim era bom em tudo, tanto o trabalho como financeiramente. Depois que passa por isso, a gente já fica sem ter uma coisa boa pra falar do trabalho, depois dos problemas. Mas antes disso a gente estava trabalhando de boa, é muito bom, é muito gratificante trabalhar nessa área. Hoje... Você não tem vontade de voltar!
Os outros participantes apontaram que o sentido do trabalho em suas vidas não se alterou após o episódio de afastamento e retorno ao trabalho. Mas, foi possível perceber que o trabalho assume significados diversificados na vida dos participantes como, por exemplo, de realização pessoal, prazer, função social, principal forma de sustento, fonte de sociabilização etc.
Dois participantes consideraram que o trabalho tem sentido de realização pessoal, de prazer. Um deles (S6), inclusive, conta que não conseguir ou não poder trabalhar gera sofrimento:
S4: É se realizar profissionalmente (...). A partir do momento que você tá
bem, é muito prazeroso, tem que ser! Senão, você tem que parar e pensar, refletir „será que é isso que eu devo fazer? Continuo? Mudo?‟ Então, continua sendo prazeroso. O trabalho mexe muito com a vida da gente.
S6: Trabalhar é uma realização. Acho que é imprescindível na vida de
qualquer pessoa. Eu acho que o trabalho te realiza em todos os sentidos (...). Eu adoro. Pra mim, é um prazer trabalhar. Eu sempre me dediquei ao trabalho, nunca foi uma obrigação trabalhar, eu vou super feliz, faço sempre mais do que eu posso fazer, e nunca foi um peso trabalhar (...). Eu fico muito feliz quando eu posso trabalhar e... Assim... Fico muito triste quando eu não posso. Quando termina a semana e eu fui a semana toda, sempre agradeço (...). Então, o trabalho pra mim não é um peso, é um prazer, porque eu faço o que eu gosto, então, eu tô bem feliz.
Um dos trabalhadores colocou o trabalho como um meio para conquistar outros objetivos e desejos, como mostra o discurso abaixo:
S1: Olha... Não é só o antes, porque tem o antes e tem o depois... É... É
realização. O trabalho na vida de uma pessoa é uma realização, né? Porque é em cima do trabalho que reflete toda a sua vida. Se você trabalha, você sabe que você tem como almejar as suas expectativas, sem o trabalho não tem como. Eu tenho, não só antes do afastamento como depois, eu tenho uma lição de vida, que com os meus pais eu vi que a vida deles é só trabalho e eu dei continuidade a isso. A minha vida se resume em trabalho. A partir do trabalho que eu tenho minhas outras realizações. A gente prioriza o trabalho pra gente conseguir almejar o resto da vida, né? Eu estou a vinte anos trabalhando, eu almejo minha aposentadoria um dia.
O trabalho como função social, foi colocado por um dos trabalhadores da área da saúde. Ele define o sentido do trabalho como doação e conta ter um vínculo muito forte com as pessoas que atende:
S3: É um trabalho que a gente vê mais como... Eu não vejo tanto como
trabalho, porque é uma doação tão grande! É como se fosse uma caridade (...). O envolvimento que você tem com a pessoa é muito forte, é um vínculo muito forte.
Outros trabalhadores definiram o trabalho como principal forma de sustento. Um deles (S3), tratou o trabalho como uma necessidade ou um dever. Outro (S7), de certa forma, considerou a estabilidade do trabalho no setor público como um privilégio, enquanto existe um grande número de desempregados do país:
S3: [...] é um trabalho gostoso, mas é muito estressante, bem estressante.
Trabalhar, hoje, pra mim, é uma necessidade.
S5: Bom... Trabalho pra mim... Não é por ser um serviço num setor
público... Pra mim sustentar minha família, é meu ganha pão [...].
S7: Ah... Pra mim, é questão de sobrevivência, na atual situação do nosso
país... Assim... Tenho consciência do meu emprego, que muita gente luta pra ter um emprego público, num serviço público; dou muito valor, gosto do que faço (...). Eu dou muito valor, procuro fazer o melhor, gosto do que faço, como já falei, e dou muita importância ao serviço, ainda mais na situação do nosso país, muitos desempregados, a gente procura dar muito valor mesmo.
Finalmente, dois trabalhadores consideram o trabalho como um espaço de sociabilização. Um deles (S5) relata que, na contratação, passou por um tipo de treinamento, que o ajudou a trabalhar as relações interpessoais de trabalho. O outro (S6), gosta de promover a sociabilização por iniciativa própria, porque acredita que a integração dos funcionários torna melhor o ambiente de trabalho:
S5: Pra mim, o trabalho tem muita importância sim. A gente trabalha até integração. Quando eu entrei na minha função na Prefeitura, eu tive uma semana de treinamento, porque... Relacionamento interpessoal, pra gente respeitar os outros e também saber a hora de exigir o nosso direito, tanto quanto com as pessoas de fora, como com as pessoas do trabalho, chefia, essas coisas. Trabalho pra mim é isso.
S6: Adoro agregar as pessoas no trabalho, sabe? Pra ficar um ambiente bom,
porque a gente passa a maior parte do tempo no trabalho. Então, eu sempre gosto de tá fazendo do trabalho um ambiente gostoso, então, sempre procuro fazer isso.
Tendo conhecido a centralidade e os sentidos do trabalho para os participantes dessa pesquisa, discutem-se os temas centrais que emergiram na coleta dos dados.