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A gestão dos serviços de abastecimento de água e esgota-mento sanitário de Manaus é realizada mediante uma concessão privada, que teve início em 4 de julho de 2000. Tal concessão tem uma história tumultuada e cheia de contradições, frustrando as expectativas da privatização. Conhecida nacionalmente como um mau exemplo de gestão, esta concessão realiza um serviço insa-tisfatório para a maioria da população, embora tenha mudado quatro vezes de operador: Lyonnaise des Eaux (Suez), que operou de 2000 a 2006; Grupo Solvi, de 2007 a 2012; Águas do Brasil, de 2012 a 2018; e Aegea Saneamento e Participações, na operação desde 2018.

Se de um lado há demonstrações de eficiência na geração de lucros açambarcados pelas empresas, por outro lado, a concessão coleciona um extenso histórico de denúncias por serviços mal realizados, cobranças abusivas e descumprimentos contratuais, ensejando inúmeras intervenções por parte dos poderes públicos:

Câmara dos Vereadores de Manaus, Ministério Público do Estado do Amazonas e Tribunal de Justiça do Estado do Amazonas.

Ao longo desse período, duas Comissões Parlamentares de Inquérito (CPI) foram instaladas pelo Legislativo Municipal para elucidar os responsáveis pela precariedade dos serviços de abas-tecimento de água e esgotamento sanitário. Tanto a CPI de 2005, quanto a CPI de 2012 constataram a inviabilidade da privatização para a cidade, recomendando a quebra do contrato de concessão,

3 SOUZA, Poluição dos igarapés de Manaus está diminuindo a acidez do rio Negro. Portal A Crítica. 20 de julho de 2016. Disponível em: <https://www.

acritica.com/channels/manaus/news/quinta-feira-estamos-matand o-nossos- -igarapes?fbclid=IwAR3s-SufxWAmAs9r_k7rWHgvJzCVUvC-gi49aI---e8In4k7Imki-JuFP0to>. Acesso em 20/8/2020.

mas foram ignoradas pelo poder público. Isso contribui para apro-fundar a precarização dos serviços e promover a cultura da impu-nidade na gestão dos serviços públicos. Com tal conivência, as empresas se sentem acomodadas diante do seu baixo desempenho, prestando indefinidamente serviços de má qualidade.

O sistemático descumprimento do contrato de concessão ocasionou a assinatura de múltiplos aditivos, alterando as metas e condições de realização dos serviços.4 Tais Termos Aditivos, quase sempre beneficiaram as empresas envolvidas, sem levar melhorias significativas para as periferias da cidade. Com tantas alterações, é possível observar que a privatização tornou-se uma obsessão, inde-pendentemente do desempenho dos serviços realizados. Observa-se que a iniciativa privada não tem cumprido as exigências contratuais, mas o contrato de concessão tem sido alterado reiteradamente para se adequar ao baixo desempenho da empresa.

O Quarto Termo Aditivo ao Contrato de Concessão (17 de maio de 2012) é considerado o mais abusivo, pois ampliou o período de concessão privada de 30 anos para 45 anos, sem fazer nenhuma licitação pública ou ponderação sobre a qualidade dos serviços realizados. Além disso, este documento impôs alterações como o aumento da tarifa de esgotamento sanitário, que, a partir de então, equivale ao valor cobrado pelo consumo de água. Ao modo dos aditivos anteriores, este também flexibilizou as metas do contrato de concessão original, projetando para a cidade uma cobertura de 98% de abastecimento de água no ano 2016, e uma abrangência de 90% dos serviços de esgotamento sanitário em 2040.

A partir de junho de 2018, a gestão dos serviços de água e esgoto foi assumida pelo Grupo Aegea Saneamento e Participações, que atua em Manaus através da concessionária Águas de Manaus.

A Aegea Saneamento entrou na concessão planejando um investi-mento de R$ 880 milhões de reais nos próximos 5 anos e firmando a meta de implantar a cobertura de esgotamento sanitário em 80%

da cidade até 2030. Além disso, a empresa aspira reduzir o

desper-4 O Contrato de Concessão (julho de 2000) já recebeu cinco versões alteradas desde a época da privatização: janeiro de 2007, agosto de 2008, outubro de 2008, maio de 2012 e abril de 2014. Além destes Aditamentos, houve também dezenas de al-terações nas condições de realização de obras específicas, sempre beneficiando a concessionária de plantão.

dício de água na distribuição e melhorar o abastecimento na capital amazonense.5

Até hoje, a concessão não apresenta os resultados esperados. O desempenho dos serviços aparece tradicionalmente entre os piores, em comparação com as grandes cidades brasileiras. Os dados mais recentes do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS/2018) mostram que a cobertura de abastecimento de água alcança somente 91,42% da cidade, sendo que nas periferias este serviço é precário ou totalmente inexistente. Essas informações são confirmadas por órgãos de fiscalização (Procon Amazonas e Comissão de Defesa do Consumidor da Câmara Municipal de Manaus – Comdec/CMM), ao revelarem que a empresa de água e esgoto ocupa, com persistência, a liderança no ranking das empresas mais reclamadas da cidade.

Em se tratando dos serviços de esgotamento sanitário, a concessão tem revelado inegável irresponsabilidade. Ao longo das duas décadas de privatização, as empresas que assumiram a gestão dos serviços de água e esgoto implantaram os serviços de esgoto somente em 12,43% da cidade, deixando quase 1.900.000 pessoas sem este serviço essencial. Importa lembrar que tal atuação tem afetado negativamente não somente a saúde da população, mas também a sustentabilidade ambiental, na medida em que a quase totalidade dos esgotos urbanos é lançada nos igarapés e rios locais.

O Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS) também assinala elevadas perdas na distribuição da água, mostrando que 74,62% da água potável são desperdiçados até chegar às residências dos consumidores (SNIS/2018). Trata-se de um problema que jamais foi resolvido, embora todas as concessionárias tenham constatado e projetado sua solução. A eficiência tão característica da iniciativa privada não equacionou a demanda, uma vez que implicaria elevados gastos para a empresa. Além disso, tal desperdício não comove a administração privada, pois a região amazônica é portadora de um gigantesco reservatório hídrico, tido como inexgotável pela empresa.

5 Editor. Ministério Público vai investigar venda da Manaus Ambiental para a Ae-gea. Portal A Crítica. 20 de junho de 2018. Disponível em: <https://www.acritica.

com/channels/manaus/news/ministerio-publico-vai-investigar-venda-da-manaus--ambiental-para-aegea>. Acesso em 16/9/2020.

A fiscalização dos serviços é realizada pela Agência Reguladora dos Serviços Públicos Delegados do Município de Manaus (Ageman), vinculada ao Gabinete do Prefeito (Lei nº 2.265/2017). A Ageman tem como competência regular a prestação de todos os serviços municipais delegados a terceiros. A sua estrutura organizacional é composta por: órgão colegiado, órgãos de assistência e assessora-mento, órgãos de apoio à gestão e órgãos de atividades finalísticas.

Outra atribuição da agência é representar o poder concedente em eventos oficiais, colocando em risco sua autonomia, pois esta atri-buição inviabiliza a neutralidade necessária para fiscalizar a atuação do poder concedente na sua relação com a concessionária.

As receitas da Ageman provêm, sobretudo, do percentual incidente sobre o faturamento mensal das concessionárias ou permissionárias, decorrente da receita dos serviços públicos delegados, do valor de multas, de indenizações estabelecidas nos contratos de concessão e termos de permissão, de transferências de dotações orçamentárias e créditos adicionais que lhe forem consignadas no orçamento anual da Prefeitura. Visitas locais tornam possível concluir que a Ageman possui uma infraestru-tura incipiente, impossibilitando-a de realizar uma regulação autônoma e eficiente.

A política de saneamento básico adotada em Manaus sugere que a privatização dos serviços de abastecimento de água e esgo-tamento sanitário é incompatível com o direito humano à água e ao saneamento, reconhecido pela Organização das Nações Unidas (ONU), em 2010. Na capital amazonense, é possível cons-tatar que a iniciativa privada prioriza a geração de lucros em detrimento do bem-estar da comunidade. Esta assertiva é ratifi-cada por Riva (2016), quando ela averígua que a política de preci-ficação e valorização econômica da água não tem obtido resul-tados positivos, especialmente porque, ao invés de conservar o recurso, aqueles que podem pagar os altos preços cobrados pelos serviços continuam a desperdiçá-lo, ao mesmo tempo em que os mais necessitados enfrentam entraves econômicos ainda maiores para o acesso à água.6

6 RIVA, Gabriela R. Saad. Água, um direito humano. São Paulo: Paulinas, 2016.