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Os sete princípios do pensamento resiliente

O pensamento resiliente prevaleceu historicamente no planeamento urbano, nas suas vertentes teórica e prática, no que toca ao equilíbrio espacial (Mehmood, 2016). Isto culminou na descrição do que é uma boa cidade - área urbana controlada e ordenada - e o que é preciso fazer para tal: melhorar acessibilidades físicas, desenvolver funções complementares entre áreas geograficamente próximas e privilegiar as suas relações (Davoudi, 2012).

A teoria do pensamento resiliente levou ao aparecimento do planeamento espacial estratégico, também denominado por navegação estratégica no território, sendo que a resiliência funciona como mote para a mudança e a explicação para a estabilidade; e a adaptação deixa de ser apenas uma resposta às mudanças impostas e passa a ser criada para as instaurar (Hillier, 2011).

3 O Centro de Resiliência de Estocolmo (Stockholm Resilience Centre) é uma referência internacional para o estudo da sustentabilidade global, desde 2007. Trata-se de uma iniciativa conjunta da Universidade de Estocolmo e o Instituto das Economias Ecológicas de Beijer, tendo um painel internacional independente. (http://www.stockholmresilience.org).

Diversidade e

Redundância Conectividade

Gerir Variáveis Lentas e Mecanismos de

Feedback

Compreender Sistemas

Complexos Adaptativos Aprendizagem Participação Pública

Governância Policêntrica

2.6.2. RESILIÊNCIA E PENSAMENTO ECOLÓGICOS

A resiliência ecológica é constituída pela capacidade de absorção de choques, auto-organização, rápida adaptação e reação à mudança. Todos os componentes são essenciais de ter em consideração aquando ao estudo da sensibilidade ambiental e de todos as outras propriedades acima referidas, dado que os problemas ambientais que estão a ser enfrentados.

O pensamento ecológico4 surge devido à fixação de ligações entre os sistemas biofísicos e sociais, baseando-se na premissa de que todos os sistemas naturais e sociais pretendem vencer e prosperar, incorporando todos os seus ideais anteriormente expostos (McHarg, 1981). Neste a arte é vista como uma expressão natural e o pensamento ecológico utilizado para repensar a ligação entre o ambiente e o design (McHarg e Steiner, 2006).

2.6.3. RESILIÊNCIA EVOLUCIONÁRIA

O termo de resiliência evolucionária surge a partir de Davoudi et al. (2013). Este autor estrutura a resiliência evolucionária como um composto de quatro princípios: Transformação, Adaptabilidade, Preparação e Persistência (TAPP). Tal implica que a resiliência é função da relação entre a capacidade de as comunidades aprenderem e a forma como a aprendizagem ajuda a prepará-las para enfrentarem situações de risco através da persistência e adaptabilidade à mudança, progredindo para uma nova estabilidade graças à sua transformação e inovação.

No contexto da TAPP, surge o movimento das cidades transitórias, também por Davoudi et al. (2013), devido à emergência da consciencialização humana face às alterações climáticas como um movimento revivalista e que destaca o papel que as comunidades desempenham na configuração da resiliência local através da capacidade de aprendizagem ativa, da robustez, da capacidade de inovação e da adaptação à mudança. As cidades transitórias têm uma ação proativa no planeamento, encorajando e suportando as comunidades a planearem o futuro a longo prazo de modo a melhorar a resiliência do local que habitam para alocar mudanças sociais, económicas ou ambientais que aconteçam (Hopkins, 2012).

2.6.4. RESILIÊNCIA SOCIOECOLÓGICA

Analisando a forma como a resiliência é utilizada em cada um dos campos destacados, é possível concluir que a ecologia e a sociologia são compatíveis aquando o emprego deste conceito, o que resulta na resiliência socioecológica. Esta é útil para entender as dificuldades das comunidades que dependem dos recursos ambientais e das que estão sob ameaça constante de desastres naturais (Adger et al., 2005), sendo que o perigo é visto como uma oportunidade de enfrentar a incerteza (Mehmood, 2016) e evoluir. É a resiliência socioecológica que permite examinar o papel da inovação, adaptabilidade e transformação dos sistemas socioecológicos (Folke et al., 2010), tendo como ciência base a ecologia (Folke, 2006) e Holling como seu impulsionador - defende que os sistemas ecológicos apresentam múltiplos estados estáveis e que a resiliência é a capacidade de os sistemas continuarem a funcionar face às adversidades impostas.

Mehmood (2016), adapta os princípios da resiliência evolucionária para a resiliência socioecológica, atribuindo-lhe quatro componentes:

i. Transformação e Inovação – As alterações sofridas são generalizadas e promovidas pela inovação;

ii. Adaptabilidade - Representa a flexibilidade do sistema face à crise e tem como foco a construção de um sentido de comunidade, localizando processos e atividades sociais e/ou económicas;

iii. Preparação – Aumenta a capacidade de aprendizagem pela troca de conhecimento e partilha de experiências;

iv. Persistência – No sistema socioecológica está relacionada com a sua robustez.

Logo, a resiliência está envolvida na economia, ambiente, sociedade e cultura do sistema, preparando-o para possíveis crises e fornecendo estratégias a longo prazo para adaptá-lo e mitigar os desafios que possam surgir em qualquer uma das suas esferas.

A teoria da resiliência socioecológica permite compreender o porquê dos sistemas socioecológicos estarem em constante mudança não linear: existe uma incerteza associada ao futuro e, por isso, é difícil preparar o sistema para qualquer alteração (Meerow et al., 2016).

No entendimento de Holling (1973) o sistema ecológico, quando sofre perturbações, não permanece igual ao que era anterior aos distúrbios sofridos, avançando para outro estado de equilíbrio. Folke (2006) partilha da mesma opinião de que os sistemas evoluem, mas tem como paradigma da ecologia a resiliência em estados de “não-equilíbrio”.

2.6.5. RESILIÊNCIA URBANA

Peter Newman et al. (2009) estudaram a origem da resiliência urbana. Segundo eles, esta apareceu como resposta às alterações climáticas associadas aos combustíveis fósseis, aos gases com efeito de estufa e à crise do petróleo, originando eco-cidades e, consequentemente, um meio urbano eco-eficiente.

Leichenko (2011) continuou o estudo da resiliência urbana, um conceito bastante aclamado no mundo académico, reforçando a mesma ideia através do alerta para os perigos que o meio urbano enfrenta e cria, logo faz mais sentido falar em resiliência urbana. No entanto, a origem e significado de ambos os conceitos (resiliência e urbano) são ambíguos (como tem vindo a ser comprovado no decorrer deste documento dadas as inúmeras áreas de aplicação e associações com estes conceitos), o que gera uma confusão conceptual - o que pode ser até benéfico para ser multifuncional - e, por consequência, colaboração entre as diferentes áreas de estudo científicas (Meerow et al., 2016). A resiliência urbana é então um conceito maleável: é utilizado por diferentes intervenientes no território devido à sua terminologia comum, apesar da definição vaga e operacionalização custosa (Gunderson, 2000; Vale, 2014).

O envolvimento de inúmeros campos científicos e disciplinas no estudo destes conceitos contribui para o grande espectro de definições (Da Silva et al., 2012), sendo que estas têm dois extremos: ou estão ligadas à resiliência face a uma ameaça específica, ou utilizam os termos como resposta a todos os riscos que os sistemas enfrentam (Meerow et al., 2016).

Em “Resilience Thinking in Urban Planning”, é abordado o conceito de resiliência urbana por Cruz et al. (2013), os quais defendem que a resiliência tem atributos relacionados com dinâmicas e padrões particulares do meio urbano, adquirindo as especificidades locais de acordo com o contexto em que é introduzida. Os autores estipulam como foco principal da resiliência a capacidade de lidar com distúrbios, problemas ou adversidades, representando uma nova perspetiva em relação à posição tomada pela sustentabilidade.

O trabalho desenvolvido conclui que os padrões urbanos associados à sustentabilidade do solo, ditam que a melhor organização da cidade é a forma compacta e, de acordo com esta conjuntura, podem ser

incorporados os princípios de sustentabilidade na resiliência urbana (contenção urbana, densidade, diversidade e eficiência) (Cruz et al., 2013).

2.6.6. A RESILIÊNCIA – A INTEGRAÇÃO DE TODAS AS SUAS VERTENTES

Tendo em conta todas as formas e aplicações da resiliência é possível apontar que a cidade “ideal” deve ser resiliente e repleta de recursos, sendo estes a pré-condição para obter a resiliência (Mehmood, 2016). Tornar um sistema resiliente depende da sua flexibilidade inerente e adaptabilidade à generalidade das ameaças e não da total adaptação a lesões específicas (Meerow et al., 2016).

A resiliência é uma das qualidades desejada num sistema e é composta pelo seu dinamismo, pelos caminhos que a criam, pela escala temporal da sua ação e pela adaptação geral que apresenta face a mudanças (Meerow et al., 2016).

A resiliência é, portanto, uma importante característica dos sistemas, sejam eles ecológicos, socioecológicos ou humano-ambientais. A Resilience Alliance desenrola pesquisas interdisciplinares com o tema central da resiliência dos sistemas socioecológicos (Walker e Salt, 2012), ou seja, o conceito de Holling que anteriormente era apenas aplicado a sistemas ecológicos, toma uma nova dimensão e torna-se uma forma de pensar o território (Folke, 2006; Wilkinson, 2012; Davoudi et al., 2012). É preciso ter em conta que as medidas para aumentar a resiliência não podem ser difundidas homogeneamente, ou seja, deve ser inclusiva, multidisciplinar e com dimensão social (Vale, 2014). É um conceito contemporâneo (Wilkinson, 2012) que deve considerar as relações socioecológicas. A função crítica de uma cidade resiliente é a rápida recuperação. A velocidade de recuperação, como está a ser considerado um estado de não-equilíbrio, abrange tanto o rápido retorno a um estado pré- distúrbio, como a evolução para um novo estado operacional (Meerow et al., 2016).

A inter e multidisciplinaridade associada à resiliência e ao pensamento resiliente é resultante da complexidade adaptativa associada aos sistemas socioecológicos (Mehmood, 2016).

O trabalho de Vale (2014) foi estendido por Meerow et al. (2016), ou seja, às questões iniciais de resiliência para quem e para quê, acrescentou para quando e para onde:

• Para quem? A resiliência é configurada por quem tem o poder de intervir no território e é adaptada às suas agendas, sendo os principais beneficiadores dela e definindo as áreas prioritárias.

• Para quê? A associação da resiliência à vulnerabilidade do meio traduz o principal objetivo: diminuir a sua vulnerabilidade e fortalecer as suas relações internas e externas para se tornar mais adaptável às ameaças e não perder as suas funções face a elas.

• Para quando? O foco das mudanças pode ser a curto ou longo prazo, caso sejam as ruturas do sistema pontuais ou devidas a agressões contínuas.

• Para onde? Delimitar um sistema urbano é um desafio devido ao conjunto de redes globais complexas que o compõe, já que a transformação de um local tem impacte em todo o sistema e nas suas relações.

2.7.SÍNTESE

As cidades constituem o meio urbano, composto por diferentes sistemas – ambiental e ecológico, cultural, social, económico e institucional – e resulta das suas interações.

O aparecimento das cidades está ligado à degradação do meio ambiente, ao aumento descontrolado da população e às novas tecnologias. Tal, levanta as questões ambientais a que são fundamentais responder, para que, a capacidade de suporte seja garantida e as atividades humanas possam decorrer sem por o futuro dos recursos naturais em risco. Ou seja, a sustentabilidade é dos temas que irá acompanhar todo este estudo, sendo o objetivo principal do mesmo.

Ian McHarg foi dos principais incentivadores da integração do ambiente nas cidades, focando esta problemática e iniciando o rumo à cidade sustentável. As ações humanas são as que mais impactes causam no território, sendo consideradas responsáveis pelas alterações ambientais extremas vividas e pela degradação quase total do sistema ambiental.

O ser humano tem de ser capaz de criar mecanismos de resposta que reponham a saúde ambiental. A resiliência é um exemplo disso, permitindo a adaptação ou transformação dos sistemas em relação aos distúrbios de que é alvo.

Assim, a sensibilidade surge como uma forma de perceber o tipo de respostas que o território dá aos problemas ambientais e às especificidades do próprio território, tendo em conta todas as suas relações.

3

A SENSIBILIDADE DO TERRITÓRIO

3.1.INTRODUÇÃO

“Sensibilidade, do latim sensibilitas, -atis, sentido, significado, sensibilidade, é definida como a faculdade de sentir, irritabilidade, sentimento de humanidade, de compaixão (figurado), suscetibilidade, disposição para ofender-se ou melindrar-se” (dicionário Priberam – priberam.pt).

O estudo da sensibilidade implica uma abordagem multidisciplinar, associando ao planeamento as ciências naturais e toda uma variedade de campos para que todos os conceitos e termos ligados a este estudo sejam plenamente compreendidos para, posteriormente, serem postos em prática.

3.2.A SENSIBILIDADE COMO MEDIDA DA VULNERABILIDADE

Neste subcapítulo serão estudadas a origem da sensibilidade e as relações inerentes dela com a vulnerabilidade, bem como, pode ser feita a sua avaliação, exemplificando com aplicações práticas já aplicadas.

3.2.1. ORIGEM E RELAÇÕES

A sensibilidade foi inicialmente utilizada por Buckley (1982), no âmbito do ambiente, representando uma medida que mostra a facilidade de infligir o dano numa determinada área ou de produzir sérias consequências devido a ações de escala considerável.

Como explorado no capítulo anterior, as recentes preocupações com as alterações climáticas, levaram à formação do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC), que estudam as suas consequências nas cidades. Estes foram uns dos precursores da utilização da sensibilidade como característica deste tipo de sistemas. McCarthy et al. (2001) definiu a sensibilidade de um sistema em relação ao clima, como “o grau de afetação do sistema, de forma positiva ou negativa, por estímulos

relacionado com o clima”, sendo que pode ser afetado direta ou indiretamente. Esta definição foi

adotada por inúmeros especialistas, como por exemplo, Nikolova e Gikov (2013) ou González (2017a).

A sensibilidade depende do conjunto de particularidades do sistema e dos potenciais efeitos, positivos ou negativos, decorrentes da exposição do sistema aos fatores que os causam. Os efeitos são as respostas que o meio dá face às pressões que enfrenta, então a sensibilidade é também caracterizada por um processo de ação-reação.

Brooks et al. (2005) e González et al. (2011) corroboram as conclusões de McCarthy acrescentando que a sensibilidade é um conceito específico do tempo, espaço e contexto em que se insere e nos quais é estudado, exibindo suscetibilidade às características inerentes da região e do momento em que se encontra. A esta sensibilidade denomina-se por sensibilidade intrínseca (González, 2017a). Por outro lado, à sensibilidade baseada em juízos de valor, os quais são maioritariamente provenientes de especialistas e decisores, a autora intitula de sensibilidade compreendida.

A sensibilidade depende de fatores geográficos, socioeconómicos, ambientais e culturais (ESPON, 2013).