CAPÍTULO 1 CONTEXTUALIZANDO O OBJETO DE ESTUDO:
1.4 Os Sistemas de Ensino
Nas Constituições anteriores, somente a União e os Estados eram considerados entes
federativos e ambos hierarquicamente superiores aos Municípios. Nesse contexto, os
Municípios considerados sub-sistemas do Estado desenvolviam ações educacionais
autorizadas e normatizadas pelo Sistema Estadual (CURY, 2003).
Saviani (1996) define “Sistema” como a “unidade de vários elementos
intencionalmente reunidos, de modo a formar um conjunto coerente e operante”. Sistema de
Ensino, então, “significa uma ordenação articulada dos vários elementos necessários à
consecução dos objetivos educacionais preconizados para a população à qual se destina”
(SAVIANI, 1999).
Sistemas de Ensino seriam então, na concepção de Cury (2000),
O conjunto de competências e atribuições voltadas para o desenvolvimento da educação escolar que se materializam em instituições, órgãos executivos e normativos, recursos e meios articulados pelo poder público competente, abertos ao Regime de Colaboração e respeitadas as normais gerais vigentes. Os municípios, pela Constituição de 1988, são sistemas de ensino.
Quando a Constituição ascendeu o Município à categoria de ente federado autônomo,
dotou-o, também, de capacidade para instituir os Sistemas Municipais de Ensino. No entanto,
a redação do texto criou polêmicas com relação ao entendimento de que o Município poderia
ou não instituir seus Sistemas de Ensino5. Essa questão foi enfim clareada pela LDBEN
quando repete o mesmo texto da Constituição, porém acrescentando a palavra “respectivos”
Sistemas de Ensino, como também pelos Pareceres nº CNE/CEB nº 30/2000 e 04/2001.
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Observe-se que nessa passagem da Constituição Federal não aparece a expressão “os respectivos sistemas de ensino” mas “os seus sistemas de ensino”. Ora, o adjetivo “respectivos” denota univocamente “de cada um” enquanto a palavra “seus” pode significar tanto “de cada um” como “deles”, isto é, os sistemas de ensino da União, dos estados e dos municípios (SAVIANI, 1999).
A LDBEN (artigo 8º) confirma a possibilidade de instituição dos Sistemas Municipais
de Ensino abrindo um leque de mais duas possibilidades de organização (artigo 11, parágrafo
único). Dessa forma os Municípios dispõem de três opções:
a) Instituir o Sistema Municipal de Ensino;
b) Integrar-se ao Sistema Estadual de Ensino;
c) Compor com o Estado um sistema Único de Educação Básica.
Entretanto o Regime de Colaboração pressupõe a existência de sistemas autônomos
para que possam relacionar-se de forma independente, sem subordinação nem hierarquia
(ABREU e SARI, 1999). Nesse sentido, a opção do Município por continuar integrado ao
Sistema Estadual significa abrir mão da autonomia e delegar ao outro ente a competência para
normatizar seu próprio Sistema, além de revelar uma certa incapacidade de decidir sobre os
destinos da educação local.
Quanto à opção de compor com o Estado um Sistema Único de Educação Básica,
Cury (2000, p.14) esclarece que
(...) o caráter binário de repartição de competências dilui-se e une, em toda a sua extensão entre os optantes, o ensino, que, num mesmo território e para as questões de igual natureza, fica circunscrito a princípios e definições emanadas das mesmas autoridades executivas e normativas quanto à organização e funcionamento das unidades escolares, carreira, financiamento. Então, em vez de um sistema municipal e outro estadual, o que se tem é um sistema único de ensino público no interior das divisas geográficas do Estado.
Segundo a LDBEN, o Sistema Federal de Ensino compreende as instituições de ensino
privada e os órgãos federais de educação: Conselho Nacional de Educação (CNE) e
Ministério da Educação (ME), (artigo 16). O Sistema Estadual abriga as instituições de ensino
mantidas pelo Governo Estadual, as instituições de Ensino Superior mantidas pelo Governo
Municipal, as instituições de Ensino Fundamental e Médio criadas e mantidas pela iniciativa
privada e os órgãos estaduais de educação: Conselho Estadual de Educação e Secretaria
Estadual de Educação (artigo 17). Os Sistemas Municipais de Ensino compreendem: as
instituições de Educação Infantil, de Ensino Fundamental e Médio mantidas pelo Poder
Público Municipal, como também por instituições de Educação Infantil criadas e mantidas
pela iniciativa privada e pelos órgãos municipais de educação: Secretaria Municipal de
Educação e Conselho Municipal de Educação.
Tanto a Constituição quanto a LDBEN estabelecem separadamente as atribuições
educacionais para cada uma das esferas governamentais. A LDBEN ressalta o papel da
colaboração entre os entes federados na efetivação dessas competências e define
separadamente as atribuições de cada um.
Cabe à União, além de oferecer o Ensino Superior, o papel de coordenar a Política
Nacional de Educação e exercer a função normativa, redistributiva e supletiva em relação às
demais instâncias educacionais. O Estado divide com os Municípios a oferta do Ensino
Fundamental e fica com a responsabilidade do Ensino Médio. Os Municípios devem oferecer
a Educação Infantil em Creches e Pré-Escolas, com prioridade para o Ensino Fundamental
(artigos 9º, 10 e 11). É permitido ao Município atuar em outros níveis de ensino, porém com a
ressalva de que já tenha atendido a oferta na área de sua competência e com recursos acima
dos percentuais mínimos vinculados pela Constituição Federal. A Educação Infantil é
competência executiva do Município, porém do ponto de vista financeiro e técnico é
Do ponto de vista de Cury (1997, p. 98),
Há uma transferência de responsabilidades ainda que se mantenha a figura de deveres compartilhados, seja por delegação, seja por cooperação, seja por clareamento de atribuições. Neste caso pode-se falar em descentralização. Os Municípios devem assumir responsabilidades cada vez maiores face ao ensino fundamental e os Estados com o ensino médio. Ambos são reconhecidos como sujeitos de sistemas de ensino.
Como sujeitos, os Municípios podem compartilhar ações e recursos com os outros
entes para fazer face ao atendimento educacional da população. Dessa forma são inúmeras as
possibilidades de desenvolvimento do Regime de Colaboração entre os Sistemas de Ensino:
na divisão da responsabilidade com a matrícula escolar; no financiamento e oferta de
transporte dos alunos; no Programa de Merenda Escolar; na cedência de pessoal entre as redes
de ensino, em programas de capacitação de pessoal, na transferência de gestão de escolas, na
elaboração dos planos de educação, entre outras tantas. Muitas dessas ações já existiam de
forma articulada entre as Redes de Ensino, no entanto a efetivação do Regime de Colaboração
somente acontece se as decisões forem compartilhadas, respeitando as autonomias dos
Sistemas de Ensino.