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Os sistemas de Lewis e as multi-valorações

Em 1914, Lewis defende num artigo pioneiro que a implicação material tal qual concebida no Principia Matematica de Russell e Whitehead produzia teoremas alarmantes: (1) uma proposição falsa implica qualquer proposição (2) uma pro- posição verdadeira é implicada por qualquer proposição.2 Em termos formais:

(i) ¬p → (p → q) (ii) p → (q → p)

Segundo Lewis, esses teoremas não são misteriosos, nem grandes descober- tas tampouco enormes absurdos. Eles mostram apenas, em linhas gerais, o sentido de `implica' que tem sido incorporado em álgebra.3 Esse não é, porém,

o sentido usual da palavra implica: dizemos que uma proposição implica ou- tra quando a primeira foi logicamente deduzida da segunda. À primeira vista, Lewis pretendia substituir a implicação material de Russell por aquilo que ele

2startling theorems: (1) a false proposition implies any proposition, and (2) a true propo-

sition is implied by any proposition. [Lew14]. Sobre a história dos sistemas de Lewis, vide [Bal10].

3In themselves, they are neither mysterious sayings, nor great discoveries, nor gross ab-

surdities. They exhibit only, in sharp outline, the meaning of `implies' which has been incor- porated into the algebra. Idem.Ibidem.

denominou implicação estrita. Em seguida, optou por uma abordagem que con- siderava a implicação material como um fragmento de seu novo cálculo. Apenas em 1932 foi formulada uma axiomática denitiva.4 A fórmula p J q passa a ser

denida como ¬♦(p ∧ ¬q), em que p e q são variáveis proposicionais, estendendo o cálculo implicativo do Principia Matematica com o novo operador ♦.5

S1, o primeiro dos cinco sistemas da hierarquia de Lewis, é obtido adicionan- do-se o operador J à linguagem do cálculo proposicional clássico e os seguintes axiomas:6 (B1) (p ∧ q) J (q ∧ p) (B2) (p ∧ q) J q (B3) p J (p ∧ p) (B4) (p ∧ (q ∧ r)) J ((p ∧ q) ∧ r) (B6) ((p J q) ∧ (q J r)) J (p J r) (B7) (p ∧ (p J q)) J q

Observe que os axiomas acima dizem respeito apenas a ∧ e J, procurando manter a maior parte das propriedades da implicação material que não envolve negação. Por exemplo, sabemos por (B6) que esperamos valer uma forma de Silogismo Hipotético7 para a implicação estrita enquanto (B7) parece garantir

alguma forma de Modus Ponens. O mesmo acontece com a regra de Inferência Estrita, como podemos conferir abaixo na lista das regras de S1.

Podemos provar que J mantém propriedades convenientes de uma implica- ção. Provaremos, por exemplo, que p J p é teorema em S1:

4Em seu livro A Survey of Symbolic Logic [Lew18].

5Na verdade, Lewis toma os operadores ∧ e ¬ como primitivos e não ∨ e ¬ como conside-

rados por Russell e Whitehead. Vide Seção 1.1.

6Excluímos o axioma (B5) p J ¬¬p, dado que Mckinsey demonstrou em [Mck34] que ele

pode ser deduzido dos demais.

7De acordo com [Bob06], o silogismo hipotético em sua versão original foi estudado por

Theoprastus, seguidor de Aristóteles. Sua versão em linguagem natural é: Se alguma coisa é F , enão é G

Se alguma coisa é G, então é H Logo, Se alguma coisa é F , então é H Em nossa linguagem proposicional, teríamos p → q, q → r ` p → r.

Substituição Uniforme Uma fórmula válida permanece válida se substituirmos uniformemente suas variáveis; proposicionais por outras fórmulas;

Substituição de Equivalentes Duas fórmulas estritamente equivalentes são intercambiáveis;

Inserção da Conjunção Infere-se α ∧ β de α e β; Inferência Estrita Infere-se β de α e α J β.

1. p J (p ∧ p) [(B3)] 2. (p ∧ p) J p [Substituição Uniforme em (B2)] 3. (p J (p ∧ p)) ∧ ((p ∧ p) J p) [Inserção da Conjunção em 1 e 2] 4. ((p J (p ∧ p)) ∧ ((p ∧ p) J p)) J (p J p) [Substituição Uniforme em (B6)] 5. p J p [Inferência Estrita em 3 e 4] Logo, `S1p J p.8

Considere, agora, os demais axiomas: (B8) ♦(p ∧ q) J ♦p

(A8) (p J q) J (¬♦q J ¬♦p) (C10) ¬♦¬p J ¬♦¬¬♦¬p (C11) ♦p J ¬♦¬♦p

Para Lewis, (B8) procura interpretar ♦ como consistente, axioma que ao adicionarmos a S1 obtemos S2. (A8) é uma forma de contraposição para J. Se interpretarmos ¬♦¬ como demonstrável,9 (C10) estabelece que se demons-

tramos p, então necessariamente demonstramos que demonstramos p. Por m, (C11) diz que se p é consistente, então demonstramos a consistência de p. S3 é S1 mais (A8), enquanto temos S4 acrescentando-se (C10) a S1 e temos S5 acrescentando-se (C11) a S3.

Lewis mostra que S1 ⊆ S2 ⊆ S3 ⊆ S4 ⊆ S5, por meio da seguinte estraté- gia: apresenta tabelas-verdades que satisfazem os axiomas de S1 mas não (B8);

8Esse teorema de S1 será importante no Teorema de Incompletude de Dugundji, tal como

será mostrado na Subseção 2.2.1.

9 Boolos sugere que Lewis tinha em mente a noção de demonstração para interpretar

¬♦¬. Conferir [Boo93]. Lemmon defende todavia em [Lem57] que o sistema mais fraco S0.5 seria apropriado para interpretar que uma fórmula é demonstrável em PC. Já em [CP13] argumenta-se que para fragmentos de PC, é apropriado tomar o sistema ainda mais fraco S0.50 para respresentar essas noções. Veremos a axiomática de S0.5 e de S0.50na Subseção

em seguida, tabelas que satisfazem os axiomas de S2 mas não (A8), e assim por diante. Para isso, Lewis utiliza tabelas-verdade com quatro valores de verdade. É importante ressaltar que Lewis não oferece nenhuma semântica para esses sistemas: por exemplo, suas tabelas para S1 validam todos os teoremas de S1, mas nada garante que elas validem apenas esses teoremas. É razoável supor que foi com a intenção oferecer uma semântica para sistemas modais que Šukasiewicz propôs a seguinte tabela para o operador ♦:10

p ♦p

0 0

1 2 1

1 1

Aqui, se 1 é verdadeiro e 0 é falso, o terceiro valor 1

2 pode ser visto como

indeterminado.11 Uma fórmula é possivelmente verdadeira quando é verdadeira

ou apenas indeterminada, mas uma fórmula é tautologia apenas se recebe o valor 1 em que 1 é o único valor designado.

Na verdade, Šukasiewicz construiu uma hierarquia de n sistemas, para n > 3. O primeiro desses sistemas é Š3 e tem as tabelas:

p ¬p 0 1 1 2 1 2 1 0 ∧ 0 12 1 0 0 0 0 1 2 0 1 2 1 2 1 0 12 1 ∨ 0 1 2 1 0 0 1 2 1 1 2 1 2 1 2 1 1 1 1 1 → 0 1 2 1 0 1 1 1 1 2 1 2 1 1 1 0 1 2 1

10Assim defende Ballarin em [Bal10]. As tabelas em questão estão em [Šuk30].

11What is this third value? I have no suitable name for it. But after the preceding

explanations it should not be dicult to understand what I have in mind. I maintain that there are propositions which are neither true nor false but indeterminate. (O que é esse terceiro valor? Eu não tenho um nome apropriado para ele. Mas depois das explanações acima não seria difícil compreender o que eu tinha em mente. Eu continuo defendendo que há proposições as quais não são verdadeira tampouco falsas mas indeterminadas) Em [Šuk61].

Como observado pelo seu aluno Tarski em 1921, pode-se denir o operador modal ♦p como ¬p → p.12

A lógica Š3 não é, entretanto, uma extensão do sistema minimal que tra-

tamos no capítulo anterior, a saber, ICI. Seja v a função de valoração que respeita as tabelas acimas. De fato, se v(p) = 1, v(q) = 1

2 e v(r) = 0 então v(p → q) = 1 2, v(p → r) = 0 e v(q → r) = 1 2. Daí temos v(p → (q → r)) = 1 2

e v((p → (q → r) → (p → r)) = 0 o que implica que v(Ax2) = 1

2, que não é

distinguido.

Por outro lado, Š3 pode ser entendida como um modelo para os axiomas

modais de Lewis. Até então vimos apenas axiomas e tabelas para ♦ e J. Gödel, porém, foi o primeiro a introduzir o operador  como equivalente a ¬♦¬. Sua intenção era mostrar que IPC poderia ser interpretada em S4. Para isso, propôs a seguinte versão:13

(K) (p → q) → (p → q) (T) p → p

(4) p → p

Introdução da Necessitação Se uma fórmula α é teorema

então a fórmula α também é teorema. E para obtermos S5, basta adicionarmos:

(5) ♦p → ♦p

Para efeitos de simplicação, denominaremos a regra Introdução da Neces- sitação simplesmente de (Nec). Na versão de Gödel, p J q é equivalente a (p → q). Veremos que essa notação será muito eciente para provar os resul- tados de completude e incompletude modal.

Podemos provar concomitantemente que as condições (i) e (ii) da implica- ção estrita não valem tanto na hierarquia de Lewis quanto na de Šukasiewicz, reforçando a tese de que Šukasiewicz almejava que sua semântica fosse usada para sistemas modais. Voltemos à Š3 e denamos p com equivalente a ¬♦¬p.

Teremos então a seguinte tabela para :

12De acordo com [Šuk53]. A denição de  em termos de ♦ está em [Šuk30].

13A axiomática abaixo bem como a intepretação de IPC em S4 podem ser encontradas em

p p

0 0

1 2 0

1 1

Basta agora comprovar que as tabelas de Š3são um modelo para os axiomas

modais de S5, ou seja, que todos os seus axiomas modais recebem o valor designado 1, o que é vericado abaixo:

 (p → q) → (p → q) 1 0 1 0 1 0 1 0 1 0 1 12 1 0 1 0 1 0 1 1 1 0 1 1 0 12 12 0 1 0 1 0 1 12 1 12 1 0 1 0 1 12 1 1 1 0 1 1 0 1 0 0 1 1 0 0 0 1 12 12 1 1 0 0 1 1 1 1 1 1 1 1 p → p 0 1 0 0 1 1 2 1 1 1 p →  p 0 1 0 0 0 1 0 1 2 1 1 1 1 ♦ p →  ♦ p 0 0 1 0 0 0 1 1 2 1 1 1 1 2 1 1 1 1 1 1

Como vimos, Š3 é um modelo para os axiomas modais de S5, ou seja, to-

dos esses axiomas tomam o único valor designado 1 e a Regra de Necessitação preserva o valor designado. Além disso, não é difícil vericar que Š3 invalida

as condições (i) e (ii) de Lewis. Interpretando à maneira de Gödel p J q como (p → q), temos:

Teorema 2.1.1: (i) 2L3¬p J (p J q)

Demontração: Seja v a função de verdade que associa a cada proposição modal um valor de verdade do conjunto {0, 1

2, 1}respeitando as tabelas de Š3.

Tome v(p) = 1

2e v(q) = 0. Pelas tabelas de →, ¬ e , sabemos que v(p → q) = 1 2

e então temos que v((p → q)) = 0, enquanto v((¬p → (p → q))) = 1 2,

que não é um valor designado. Analogamente, se v(p) = 1

2 e v(q) = 1, então

v(q → p) = 1

2 e ainda v(p → (q → p)) = 1

2 o que nos força a concluir

v((p → (q → p))) = 0. 

Por outro lado, visto S5 ser uma extensão de PC, então as tabelas de Š3

não são um modelo para S5, pois invalidam (Ax2). Por outro lado não sabemos se algum outro conjunto de matrizes de três ou mais valores de verdade é capaz de ser uma semântica apropriada para S5 e os demais sistemas de Lewis. Essa pergunta foi respondida por Dugundji em 1940, como veremos na próxima seção.