CAPÍTULO 1. A HISTÓRIA DO PENSAMENTO GREGO
1.2. Os Sofistas entram em Cena
No século V a.C., após a vitória das cidades gregas frente à Pérsia, protagonizada por Péricles, Atenas viveu seu esplendor cultural e a filosofia grega passou do período cosmológico para o período antropológico. E a filosofia, que até então era cultivada em círculos fechados, passou a ser disseminada na vida pública e tinha a missão de formar cidadãos. Estudos mais intimamente relacionados com o próprio homem começaram a proliferar. Surgiram os sofistas, que significava “aquele que é sábio”.
“A entrada dos sofistas no debate filosófico assinala que a filosofia de um certo ponto em diante vai debruçar-se sobre o mundo das coisas humanas, o universo da liberdade. Assim passa-se à reflexão metódica sobre a liberdade, a política, a ética”.26
Os sofistas chegaram em Atenas vindos da região litorânea da Turquia, da bota italiana e da Sicília, e prometeram ensinar a arte da retórica aos atenienses.
A educação democrática de Atenas e de outras cidades gregas exigiu do cidadão a participação nas assembléias, espírito crítico e a busca racional da verdade. Para Antonio Truyol y Serra (1998), “Os sofistas, atendendo a demanda de seu público, cultivaram sobretudo a
retórica e deram mais importância à argumentação em si, à arte de convencer por meio do discurso, que a busca da verdade”27.
Porém, para o autor, os sofistas submeteram à crítica o fundamento da validade das leis e costumes do nomos (regra que emana da razão) e desacralizaram as tradições da filosofia natural, contrapondo physis e nomos.
Nessa perspectiva, tudo na natureza seria relativo, e para toda tese inicial poderia existir uma versão oposta.
Nessa nova maneira de pensar, que usava como prerrogativa o pensamento lógico, valendo-se exclusivamente do raciocínio e que visava aperfeiçoar a exposição das idéias, o logos (estudo) seria também uma forma de negar o pensamento mítico. Segundo José Reinaldo de Lima Lopes (2000), “A virada sofística, seguida por Sócrates, Platão e Aristóteles, significou colocar
em crise e submeter a crítica este senso comum que facilmente poderia converter-se em tradicionalismo (ou fundamentalismo) puro e simples”28.
27 Tradução livre do autor. “Os sofistas, atendiendo a la demanda de su público, cultiven de preferencia la retórica, y
den más importancia a la argumentación en sí, al arte de convencer por el discurso, que a la búsqueda de la verdad.” Antonio Truyol y Serra, Historia de la filosofia del derecho y del Estado 1. De los orígenes a la baja edad media, p.114.
A democracia em Atenas fez com que os cidadãos desenvolvessem a arte do falar bem e convencer, a fim de verem aprovadas suas idéias nos plebiscitos. Isto é o que se chamou retórica.
As obras dos sofistas não chegaram de forma contínua até a atualidade. Somente fragmentos de seus pensamentos persistiram nas citações feitas pelos pensadores clássicos, principalmente em Platão e Aristóteles que, por considerarem importantes os pensamentos dos sofistas, os citavam antes de contestá-los. O termo sofista, entretanto, com o passar dos tempos, começou a ser utilizado no sentido pejorativo, designando aqueles que empregavam um raciocínio para o qual já se tinha uma resposta. E é em virtude disso que alguns consideram o pensamento sofista de maneira negativa.
Foram os sofistas que iniciaram a socialização dos debates filosóficos que se seguiram durante séculos. Com eles, muitas das tradições começaram a ser questionadas e o pensamento grego, a partir de então, mudou radicalmente.
Podemos assinalar alguns dos aspectos mais importantes da herança sofística.
Protágoras, considerado maior de todos os sofistas, dizia que a vontade, a verdade, a justiça e a beleza eram relativas às necessidades e interesses do próprio homem, não havendo, assim, verdades absolutas nem padrões eternos, o justo seria o que convinha à sociedade.
Se o homem era tido pelo sofista Protágoras como a medida de todas as coisas, nada seria mais importante que seu aperfeiçoamento, pois ao homem caberia decidir sobre as leis, a política, o Estado etc.
Ensina TRUYOL Y SERRA (1998) que “(...) se as virtudes sociais do pudor e a justiça
são comuns a todos, todos serão competentes para atuar na vida pública. Mas ele não excluía, segundo Protágoras, a necessidade de uma educação da minoria dirigente”.29
Foi a partir dos sofistas que a filosofia começou a refletir sobre as leis.
Esta discussão tornou-se possível porque os gregos descartaram a idéia de que as leis eram reveladas pelos deuses ou apenas tradições herdadas dos antepassados.
Segundo TRUYOL Y SERRA (1998), a problemática filosófico–jurídica da sofística foi implantada por Heródoto (aproximadamente de 484 a 425 a.C.), que permutou a justiça do campo da tradição religiosa para o campo da história.
“O que alguns povos veneram é objeto de desprezo de outros. Esta comprovação, ao introduzir na moral um princípio relativista, provoca a questão do fundamento da validade das leis e costumes, e da qual será o critério de valoração das mesmas”.30
29 Tradução livre do autor. “(...) si las virtudes sociales del pudor y la justicia son comunes a todos, todos serán
competentes para actuar en la vida pública. Mas ello no excluía, según Protágoras, la necesidad de una educación de la minoría dirigente”. Antonio Truyol y Serra, Historia de la filosofia del derecho y del Estado 1. De los orígenes a la baja edad media, p.118.
30 Tradução livre do autor. “Lo que unos pueblos veneran es objeto de burla por otros. Esta comprobación, al
introducir en la moral un principio relativista, provoca la cuestión del fundamento de la validez de las leyes y costumbres, y de cuál sea el criterio de valoración de las mismas”. Ibid., p.110.