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Capítulo III A Teoria dos Stakeholders, o ensino superior e a internacionalização

3.2 Os stakeholders e o ensino superior

3.2.2 Os stakeholders e o ensino superior em Portugal, Brasil e Holanda

3.2.2.3 Os stakeholders e o ensino superior Brasileiro

O envolvimento dos stakeholders no ensino superior brasileiro é pontuado em dois âmbitos: (i) governo das IES públicas, instituído pela lei de diretrizes e bases da educação nacional - LDB 9394 de 1996; (ii) avaliação do ensino superior, instituído pela Lei 10.861

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de 14 de Abril de 2004 que instituiu o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior (SINAES).

A LDB estabelece a participação dos stakeholders internos e externos nos órgãos colegiados das IES (Artigo 56º). No que se refere à representatividade de cada segmento, cumpre ressaltar que a única observação desta lei diz respeito aos docentes, como descrito no parágrafo único deste artigo destacado abaixo, sendo facultado o direito a cada IES da determinação da participação dos demais segmentos através do estatuto jurídico especial, de modo a atender às peculiaridades de sua estrutura e organização (Artigo 56º).

Artigo 56º. As instituições públicas de educação superior obedecerão ao princípio da gestão democrática, assegurada a existência de órgãos colegiados deliberativos, de que participarão os segmentos da comunidade institucional, local e regional. Parágrafo único. Em qualquer caso, os docentes ocuparão setenta por cento dos assentos em cada órgão colegiado e comissão, inclusive nos que tratarem da elaboração e modificações estatutárias e regimentais, bem como da escolha de dirigentes.

Em seu turno, a Lei 10.861 de 2004 intensificou a ênfase da responsabilidade social do ensino superior, especialmente no que se refere à sua contribuição em relação à inclusão social, ao desenvolvimento econômico e social, e instituiu a participação dos stakeholders internos e de alguns segmentos dos stakeholders externos (Artigo 2º) na avaliação de IES:

Art. 2º. O SINAES, ao promover a avaliação de instituições, de cursos e de desempenho dos estudantes, deverá assegurar:

(...)

IV – a participação do corpo discente, docente e técnico-administrativo das instituições de educação superior, e da sociedade civil, por meio de suas representações.

Observa-se que, com o advento desta avaliação, a perspetiva dos stakeholders começou a ter importância na literatura que trata do ensino superior (por exemplo, Bolan & Motta, 2007; Mainardes, Deschamps & Tontini, 2009; Mainardes & Domingues, 2010), principalmente no que se refere à avaliação e perceção da qualidade do ensino e dos serviços prestados pelas IES.

No que se refere ao envolvimento dos stakeholders na internacionalização, cumpre referenciar os estudos de Miúra (2006) e Lima e Contel (2008) que analisaram,

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respetivamente, a importância e a influência dos stakeholders internos nos âmbitos institucional e nacional.

Miúra (2006) analisou aspetos do desenvolvimento do processo deinternacionalização de três faculdades de uma IES de grande porte, e destacou os professores e estudantes como os principais catalisadores, e as agências brasileiras de fomento nacional, designadamente, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – CAPES e O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq como importantes catalisadores. Segundo esta autora, o estímulo dos professores diz respeito, principalmente, à sua contribuição para a concretização de acordos de cooperação internacional através doestabelecimento de vínculos com a realização de doutorados e pós-doutorado no exterior. Do mesmo modo, importa ressaltar que este estímulo pode estar sendo fomentado pela forte representatividade dos mesmos nos colegiados de governo das IES estabelecida na LDB, e complementarmente, pelo apoio concedido pelos programas das agências de fomento, visto que os mesmos são reconhecidamente o segmento mais apoiado neste sentido.

Por sua vez, Lima e Contel (2009) analisaram qualitativamente a influência dos

stakeholders internos para o fortalecimento da internacionalizaçãode 26 IES Brasileiras, e

destacaram (nesta ordem) os estudantes, a direção/gestores, os professores, os pesquisadores e a administração académica.

No que se refere aos stakeholders externos, Lima e Contel (2009) destacam o papel norteador, regulador, e financiador do Governo através do destaque da internacionalização nas políticas de ensino superior, assim como o papel de cumpridor destas políticas das agências nacionais, nomeadamente a CAPES e o CNPQ, através da promoção da cooperação científica internacional, com o propósito de alavancar o desenvolvimento académico, científico e tecnológico do país.

3.3 Conclusões

A verificação e o exame das contribuições das literaturas especializadas em ciências empresariais, em ensino superior e em internacionalização permitiu conhecer o estado da arte e as lacunas relevantes para o desenvolvimento da teoria dos stakeholders, possibilitou o entendimento holístico acerca da importância e influência dos stakeholders para/nas

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organizações de um modo geral, assim como, em particular, permitiu o entendimento do seu papel para o desenvolvimento da internacionalização do ensino superior dentro de uma perspectiva macro/teórica. Por sua vez, a verificação e a análise dos pressupostos que regulamentam a participação dos stakeholders no governo das IES, associada à análise dos trabalhos das literaturas especializadas de Portugal, Holanda e Brasil, tornou possível este entendimento numa perspectiva micro/empírica destes países que constituem a amostra do estudo empírico desta investigação. Assim sendo, as conclusões deste ponto também serão apresentadas considerando estas perspetivas.

Inicialmente, cumpre destacar as inferências do estado da arte do tema na perspetiva macro/teórica. Primeiro, o desenvolvimento da literatura tem sido pautado pela identificação, reconhecimento e avaliação das relações de influência, poder e interesse entre as organizações e seus atores, com o escopo de desenvolvimento de conceitos, tipologias, modelos no sentido de nortear a gestão destas relações, considerando a sua importância para o processo de tomada de decisão e, por conseguinte, para o desempenho das mesmas. Assim, a importância destas relações tem constituído o fio condutor desta teoria. Segundo, no âmago destas relações e, por conseguinte, da importância atribuída aos stakeholders encontram-se razões de natureza económica, social, e política, e, especificamente no âmbito do ensino superior, para além destas, aquelas de natureza académica. Todavia, estas razões possuem diferentes significados e níveis de importância para empresas e IES, dadas as divergências de seus propósitos e funções nas sociedades.

No entanto, embora os trabalhos verificados tenham dado relevantes contributos para o enquadramento e desenvolvimento desta teoria, esta investigação destaca a carência de estudos principalmente no que diz respeito ao contexto do ensino superior e à sua internacionalização, assim como algumas lacunas.

Por exemplo, esta investigação destaca a ausência de estudos quantitativos que analisem as relações entre os diversos (internos e externos) stakeholders e as organizações e que considerem as razões intrínsecas existentes. No âmbito particular da internacionalização esta análise diz respeito às relações entre os stakeholders e os elementos chave do processo de internacionalização, nomeadamente, as motivações, estratégias e benefícios, uma vez que a literatura defende a existência de relações de influência nesse sentido, contudo, não foram encontrados trabalhos desenvolvidos nesta perspetiva. Portanto, um estudo desta natureza,

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também se faz necessário para a consolidação da teoria da internacionalização. Do mesmo modo, outras relevantes lacunas dizem respeito às análises quantitativas para o teste ou desenvolvimento de tipologias e modelos de base estatística e aos estudos comparativos, tendo em conta os seus relevantes contributos, respetivamente, para o estabelecimento da validade das teorias e para generalizações mais fundamentas do seu enquadramento conceptual.

Em seu turno, as análises acerca dos pressupostos do envolvimento dos stakeholders no ensino superior de Portugal, Brasil e Holanda permitiram conclusões empíricas gerais, ou seja, válidas para os três contextos, assim como inferências específicas para cada um destes contextos que darão o suporte às conclusões dos resultados da investigação empírica. Com efeito, os stakeholders são importantes para o desenvolvimento do ensino superior nos três contextos analisados, uma vez que existe um envolvimento no governo das IES determinado através de pressupostos legais, o que, por consequência, tem influenciado o interesse da literatura. Todavia, as diferenças sociais, económicas e educacionais determinam diferentes razões para esta importância, como também diferentes regras e níveis de envolvimento e abordagem da literatura. Efetivamente, verificam-se regras mais pormenorizadas para o envolvimento dos stakeholders internos e externos nos contextos português e holandês, assim como abordagens da literatura mais voltadas à sua importância para o desempenho institucional. De outro lado, no contexto brasileiro, a abordagem da literatura é mais voltada à perspetiva social com ênfase ao papel do ensino superior na sociedade.

No que se refere ao nível de importância agregada a cada tipologia de stakeholder, importa salientar que, embora se verifique um aumento do envolvimento daqueles externos e, por consequência, um aumento do interesse da literatura sobre esta perspetiva, associados às razões sociais, económicas ou políticas, os stakeholders internos ainda possuem maior relevância nestes contextos. Importa destacar também a importância normativa e reguladora do governo para o desenvolvimento da internacionalização nestes países, assim como a importância política da União Europeia para o delineamento da internacionalização da Holanda e Portugal.

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