2. TECENDO A REDE DA FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
2.2 O (con)texto da disciplina Psicologia da Educação
2.2.1 Os sujeitos aprendizes e ensinantes que somos
Para esse tópico, tomamos como base a Psicologia Histórico-Cultural, portanto, partimos aqui da ideia de que o sujeito é construído social e historicamente, e que o espaço escolar é parte desse contexto. A subjetividade é extraordinariamente complexa e, é dessa maneira, que se pode expressar em atividades também complexas, tais como a aprendizagem escolar. Entre essas atividades, encontramos as ações docentes desenvolvidas para alcançar essa aprendizagem escolar, na qual, acreditamos que esta singularidade da subjetividade se expresse de maneiras diversas.
É em Vigotski (1989) que se encontra a base teórica desses conceitos, ao se referir ao desenvolvimento da criança, argumentando que, desde os primeiros dias do desenvolvimento do sujeito, as suas primeiras atividades adquirem um significado próprio e são refletidas
Vigotski (1989) explicita ainda que
O caminho do objeto até a criança e desta até o objeto passa através de outra pessoa. Essa estrutura humana complexa é o produto de um processo de desenvolvimento profundamente enraizado nas ligações entre história individual e história social (p. 33)
e portanto, como dito, a subjetividade é considerada por Vigotski como algo dinâmico e constituído tanto individual quanto socialmente. Essa categoria - subjetividade - não aparece de forma explícita na obra de Vigotski. Nesse sentido, vamos recorrer a González Rey (2002), que, como estudioso e autor referência também dessa perspectiva teórica da Psicologia Histórico-Cultural, pode ainda nos auxiliar na explicitação de como é utilizado aqui o termo subjetividade, definindo-a como
...um sistema processual, plurideterminado, contraditório, em constante desenvolvimento, sensível à qualidade de seus momentos atuais, o qual tem um papel essencial nas diferentes opções do sujeito.(GONZALEZ REY, 2002, p. 37)
A ideia do papel fundante das relações sociais na formação do indivíduo, uma das teses centrais de Vigotski, aparece de forma recorrente no texto denominado “Manuscrito” (1929), que é um trabalho bastante curioso desse autor, pois tem no dizer de Góes (2000)
características de “anotações para si”, mas oferece uma riqueza teórica significativa para
exploração de vários temas. É nele que Vigotski vai argumentar que a perspectiva sociogenética é o caminho para a compreensão do funcionamento superior das formas de ação especificamente humanas, referindo-se ao socius e à importância dos outros do grupo social como participantes necessários da formação do indivíduo.
Para Vigotski,
Qualquer função psicológica superior foi externa – significa que ela foi social; antes de se tornar função, ela foi uma relação social entre duas pessoas. Meios de influência sobre si – inicialmente meio de influência sobre os outros e dos outros sobre a personalidade. (VIGOTSKI, 1929, p. 24-25)
Assim, Vigotski dá destaque à ideia de que as relações sociais estão na gênese de todas as funções individuais, que, por sua vez, originam-se das formas de vida coletiva. Por isso, a noção de indivíduo não pode ser relacionada a algo com características estáveis e uniformes, desempenhando papéis fixos na vida social. Há que se considerar que sendo os
papéis variáveis, portanto, Vigotski sugere no “Manuscrito”, conforme comentado por Góes
o singular, construído ao longo do desenvolvimento, está entrelaçado com o heterogêneo, no que diz respeito tanto à personalidade quanto às funções psicológicas individuais.(...) Por um lado, trata-se de algo em processo (individuação) que não pode ser concebido ou investigado como uma cena estacionária; por outro lado, é um processo que depende das relações sociais, que é marcado pelo papel fundamental do socius. (GÓES, 2000, p. 121)
Essa concepção da construção da pessoa, enquanto social e singular, ao mesmo tempo, ainda é corroborada em Packer e Goicochea (2000), em um artigo que discute a relação entre as perspectivas sociocultural e construtivistas da aprendizagem, no qual os autores buscam articular essas duas perspectivas como temas ontológicos não-dualistas, justificando que
As bases da teoria sociocultural podem ser remetidas de Vigotski (1978) à Marx (1867/1977) e Hegel (1807/1967), e as diferenças de pressupostos ontológicos entre as perspectivas construtivistas e a sociocultural em aprendizagem podem ser ilustradas ao compararmos Hegel com Kant (1787/1965). Hegel estava profundamente insatisfeito com o dualismo de Kant do fenômeno (experimentado) e das coisas (desconhecidas) em si mesmas, do empírico e do transcendental, e do sujeito e da realidade independente. Hegel afirmou que Kant estava equivocado ao tomar por certo o caráter da percepção individual; sua resposta foi uma tentativa de formular uma ontologia muito diferente. Seus esforços influenciaram Marx e subseqüentemente materialistas dialéticos, incluindo Vigotski e Ilyenkov, como também os fenomenologistas, incluindo Heidegger e Merleau-Ponty; alguns pós-modernistas como Derrida, Foucault, Deleuze e Lacan; pós- estruturalistas como Bourdieu e Latour, como também Dewey. 19
Para reafirmar essa articulação, os autores apresentam seis temas-chave, pois aparecem nos trabalhos de vários dos teóricos contemplados na citação acima, em seis subtítulos que são aqui trazidos de forma compilada, pois, agrupados, compõem a ideia que
fundamenta esta pesquisa de que “a pessoa é construída... num contexto social... formado
através de atividades práticas... e formado em relações de desejo e reconhecimento... que pode
dividir a pessoa... motivando a busca por identidade”
Essa concepção da pessoa, enquanto singular e social e a importância que aqui se atribui às relações e às atividades práticas, conduz ao conceito de mediação simbólica, em Vigotski, fundamental por tratar-se de um aspecto considerado como importante nas relações pedagógicas.
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PACKER, M. J. & GOICOCHEA, J. Sociocultural and Constructivist Theories of Learning: Ontology, just not Epistemology. In: Educational Phychologist, 35 94, 227-241, 2000, Lawrence Erlbaum, a., Inc. Tradução: Moisés de Castro Pena. Revisão técnica: Maria de Fátima Cardoso Gomes e Vanessa Ferraz Almeida Neves. Teoria Sociocultural e Construtivista da Aprendizagem: Ontologia, não apenas Epistemologia
O conceito de mediação, já utilizado anteriormente por nós em pesquisa desenvolvida
para o mestrado, diz respeito ao acesso que o sujeito tem a “instrumentos” e “signos”
entendidos como ferramentas advindas das gerações precedentes, passando a ser utilizadas na interação com o social. A mediação ajuda a entender também outro importante conceito para esta pesquisa, a saber, o conceito de internalização. É, pois, pela internalização gradativa desses instrumentos que se constrói o pensamento, o qual, segundo Vigotski, tem a
capacidade de transformar e regular as outras funções psíquicas. Os “signos” são essas
ferramentas essencialmente proporcionadas pela cultura ou pelas pessoas que se encontram no meio social onde vive o sujeito. (MOUKACHAR, 2004)
Assim é que a linguagem, como um dos mediadores fundamentais, tem destaque, não
somente no “Manuscrito”, mas também em outras obras de Vigotski, pois o autor atribui um
papel fundamental à palavra e à interação verbal.
Também a denominação desse conceito, a linguagem, foi discutida e sua tradução está sendo contestada por Prestes (2012), pois o original em Vigotski traz a palavra em russo
retch, que, segundo a autora, refere-se muito mais à fala do que à linguagem20. Essa certeza de que o autor estaria se referindo mais à fala do que à linguagem, segundo Prestes (2012),
está expressa em “suas idéias sobre o sentido da palavra que se realiza na fala viva, contextualizada.” (p.217)
Góes (2000) explicita a importância da linguagem colocada por Vigotski no
“Manuscrito”
A palavra tem o poder de regular e de conferir um caráter mediador à relação entre as pessoas. As interações verbais internalizam-se, isto é, são reconstruídas no plano individual, transformando-se em funções psicológicas e criando a base para a estrutura social da personalidade. As funções psicológicas emergem no plano das relações sociais, e o individuo se constrói a partir delas. (p. 121)
Nesse sentido e em função desse processo, Vigotski (1989) afirma que “eu sou uma relação social de mim comigo mesmo” e que “nos tornamos nós mesmos através dos outros”, o que ocorre em um processo que Vigotski denomina de processo de interiorização definido
por ele como “a reconstrução interna de uma operação externa.” (VIGOTSKI, 1989, p.63).
20
A propósito e para compreender melhor as críticas da autora às traduções de Vigotski, ver Prestes, Zoia Ribeiro. Quando não é quase a mesma coisa. Análise das Traduções de Lev Semionovitch Vigotski no Brasil. Repercussões no campo educacional. Brasília, 2012. Neste texto continuaremos trabalhando com os termos de acordo com os originais e os autores em seus estudos, anteriores a essa discussão que ainda está em andamento.
Essa reconstrução, por sua vez, “é proporcionada pelos signos externos que se encontram na cultura, nos valores, nas crenças, nos costumes, nas tradições e, principalmente, na própria
linguagem dos grupos sociais.” (MOUKACHAR, 2004, p. 45).
Por tudo isso é que incluímos, aqui, a necessidade de refletir, também, a partir dessa perspectiva, sobre os processos e os signos, em especial, a linguagem, como elementos importantes que são encontrados no espaço escolar, campo desta pesquisa, e que, além disso, é por nós concebido como importante instrumento de trabalho, no cotidiano dos psicólogos, cujo uso vai se manifestar na ação dos professores, que constitui o objeto de estudo neste trabalho.
Além disso, a análise que Vigotski faz da relação entre pensamento e linguagem traz para nós outro tema de discussão importante nesta pesquisa. Trata-se da questão do significado das palavras, que ocupa lugar central na obra de Vigotski, e queremos aqui já tratá-lo em relação ao conceito de sentido, que é um conceito, para nós, que ocupa lugar importante em nossa pesquisa. Para Vigotski (1991),
O significado de uma palavra representa um amálgama tão estreito do pensamento e da linguagem, que fica difícil dizer se se trata de um fenômeno da fala ou de um fenômeno do pensamento. Uma palavra sem significado é
um som vazio; o significado, portanto, é um critério da „palavra‟, seu
componente indispensável. (p.104)
mas o que importa, sobretudo para este trabalho e para o campo desta pesquisa, com os nossos
sujeitos professores “falantes”, em suas salas de aula, e além disso, “pensantes”, ao juntarem-
se a nós no processo de investigação a que nos propusemos, não é apenas o significado das palavras, mas, mais que isso, o que Vigotski associa a significado: o sentido atribuído às palavras.
Compreendemos que o sentido é diferente do significado que é expresso pela palavra. O sentido é atribuído por cada indivíduo, ou melhor, é constituído pelas relações inseridas no contexto do uso da palavra e o que essa palavra traz em termos das vivências afetivas do indivíduo. Entendemos que o significado da palavra é algo que é compartilhado socialmente, que, portanto, pode ser socialmente a mesma coisa e entendida igualmente; já o sentido, não é assim tão simples. Relaciona o significado da palavra, que é objetivo, a algo que é subjetivo, aos motivos afetivos e pessoais de quem usa aquela palavra, às experiências vividas por cada um, que (sobre)carregam os significados com seus sentidos pessoais.
Assim, para a análise desta pesquisa de campo, esse conceito será referido, pois importa para nós o significado e o sentido para os alunos, que pudemos observar, do que estava ali acontecendo em sala de aula, e o sentido atribuído pelos professores a suas aulas e a sua forma de atuar como docente. Mais do que isso, como a nossa indagação sobre a sua ação docente seria respondida, em termos de sentido, por esse professor.
Nesse subitem, a nossa intenção foi mostrar que alunos e professores, também no espaço da escola, se constituem enquanto sujeitos, na relação pedagógica. Portanto, o nosso interesse foi evidenciar a necessidade, então, de valorizar essa constituição na busca de uma reflexão sobre uma formação de qualidade para esse professor. Objetivamos, da mesma forma, apresentar e discutir, definindo os conceitos de subjetividade, mediação, linguagem e
sentido a partir dos textos de Vigotski, conceitos que serão importantes na discussão das
informações obtidas na pesquisa de campo deste trabalho.
Dadas essas considerações aqui realizadas sobre a constituição da subjetividade a partir do social, interessa refletir, neste momento, sobre como alguns autores têm feito suas análises acerca deste mundo social e cultural em que vivemos.