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Constituem como sujeitos dessa pesquisa os associados da Agreco, situada no município de Santa Rosa de Lima. Priorizou-se o estudo de um grupo de agricultores fabricantes de produtos orgânicos e que se envolvem com o agroturismo. Esses agricultores pertencem as seguintes comunidades deste município: Rio dos Índios, Mata Verde, Rio do Meio e Barra do Rio do Meio (Figura 4). Cada propriedade marcada na figura 4 compreende um dos entrevistados.

Figura 4 – Localização das propriedades

Fonte: Google Earth, 2012.

Para a escolha do universo da pesquisa, obteve-se a lista de associados com o escritório da Agreco e da Acolhida na Colônia e identificaram-se os agricultores que, concomitantemente, faziam parte das duas associações, como sujeitos inseridos no corpus dessa pesquisa. A partir desta lista, verificaram-se também quais eram os agricultores agroecológicos mais antigos e que ainda exerciam a atividade. Ressalta-se que, por sugestão

dos membros da banca e com a devida autorização, os sujeitos da pesquisa foram identificados com seus nomes verdadeiros, enaltecendo, desse modo, sua participação na pesquisa e valorizando seu papel na atividade agroecológica. Identificados os sujeitos da pesquisa, fez-se um diagnóstico do perfil elaborado a partir de Gil (1999) e Rauen (2002) no formato de questionário aplicado, junto aos agricultores associados à Agreco. Esse instrumento serviu para conhecer, previamente, os indivíduos entrevistados identificando as características pessoais, as ideias a respeito do tema, além de possibilitar a elaboração do roteiro de perguntas para melhor conduzir as entrevistas.

Procedeu-se, então, a uma entrevista não estruturada, com cinco entrevistados, utilizando-se o gravador modelo Sony ICD-BX112. Gil (1999, p. 117), define a entrevista como “a técnica em que o investigador se apresenta frente ao investigado e lhe formula perguntas, com o objetivo de obtenção dos dados que interessam à investigação.” As entrevistas foram realizadas na propriedade de cada sujeito, com o intuito de deixar o conferencista mais à vontade para narrar os fatos e sentimentos vivenciados naquele lugar. Isso auxiliou na descrição das relações existentes entre o sujeito, o mundo e as atividades exercidas pelos agricultores. Durante a entrevista, preencheu-se um roteiro de observação para registrar os gestos, a postura corporal e outros sinais que não ficam registrados na gravação de voz. Posteriormente, transcreveram-se as entrevistas fielmente e, para isso, muitas vezes, necessitou-se escutar diversas vezes a mesma fala gravada. Para fins de organização dos resultados, efetuaram-se recortes nas entrevistas, selecionando depoimentos e, com elas, as ideias principais dos temas abordados. Também é importante ressaltar que

ao trazermos para o interior do texto os depoimentos dos agentes da pesquisa, procuramos manter as falas originais. Por esta razão, muitas vezes elas apresentam- se entrecortadas, imprecisas, reticentes, porque sua transcrição não permite expressar toda a riqueza da comunicação não-verbal (KASSICK, 2004, p. 20).

O corpus desse estudo foi posteriormente compreendido à luz das teorias de Merleau-Ponty (1999) e por diversos estudiosos da área da Educação e da Educação Ambiental, com o intuito de interpretar a percepção dos agricultores e dos níveis perceptivos emergentes. Dentre os autores citados encontram-se: Freire (2001a; 2001b; 2001c; 2003; 2011a; 2011b); Merleau-Ponty (2004; 2009); Gonçalves (2004; 2006); Díaz (2002); Loureiro (2004a); Zakrzevski e Sato (2004); Brandão (2005); Sá (2005); Guimarães (2006); Carvalho (2004; 2008); Reigota (2010); Ruscheinsky (2003; 2004); Tamaio (2002); Sauvé (2005); Monte-Serrat (2007); Sato (1994), Zakrzevski e Sato (2004) e Loureiro (2004a; 2004b).

As teorias paulofreireanas foram diversas vezes fontes de inspiração na interpretação das narrativas, principalmente por defenderem ideias que se acolhem neste trabalho, como: a ética, a amorosidade, a leitura crítica da realidade e o diálogo. Esses pensamentos estão em diversas obras de Paulo Freire, citando-se dentre elas: “Pedagogia do Oprimido”, “Pedagogia da Autonomia”, “Pedagogia da Esperança: um reencontro com a pedagogia do oprimido”, “A ação cultural para a liberdade e outros escritos”.

Para Moraes (2012, p. 67), Paulo Freire foi “um educador comprometido com um novo projeto de sociedade, a partir de uma pedagogia que tem no diálogo, na conscientização e no exercício da liberdade suas principais bandeiras”. É por obras com as características destacadas anteriormente que esse estudioso é tão citado na Educação Ambiental.

Efetuou-se a interpretação das entrevistas transcritas a partir da adaptação da “análise textual discursiva” de Moraes (2003; 2005) e Moraes e Galiazzi (2006), em que se definiram os diferentes níveis perceptivos emergentes. Esses níveis incorporaram os principais eixos temáticos identificados nas narrativas (Quadro 1). Tal adaptação se deu valorizando de forma mais direta os textos e metatextos, conferindo mais liberdade ao processo de categorização. A estruturação desses níveis perceptíveis e a elucidação desses por meio de um quadro (Quadro 1) e da ilustração (Figura 5) devem-se ao fato de nem todo leitor estar acostumado com o delinear discursivo do método fenomenológico, na interpretação dos resultados da pesquisa.

Quadro 1 – Níveis perceptíveis e eixos temáticos

Níveis perceptíveis Eixos temáticos

Nível 1: Modo de Vida A vida antes da atividade agroecológica

Nível 2: Organização social

a) A criação da Agreco

b) Fatores que motivaram a família ou membro principal a se associar à Agreco

c) Estruturação da propriedade e da atividade a partir da Agreco

Nível 3: Educação formal e não formal

a) Construção do Conhecimento b) Formação e atividade agroecológica c) Espaços educacionais

Nível 4: Relações socioambientais

Contribuição da educação e da sociedade à

produção agroecológica e agroturística e vice-versa.

Nível 5: Valores e Conceitos a) Valores

É importante ressaltar que os níveis perceptíveis, embora mantenham suas respectivas especificidades, também apresentam conexões entre si. No nível perceptivo 3, a interpretação dos metatextos sinalizou, nos três eixos temáticos, diversos desdobramentos que corroboram os respectivos eixos, os quais acham-se dispostos na representação esquemática a seguir (Figura 5). A partir dos metatextos observou-se uma inter-relação estreita entre os diversos eixos.

Figura 5 – Representação esquemática dos Eixos Temáticos do Nível 3

Nível 3 Eixos Temáticos Eixo Temático A: Construção do Conhecimento Os conhecimentos adquiridos a partir da relação com os visitantes Eixo Temático B: Formação e atividade agroecológica Eixo Temático C: Espaços Educacionais Os conhecimentos adquiridos a partir da Agreco O conhecimento afetando a vida dos produtores e a seus familiares Formação/Qualificação/ Incorporação de aspectos ecológicos para o exercício da atividade agroecológica Influência da atividade econômica sobre a formação educativa e/ou

profissional dos filhos

Perspectiva futura dos filhos Os espaços educacionais: as escolas e as propriedades Aspectos trabalhados com as crianças Conhecimento popular e a educação escolar.

Para Moraes (2003, p. 192), “todo texto possibilita uma multiplicidade de leituras, leituras essas tanto em função das intenções dos autores, como dos referenciais teóricos dos leitores e dos campos semânticos em que se inserem”. Portanto, os níveis e os eixos temáticos organizados não são considerados estanques, podendo ser reorganizados, dependendo, obviamente, da leitura pessoal e dos determinantes históricos, culturais, formativos dos quais o leitor faz parte.

O capítulo seguinte traz os resultados da pesquisa, elucidando-os por meio das narrativas. Essas, por sua vez, serão entrelaçadas e dialogam com pensamentos de autores que também versam sobre tais questões ou compõem ideias complementares.

5 OS RESULTADOS – O RETORNO ÀS COISAS MESMAS: DOS SENTIMENTOS ÀS AÇÕES

Ao longo deste capítulo, abordam-se os dados obtidos no instrumento de diagnóstico - perfil, nas entrevistas gravadas e no roteiro de observação. Tais dados corroboram e dialogam entre si, pois muitas vezes, os pensamentos dos agricultores encontram-se concatenados ao longo das narrativas, nos diferentes momentos da pesquisa, tanto no instrumento de diagnóstico do perfil quanto nos diferentes níveis perceptíveis elencados.