4 O PROGRAMA TERRITÓRIOS DA CIDADANIA E SUA
4.2 As controvérsias da implementação do Programa Territórios da
4.2.1 Os sujeitos envolvidos no processo de implementação do Programa
No processo de implementação do Programa Territórios da Cidadania em Anajatuba destacaram-se dois grupos de sujeitos. O primeiro, formado pelas instâncias que representam a estrutura oficial do governo municipal e o segundo, por instituições da sociedade que consubstanciam as relações horizontais de poder.
No que tange ao primeiro grupo, o nível municipal foi representado pela Secretaria Municipal de Agricultura, cuja ação foi balizada nas diretrizes da Matriz de Ações Municipal. Essa instância ficou responsável por disponibilizar a equipe técnica de execução do PTC, que é composta por agrônomos, técnicos agrícolas e assistentes sociais.
Ressalta-se que a gestão estadual não integrava os sujeitos envolvidos na implementação do PTC, desconsiderando essa estratégia de desenvolvimento do seu planejamento administrativo. Tal postura encontra-se na contramão da proposta prevista na Matriz de Ação do PTC, que prevê a participação da instância estadual, cujo papel central deveria ser o acompanhamento da execução das ações do PTC, bem como disponibilizar pessoal para compor a equipe técnica municipal, e prestar assistência técnica aos municípios para potencializar o Programa nos territórios.
O segundo grupo de sujeitos, que deveria dar suporte político e operacional ao primeiro, refletiu o grau de participação da sociedade no exercício da política. Esse grupo era composto pelo Colegiado Territorial e Entidades Executoras. O Colegiado do Território do Vale do Itapecuru, no qual o município de Anajatuba possui uma comissão representativa, é oficialmente formado por 6 entidades representativas, sendo metade oriunda da sociedade civil e a outra metade do poder público (TABELA 3). A participação na instância colegiada territorial é livre, ocorrendo por meio de convite do colegiado ou solicitação da entidade interessada. É importante salientar que, de acordo com seu estatuto, o Colegiado Territorial entende como entidade pública as referentes à administração direta, indireta ou vinculada aos níveis federal, estadual e municipal de governo, bem como aquelas de caráter associativo que representem, direta ou indiretamente, essas categorias. Como sociedade civil compreende-se aquelas representativas de grupos sociais, de grupos de interesses, de grupos de vizinhança e de grupos de identidade social, étnica, geracional e de gênero.
TABELA 3: Representação da Comissão do município de Anajatuba no Colegiado do Território Vale do Itapecuru – 2008
Vaga Organização
1 Secretaria Municipal de Assistência Social
1 Secretaria Municipal de Agricultura
1 Sindicato dos Trabalhadores Rural
1 Colônia dos Pescadores
1 Cooperativa dos Produtores de Mel
1 Cooperativa Agropecuária
8 Total
Fonte: Relatório de Atividades da Comissão Representativa de Anajatuba.
O Colegiado Territorial do Vale do Itapecuru, como delimita o seu regimento, é constituído prioritariamente por representantes de entidades voltadas ao desenvolvimento rural sustentável do território, tendo como públicos especiais os agricultores familiares, pescadores artesanais, assentados e acampados da reforma agrária, movimentos comunitários e associações, cooperativas, mulheres trabalhadoras, trabalhadores rurais e quilombolas.
A população do município de Anajatuba é representada por 4 entidades da sociedade civil, que compõem a Comissão Representativa municipal, que participam da plenária, a qual se reúne em torno de duas vezes por semestre e caracteriza-se por ser aberta, de modo a permitir, permanentemente, a adesão de novos participantes.
Art. 11 - A Plenária é o órgão colegiado superior, ao qual competem todas as decisões estratégicas ligadas ao processo de desenvolvimento territorial, entre os quais estão: a) Articulações institucionais orientadas para o desenvolvimento territorial; b) Fomentar a criação, estruturar, assessorar organizações associativas da Agricultura Familiar; c) Análise e aprovação dos PTDRS – Plano Territorial de Desenvolvimento Rural Sustentável, bem como das respectivas agendas de prioridades; d) Aprovação dos eixos estratégicos que orientam os projetos específicos e o PTDRS; e) Aprovação dos critérios para seleção dos projetos específicos; f) Seleção dos Projetos Específicos a serem implementados a cada ano; g) Apreciação dos relatórios de acompanhamento e avaliação e definição sobre as providências de aperfeiçoamento que forem necessárias. § 1º - A Plenária também ficará responsável pela análise e aprovação e alteração deste Regimento Interno. § 2º - A Plenária desenvolverá as ações através de Oficinas, Seminários e Assembleias, quando apreciará os assuntos e propostas apresentadas em plenária (REGIMENTO INTERNO DO CODETERS do TERRITÓRIO VALE DO ITAPECURU, 2008, p. 3).
Cabe frisar que, cada território deveria possuir um assessor territorial contratado pelo MDA. Esse assessor atuaria como articulador, pois possui o
importante papel de viabilizar a comunicação e mobilização entre as organizações civis e institucionais que compõem o território. Ele simboliza o principal elo da gestão federal com as unidades territoriais. O desempenho das suas funções corrobora diretamente com a competência dos colegiados. Serve como orientador e auxiliar, principalmente no que se refere a questões burocráticas, e executa um papel técnico. Isso, no entanto, não aconteceu no município de Anajatuba, pois essa função foi atribuída a um técnico agrícola do quadro de funcionários da Secretaria Municipal de Agricultura, que acumulou funções e encontrou inúmeras dificuldades para mobilizar as organizações da sociedade civil e executar as atividades burocráticas.
Essas instituições consideradas como essenciais em todo o processo de implementação da política padeceram dos limites relacionados ao próprio exercício da representação, que por sua vez, reflete a ausência de um tecido associativo forte no interior da sociedade direcionado para o campo do desenvolvimento territorial. De fato, tais limites expressam a tensão que existe na própria configuração desses espaços de representação no país.
Para o MDA e SDT, os Colegiados Territoriais, constituem-se parte do arcabouço estatal. Dessa forma, permitiriam o envolvimento efetivo da sociedade organizada nas decisões do governo. Assim, segundo Sousa (2004, p. 114), enquanto espaços capazes de sintetizar saberes atinentes a determinados campos particulares, sua dinâmica deveria se pautar pela politização das propostas e pela interferência direta nas práticas do Estado, provocando mudanças qualitativas.
No entanto, na prática, isso não vem ocorrendo no município de Anajatuba. Assim,
Podem-se identificar duas faces principais desse jogo de tensões. A primeira se expressa através do distanciamento deliberado com que muitas organizações tratam as disputas para acessar esses conselhos. Nesse caso, o que se coloca em questão é a perspectiva de reforma por dentro do próprio aparelho do Estado que esses espaços sugerem. A segunda está relacionada à possibilidade de concretização da participação através desses espaços, considerando os limites do processo de formação da sociedade brasileira, onde as práticas corporativistas e clientelistas tendem a substituir a linguagem pautada no universalismo de procedimentos, que demanda a existência de normas amplas e de transparência (SOUSA, 2004, p.115).
No caso de Anajatuba, pôde-se verificar que, para alguns membros da Comissão Representativa, a defesa de interesses de suas instituições particulares
se sobrepunha, muitas vezes, até mesmo aos interesses corporativos. Em outros casos, os representantes indicados não detinham conhecimentos suficientes sobre a realidade municipal e os meandros do programa, além de frequentemente ocorrer uma intensa rotatividade dos representantes, estes sendo indicados para participar apenas de dada reunião35 e não da Comissão permanente. A esses dois modos de ação coletiva, aliava-se o relacionamento entre os representantes do governo e os demais representantes da sociedade civil organizada, uma relação claramente pautada pela desigualdade em termos do acesso às informações sobre o programa.