2 FUNDAMENTOS METODOLÓGICOS DA PESQUISA
2.1 OS SUJEITOS, O CONTEXTO EMPÍRICO E OS PROCEDIMENTOS DA
O percurso metodológico trilhado segue dentro da abordagem qualitativa (LÜDKE; ANDRÉ, 2001) na modalidade estudo de caso (GIL, 2008) e envolve diferentes sujeitos em formação, a saber: professores formadores, egressos e licenciandos de um Curso de Química Licenciatura de uma Universidade Federal do interior do Estado do Rio Grande do Sul, Brasil. É possível destacar de antemão que investigar diferentes sujeitos que compartilham a mesma área de formação é um desafio que possibilita, pelo processo de pesquisa, tecer reflexões e construir argumentos pertinentes acerca da defesa de um ensino de química qualificado, que discuta e aborde na formação do professor de química a importância da apropriação de sua linguagem, reservando espaços e viabilizando condições de sua plena interiorização e significação.
De acordo com Gil (2008), um estudo de caso contempla uma investigação densa e extenuante de um ou alguns objetos empíricos a fim de conhecê-lo(s) extensa e particuladamente. No estudo em questão, o objeto de pesquisa, sobre o qual se assenta esta dissertação, é o papel da linguagem na formação inicial de professores de química. O autor ressalta ainda que no âmbito das ciências o estudo de caso possui diferentes propósitos, entre eles:
a) explorar situações da vida real cujos limites não estão claramente definidos; b) preservar o caráter unitário do objeto estudado; c) descrever a situação do contexto em que está sendo feita determinada investigação; d) formular hipóteses ou desenvolver teorias; e e) explicar as variáveis causais de determinado fenômeno em situações muito complexas que não possibilitam a utilização de levantamentos e experimentos (GIL, 2008, p. 54).
Os dados que serão apresentados e discutidos no capítulo 3 foram produzidos por meio da análise de questionários aplicados a professores formadores responsáveis por
componentes curriculares de química e didático-pedagógicos do Curso de Química Licenciatura em questão (Apêndice 5); por meio de entrevistas semi-estruturadas com licenciandos em química (Apêndice 7); e, mediante a aplicação de questionários, também, aos egressos do referido curso até o primeiro semestre letivo do ano de 2017 (Apêndice 6), conforme descrito na sequência.
Essa metodologia diferenciada, com o intuito principal de compreender quais são as concepções de linguagem que os professores “construíram”, com as quais orientam/norteiam suas práticas pedagógicas e como os licenciandos e licenciados concebem o papel da linguagem química em meio a sua formação inicial e constituição como sujeito professor de química. Em outras palavras, analisar as visões de linguagem que orientam a formação do professor de química, tanto inicial no caso dos licenciandos, como continuada, contemplando os licenciados e os professores formadores, as quais estão implicadas diretamente no seu fazer pedagógico.
Justifico a escolha pelo curso em questão devido ao fato de contemplar em seu Projeto Pedagógico de Curso (PPC) uma orientação, nas ementas dos componentes curriculares que preveem 1 (um) crédito de prática de ensino, para o uso da fala, da escrita e da leitura como instrumentos estruturantes das práticas de ensino. Essa particularidade tangencia a discussão do papel da linguagem química na constituição do sujeito professor de química, objeto de pesquisa desta dissertação.
A fim de investigar qual a concepção de linguagem que esses sujeitos construíram e como eles compreendem o papel dessa linguagem na sua constituição como sujeito professor de química, foram realizadas entrevistas semiestruturadas com os licenciandos e os licenciados foram convidados a responder um questionário com perguntas abertas, buscando elencar elementos centrais nesse processo de apropriação que servirão como deflagradores do diálogo formativo a que se propõe este estudo.
Ao todo se estimava que a pesquisa envolveria cerca de 33 (trinta e três) sujeitos; tendo em vista o convite feito a 9 (nove) professores formadores e considerando a participação 2 (dois) licenciados de cada fase do curso, totalizando 18 (dezoito) sujeitos, uma vez que o curso dispõe de 9 (nove) fases e 2 (dois) licenciados de cada turma de egressos, acrescentando mais 6 (seis) sujeitos à pesquisa, visto que até o período da coleta dos dados (2017/01) o curso contava com 3 (três) turmas de egressos.
No entanto, devido a não adesão voluntária de 4 (quatro) professores formadores, 2 (duas) licenciadas e a participação de apenas 8 (oito) licenciandos, houve uma variação na estimativa inicial, passando-se de 33 (trinta e três) para 17 (dezessete) sujeitos de pesquisa,
distribuídos da seguinte forma: 5 (cinco) professores formadores, (4) licenciados e 8 (oito) licenciandos.
Quanto ao perfil dos sujeitos investigados, é pertinente destacar que foram analisados os questionários de: 3 (três) professoras da área do ensino de química, 1 (um) professor de química orgânica e 1 (uma) professora de físico-química. Sobre os egressos, participaram do estudo 4 (quatro) licenciadas. Por fim, quanto aos licenciandos entrevistados, são sujeitos de pesquisa: 2 (dois) licenciandos da 2ª fase do curso, 1 (um) licenciando da 4ª fase, 4 (quatro) da 8ª fase e 1 (uma) licencianda da 9ª fase.
Devido ao não aceite dos licenciandos das fases: 1ª, 3ª, 5ª, 6ª e 7ª em participar do estudo e, esgotadas as possibilidades de sorteio por meio do número de matrícula nessas fases, optei por sortear mais voluntários das demais fases do curso que manifestaram maior interesse em colaborar com a pesquisa, uma vez que o princípio que norteou esta investigação, no que contempla a participação dos sujeitos de pesquisa, foi a adesão voluntária. Justifico, portanto, o porquê da disparidade no número de sujeitos em cada fase descrita acima. Na 4ª e 9ª fases apenas 1 (um) representante de cada concordou em participar.
A análise dos dados produzidos no processo de pesquisa foi norteada pelos princípios da Análise Textual Discursiva (ATD), proposta por Moraes e Galiazzi (2007), “descrita como um processo que se inicia com uma unitarização em que os textos são separados em unidades de significado” (MORAES; GALIAZZI, 2010, p. 118). Segundo Mattos e Wenzel (2014, p. 145), essa metodologia permite “um maior contato com o texto, possibilitando a construção de algumas categorias de análise que propiciarão uma maior compreensão sobre todo o processo desenvolvido”.
O método em questão trata-se de uma análise de conteúdo que tem como base empírica o texto escrito sobre o qual reserva e deposita considerável atenção e apreço por acreditar que o discurso é imbuído de significado e revelador de modos de ser, pensar e agir do sujeito (MORAES; GALIAZZI, 2016). Ao discursar sobre algo ou alguém revelamos nossas concepções, crenças e desejos que marcam nossos textos e dão vida aos nossos escritos.
A escolha por esta metodologia de análise se deve, em especial, ao fato de oportunizar a subjetividade do pesquisador e por proporcionar uma impregnação mais comprometida com os dados à medida que o pesquisador percorre/constrói as etapas da ATD: iniciando pela unitarização dos dados em unidades de significado; passando pela categorização, que pode ser a priori, a posteriori/emergente ou reunir um híbrido destas; chegando, por fim, à análise dos dados construídos, cuja etapa exige criticidade e criatividade
do pesquisador na construção do metatexto, no diálogo com os autores e, por conseguinte, na compreensão dos resultados.
As categorias de análise reúnem textos e/ou fragmentos de textos que exprimem sentidos comuns e possibilitam construir um diálogo coletivo que se revela unívoco, muitas vezes, devido à reciprocidade dos sentidos que carregam. Contudo, eleger as categorias e/ou construí-las consiste numa tarefa intensa e desafiadora para o pesquisador, pois ele deve relacionar, ao mesmo tempo e impreterivelmente, os objetivos da pesquisa e a problemática de pano de fundo.
No presente estudo buscou-se categorias emergentes a partir da análise das respostas construídas pelos sujeitos aos questionamentos feitos sobre o papel da linguagem na formação docente em química, a fim de valorizar a diversidade de respostas e, consequentemente, dispor de categorias que melhor e com mais propriedade representem as realidades investigadas. A seguir apresento os aspectos éticos concernentes à pesquisa desenvolvida com atenção ao tratamento dos sujeitos no processo de análise dos dados produzidos.