Os principais sujeitos desta pesquisa são adolescentes em cumprimento de medida socioeducativa de Liberdade Assistida que corresponderam aos critérios preestabelecidos para participação, ou seja, aqueles que demonstrassem interesse e se identificassem com o objetivo da pesquisa, além do desejo de compartilhar suas experiências escolares.
Inicialmente contou-se com um total de 13 adolescentes que se interessaram em participar da pesquisa, porém, posteriormente, no decorrer do processo, este número reduziu- se a dez adolescentes participantes nas entrevistas, que se comprometeram estar presente nos dias e horários pré-agendados e assim fizeram.
Dos três que não participaram da entrevista, cabe destacar que um foi apreendido no decorrer do processo; outro chegou a reagendar três vezes a entrevista, mas não compareceu em nenhuma; e o terceiro compareceu, mas no momento em que lhe foi dado espaço para falar desistiu, pedindo desculpa e recusando-se a participar.
Em relação a estes três adolescentes desistentes, por meio de uma prévia conversa com os respectivos educadores de referência e da leitura das pastas, foi possível constatar que apresentavam demandas importantes sobre situações vivenciadas na escola. A desistência e o interesse, acompanhado de desinteresse momentâneo, levaram-me a ter uma percepção sobre
107 as expressões dos adolescentes de que não seria esta uma tarefa tão fácil, pois, ao participarem, estariam revivendo as situações de conflitos e exclusão escolar, e o desencadear dessas vivências poderia acarretar em uma exposição vexatória, talvez por não se orgulharem da condição em que se encontram, sendo esta, a priori, minha interpretação como pesquisadora.
O perfil escolhido para participação foi que esses adolescentes estivessem numa faixa etária mista entre 15 e 17 anos e 11 meses, de ambos os sexos, que estudassem na rede pública formal de ensino e se identificassem com a proposta da pesquisa.
Foi elaborado um quadro representativo contendo uma breve identificação, demonstrando os sujeitos participantes que se dispuseram a colaborar com a pesquisa, composto por nome fictício, idade, série e sexo, conforme a seguir exposto.
Quadro 3. Identificação
NOME IDADE SEXO ESCOLARIZAÇÃO
Miguel 17 anos Masculino 8ª série - Fundamental
Humberto 17 anos Masculino 8ª série - Fundamental
Biel 15 anos Masculino 8ª série - Fundamental
Wilken 15 anos Masculino 7ª série - Fundamental
Luiz 17 anos Masculino 7ª série - Fundamental
Will 16 anos Masculino 9º ano - Fundamental
Keverson 16 anos Masculino 1º ano - Médio
Erik 16 anos Masculino 1º ano - Médio
Gago 17 anos Masculino 1º ano - Médio
Bia 17 anos Feminino 1º ano - Médio
Fonte: Elaboração própria.
Procurou-se considerar alguns elementos trazidos pelos adolescentes durante as entrevistas que contribuíram para um breve resumo de seu histórico pessoal, institucional e escolar. Contudo, optou-se por descrevê-los resumidamente mediante algumas informações apresentadas por eles, assim como não expor mais detalhes de suas vidas a fim de manter o sigilo sobre a identidade dos envolvidos nas entrevistas.
Ressalta-se que durante a descrição e as análises serão utilizados os nomes fictícios escolhidos pelos participantes como forma de não os identificar, para que assim sejam garantidas e resguardadas suas identidades.
108 A seguir a descrição das observações e um breve resumo sobre os adolescentes participantes, que foi apresentado antes e/ou depois da entrevista, no decorrer do período em que estive no campo/espaço da pesquisa.
Adolescente 1: Miguel
Nome escolhido pelo adolescente como forma de não o identificar, reportando durante toda transcrição da sua narrativa.
Miguel apresentou, em seu histórico durante o atendimento, relatos de que se considera a ovelha negra da família. Quando perguntado por que se refere assim, respondeu que é por ter sido o único da sua família a ter cometido um ato infracional até o presente momento, e se considerar a ovelha negra da família é afirmar ser o diferente dos demais. Miguel também, no decorrer do seu processo socioeducativo, apresentava insatisfação com a escola por ter dificuldades de aprendizagem desde as séries iniciais. No entanto, não conseguiu superar a questão, chegando a relatar durante a entrevista uma situação referente a essas dificuldades.
Adolescente 2: Humberto
Utilizou seu segundo nome para não ser identificado.
Humberto chegou para cumprimento da medida socioeducativa ainda adolescente, alcançando dias após a entrevista a maioridade. Apresentando-se sempre de forma reservada e observadora, características que despertaram o interesse para convidá-lo para a entrevista e participação na pesquisa. Relatou que em um dos atendimentos grupais do Case teria sofrido
bullying quando estava nas séries iniciais, acrescentando que, após viver essa situação, passou
a andar na companhia de meninos mais velhos com o intuito de se sentir protegido por eles, o que foi um diferencial para posteriormente vir a se envolver na ilicitude.
Adolescente 3: Biel
O adolescente não fez restrição quanto ao nome, mas em respeito às normas voltadas à não identificação foi utilizada uma abreviatura do seu nome.
Biel foi um dos últimos adolescentes a ser entrevistado. O interesse pela sua história veio em decorrência da entrevista de coleta de dados (primeiro contato ao chegar para o cumprimento da medida), quando o adolescente expressou muito medo por retornar ao ambiente escolar, pois já havia sofrido muitas situações de perseguição por parte da diretora, chegando a verbalizar: “Se quando eu não estava em medida vivia sendo acusado das coisas
109 erradas na escola, imagina agora?”, complementando “Não, por favor, não quero voltar praquela escola, a senhora pode arrumar outra?”. Tanto o adolescente quanto a mãe trouxeram relatos de dificuldades com a direção escolar. Biel entrou passou a cumprir a medida sem vaga escolar. Estava fora da escola há pouco mais de um ano, porque havia sido expulso, segundo ele, por conflitos constantes com a direção escolar. Atribuiu seu envolvimento com a criminalidade por não estar estudando e por querer mostrar que poderia ser alguém na vida.
Adolescente 4: Wilken
O nome escolhido é um derivado do próprio nome do adolescente. Wilken é um adolescente que, ao entrar em contato com informações sobre sua história de vida, despertou- me o interesse em convidá-lo. Uma vez que passou a vida toda morando em diferentes regiões do país, ora com uma tia, ora com o avô materno, ora com a mãe, todos, entre idas e vindas, em sete regiões do Sul, Sudeste, Norte e Nordeste do país. Expressa-se de forma clara, sem utilizar muitas gírias, sempre educado e respeitoso. Em suas falas sempre trouxe sonhos e objetivos para seu crescimento pessoal, almeja ser um homem “bem-sucedido” e acredita em poder algum dia ganhar na mega-sena.
Wilken passou a cumprir a medida sem vaga escolar, e assim permaneceu até o final. Relatou por várias vezes atividades e atendimento realizados pela equipe técnica, que não aceitou matriculá-lo na escola, ora por falta de documentação pessoal, ora documentação escolar. Mesmo com o encaminhamento do Case a vaga foi negada. A cada ida e vinda em busca da vaga deparava-se com atitudes negativas de hostilidade em relação ao fato de se encontrar cumprindo a medida. Foram relatos tanto dele quanto da mãe. Quando estava no final do processo, resolveu ir morar com o avô, uma nova mudança. Quando procurou a mesma escola para pegar a documentação já disponibilizada para a possível matrícula, deparou-se com uma agilidade em transferi-lo, certa gentileza por parte da secretaria escolar, inclusive a disposição da escola em verificar a vaga na cidade que fosse mais próxima da casa do avô para realizar a transferência. Wilken disse: “a escola não me quer lá, deu pra perceber, sabe senhora. Por que já queriam arrumar logo uma vaga pra mim lá onde eu vou morar com meu vô? Simplesmente porque não querem eu nessa escola”.
Adolescente 5: Luiz
O nome escolhido é parte do composto do adolescente, que a princípio escolheu apelidos, mas depois pediu que o chamasse de Luiz mesmo. O adolescente estava pela segunda
110 vez cumprindo medida de Liberdade Assistida. Ficou internado na Fundação Casa durante oito meses. Luiz deparou-se desde o início da medida com a situação de negação da vaga escolar por parte da última escola que estudou. Contou que estudou nessa escola desde pequeno, e que deu um pouco de trabalho, por isso acha que também não querem que estude lá. O interesse pelo relato de Luiz veio em razão de suas colocações nos grupos temático-reflexivos de que participei, sempre referindo-se à vontade de retornar para a escola, ao arrependimento pela sua defasagem idade-série e por ver os demais adolescentes conseguindo vaga e ele não. Mesmo com os encaminhamentos e solicitações da Diretoria Regional de Ensino (DRE) local não havia sido efetivada matrícula, ficando para o próximo ano letivo a continuidade de seus estudos. Luiz verbalizou algumas vezes: “vou chegar lá quebrando tudo”, “tenho vontade de matar aquela diretora”.
Adolescente 6: Will
O nome escolhido é uma abreviação do nome do adolescente e também seu apelido. Will, desde a apresentação da proposta feita em um grupo no qual estava participando, demonstrou interesse, porém pediu sigilo, não queria se expor por medo e vergonha das situações que passava na escola. Will, ao final dos grupos, me procurou para relatar uma situação vivida com a diretora, quando foi acusado de um furto na sala de aula sem estar presente na hora do ocorrido. Chegou a me perguntar o que fazer e como agir. Disse que estava tentando se segurar para não agredir a diretora. Mostrava-se nos atendimentos sempre muito observador e tímido. Conversamos bastante, e ele se dispôs a ser entrevistado e relatar algumas das suas experiências escolares.
Adolescente 7: Keverson
O adolescente tem um nome incomum e preferiu optar pelo seu primeiro nome. Durante o período de pesquisa observei que ele oscilava em seus relatos com relação à escola, chegando a ser expulso, e com a intervenção da educadora de referência do Case foi matriculado em outra escola e em outro período escolar. Keverson passou a apresentar bons relatos da nova escola, mas posteriormente relatou diversas situações com a diretora que, desde sua entrada na escola, já o tratou de forma diferente, dizendo-lhe: “quem mandava lá era ela, e que se aprontasse até polícia costumava chamar para dar um jeito nos alunos”. Esta fala foi reproduzida pelo adolescente quando conversava com a educadora. Ele sempre se apresentou interessado a estudar, porém justificava suas dificuldades em gostar da escola por enfrentar
111 situações de conflitos com professores e diretores, no que diz respeito às duas últimas escolas que frequentou, o que chamou a atenção para ser convidado a participar da entrevista. Sempre esteve cumprindo a medida com um comportamento respeitoso e educado com a equipe de trabalhadores e demais colegas de grupo de atendimento.
Adolescente 8: Erik
Este nome é parte do nome do adolescente, preferiu ser identificado. Erik teve a medida socioeducativa prorrogada pelo juiz por não cumprir as metas estabelecidas no seu Plano Individual de Atendimento (PIA), sendo uma delas a questão escolar. Erik tinha uma longa jornada escolar permeada de conflitos com um diretor. Era aluno do período matutino, e durante o tempo que esteve neste horário relatou várias situações, chegando até a ser agredido por policiais dentro da sala do diretor. Após a mudança de horário na escola, apresentou relatos positivos quanto à sua participação e interação escolar. Erik sofre com o abandono após a separação do seu pai. Em uma avaliação sobre o processo socioeducativo, Erik chegou a se posicionar dizendo: “consegui me sentir como gente aqui nesse espaço”, quando questionado sobre a fala, disse que “se sentia diferente, como se fosse um bicho, porque era assim que olhavam para ele fora do espaço da medida”. Tais expressões do adolescente despertaram interesse para sua participação na pesquisa. Erick sempre se mostrava bravo, com expressões faciais que pareciam demonstrar estar sempre com raiva, dono de uma voz grave e com um dialeto comum aos adolescentes envolvidos com o meio ilícito.
Adolescente 9: Gago
Gago é o apelido do adolescente que preferiu assim ser chamado, uma vez que se reconhece com dificuldade em se expressar por ter um pouco de gagueira. Durante os grupos, sempre se apresentou observador, pouco falava, apenas se expressava com gestos de sim ou não, mas sempre muito cuidadoso ao se reportar aos técnicos/equipe. Gago estava cumprindo medida pela terceira vez. Havia estado internado na Fundação Casa por duas vezes, dono de um repertório cheio de envolvimento no mundo da ilicitude. Ao ser convidado, aceitou logo, sem restrições. Gago estava perto de alcançar a maioridade. Foi entrevistado quando ainda contava 17 anos. O fator de múltiplas reincidências contribuiu para o convite, por se tratar de um adolescente que vivenciou diferentes momentos e experiências entre idas e vindas do meio aberto e fechado.
112 Adolescente 10: Bia
O nome Bia foi escolhido para ser chamada ao longo da descrição da sua entrevista. A abreviatura do seu nome é também o apelido utilizado por ela entre os familiares e amigos. Única menina participante desta pesquisa. Bia apresentava-se sempre muito bem arrumada e maquiada, posicionava-se pouco no grupo por se sentir só, a única menina, mas quando apareciam questões relacionadas ao universo feminino apontadas pelos meninos do grupo, Bia tomava a frente e desconstruía as falas ou enfrentava de forma segura e expressiva as falas dos adolescentes. Bia estava em defasagem idade-série e também prestes a completar a maioridade. Disse algumas vezes ter se envolvido na criminalidade por que queria status e se manter financeiramente. Chamou a atenção por alguns relatos sobre a escola, ao expressar: “estudar pra que senhora? ”. Entre uma fala e outra mostrava querer mudar, mas dizia que com aquela escola em que estudava não dava. Não gostava da escola nem do período em que estudava, pela manhã. Evadiu durante o cumprimento da medida socioeducativa, mas logo foi encaminhada para outra escola para cursar o supletivo no período noturno, desejo demonstrado durante todo o período que esteve em medida.
Este recorte sobre alguns relatos antecedentes às entrevistas e a caracterização de situações que contribuíram para o convite de participação se fizeram importantes a fim de contribuir com a aproximação entre sujeito, objeto e propósitos na realização da pesquisa.