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2. DESCREVENDO O CONTEXTO DA PRÁTICA DA DANÇA

2.5 Os tempos no Cefar: a formação e o cotidiano

Atualmente, o Cefar oferece cursos básicos (chamados também de cursos livres) em teatro, música e dança. E cursos profissionalizantes (ou técnico) em teatro e dança. No quadro abaixo apresento as modalidades de cada curso e a duração de cada um desses. Na

escola de dança são oferecidos dois cursos, o básico, com duração de seis anos e o curso profissionalizante (técnico) com três anos.

Fonte: Elaborado pela autora (2010) com base nos dados do site da Fundação Clóvis Salgado

Analisando o quadro acima, percebe-se que, dentre as modalidades de formação, a dança possui a maior carga horária total em comparação aos outros cursos. São nove anos para completar a formação em dança; a música que possui um total de quatro anos; e o teatro seis anos (três para o básico e três para o técnico). Embora, pareça um tempo muito longo (9 anos), para os alunos do curso isso não parece ser algo penoso, como expresso no trecho de campo a seguir:

Conversando com o Ricardo, ele me contou que estuda no CEFAR desde o pré1, ou seja, este é o 4 ano dele na escola. Como ele me disse que tem vontade de continuar o curso até o profissionalizante, ainda falta o básico 3 e o básico 4; o profissionalizante 1; o prof.2 e o prof. 3. Ainda faltam cinco anos. Comentei com ele que era muito tempo e ele me respondeu “para quem gosta passa rápido”. (Nota de campo, 29 de Março 2010)

Com base no depoimento desse aluno, podemos entender que talvez a experiência da dança no Cefar, não significa apenas uma perspectiva futura, mas a participação na prática social, ou seja, experiência importante do presente. Além disso, como observado em outro momento do trabalho de campo, esse percurso para completar o curso até o nível

profissionalizante parece ser entendido pelas alunas como algo natural. No sentido de que quem está fazendo o curso básico irá continuar até o terminar o curso profissionalizante:

As alunas do básico 1 estavam em fila, esperando o início do ensaio. Enquanto isso, duas meninas estavam conversando. Como eu estava assentada no banco de madeira perto dessa fila ouvi a conversa: “agente tem 12 anos, eu vou ficar até 20 anos”; e a outra comentou “eu tenho dez, vou ficar até 18...” (Nota de campo,

12 Abril 2010)

O curso básico de dança no CEFAR não se restringe à técnica de dança clássica e dança moderna. Inclui disciplinas de sensibilização musical; percussão rítmica; dança popular; dança criativa e improvisação; técnica de pontas; variações de repertório; anatomia aplicada à dança. Ao longo deste, as horas de aulas e atividades na escola são progressivas, aumentando a cada ano. Nos dois primeiros anos, os alunos têm aulas 2 vezes por semana. Já no terceiro ano (básico 1), eles têm aula 3 vezes por semana de clássico e uma vez por semana de sensibilização musical. O básico 2 tem aula todos os dias (5 vezes por semana), sendo 8 aulas nesse período. O básico 3 e 4 também estão na escola todos os dias (de segunda e sexta ) com 10 aulas ao longo da semana (ANEXO II). Esse aumento da carga horária, das aulas e atividades na escola, nos dá, indícios sobre o investimento progressivo que a dança demanda, ou seja, para a constituição do corpo do bailarino e da habilidade que é forjada na prática social.

Cotidianamente, os tempos se apresentam da seguinte forma: nos dois primeiros anos do curso básico de dança – Preliminar 1 e Preliminar 2 - os alunos têm aulas de clássico duas vezes por semana. No início do ano de 2010, até o meio do mês de Março, eles tinham uma hora e meia de aula por dia (90 minutos de duração). Contudo, houve uma modificação dos horários, conforme o aviso da professora:

Início da aula, a professora Vanessa fez a chamada, alongamento e durante este momento ela deu o recado que a partir da próxima semana a aula delas iniciará 30 minutos antes (16:00), porque elas terão uma aula de alongamento de 16:00 às 17:00 junto com a turma do pré 1, e de 17:00 às 18:00 aula normal de clássico.(Aula Preliminar 2. Nota de campo, 09 de Março, 2010)

De acordo com a Aparecida, pianista do preliminar 1, a escola fez essa modificação baseada nas sugestões de avaliadores (professores, coreógrafos) do Rio de

Janeiro que estiveram na escola na primeira semana de Março77. Dessa forma, a partir de então o pré. 1 e o pré. 2 passaram a ter duas horas de aula em cada dia, sendo uma hora de

aula de ‗Técnica de Dança Clássica‘ e uma hora de aula de alongamento. Totalizando quatro

horas por semana na escola. Nos 60 minutos de aula de clássico, a organização da aula é a mesma para as duas turmas. Início: seqüências na barra (entre 40 e 45 minutos); exercício no centro (10 a 15 minutos) e as diagonais (geralmente 05 minutos), conforme a descrição geral de uma aula:

Elas iniciam a aula na barra, a professora faz uma breve explicação verbal com os nomes dos movimentos e as meninas fazem sozinhas. Enquanto elas fazem a professora passa corrigindo posturas, posições de pés e braços. Quando a professora diz “Para o centro, já estão”, as meninas fazem uma corridinha com as mãos na cintura para suas posições (em 3 linhas). No centro, fazem exercícios de posição de braços e cabeça, e os saltos. Terminam a aula com os exercícios na diagonal. (Aula de Clássico, Básico1)

A descrição acima revelam a organização das aulas de clássico no Centro de Formação Artística. No entanto, essa rotina não é uma particularidade apenas do CEFAR, mas

uma característica das aulas de balé. De acordo com Gonçalves (2007, p.94) essa ―divisão

didática entre barra, centro e diagonal, bem como os exercícios realizados em cada um desses

momentos, demarcam uma rotina baseada na tradição de séculos de prática‖.

A aula com as duas turmas juntas (pré. 1 e pré. 2), estava descrita no quadro de horários da escola como ―aula de chão‖. Durante essa uma hora de aula, as meninas faziam exercícios para treinamento de flexibilidade (borboletinhas78, aberturas...) e movimentos para fortalecimento das pernas e pés. A partir do mês de Maio, esse horário de aula das duas turmas passou a ser usado como tempo de ensaio para as apresentações. Primeiro para os ensaios da coreografia do Don Quixote (que foi apresentado em Outubro) e depois para ensaio do Pipiripau (que foi apresentado em Dezembro).

Com essa aula (de alongamento ou tempo de ensaio), passou a existir um novo tempo para a turma do preliminar 1: um intervalo para lanche. Entre o final da aula de clássico e o início dessa, as alunas eram liberadas para ficar em frente à sala lanchando, um tempo de aproximadamente 10 minutos. Esse período também servia para esperar os alunos do preliminar 2 que estavam chegando. As alunas do pré. 2 que já haviam chegado e as do

77 Período no qual eu ainda não havia iniciado minha pesquisa de campo, conforme pedido da chefe do

departamento de dança.

78 As meninas ficam assentadas no chão com as solas dos pés juntas, forçam os joelhos para baixo e os

pré. 1 que já haviam terminado de lanchar tinham esse tempo livre, enquanto ficavam esperando o início da aula. Assim, essas alunas ficaram brincando, correndo ou conversando na sala de dança.

Ainda com relação aos tempos, por ser uma escola, tem horários para o início das aulas e atividades e estes devem ser respeitados. Apesar dessa questão não ter se mostrado ao longo da pesquisa como algo completamente rígido, no qual as professoras ficariam controlando os minutos de chegada dos alunos, no início do trabalho de campo, houve situações nas quais eles são alertados para atenção com os horários:

Ricardo estava esperando o início da próxima aula (de dança popular) e eu perguntei porque ele não estava fazendo a aula com a turma dele nesse horário. Ele me explicou que hoje ele chegou atrasado 45 minutos e por isso não pôde fazer a aula. A tolerância é de 15 minutos, “se você atrasar até 15 minutos você pode entrar na aula, mais que isso não...”. (Nota de campo, 29 de Março 2010) Raquel (a chefe do departamento de dança) estava dando a aula de alongamento para o preliminar 1 e 2. Quinze minutos depois do horário de início da aula três alunos do pré. 2 chegaram. Então ela chamou atenção dizendo: “Isso são horas?” (Nota de campo, 30 de Março 2010)

Assim, dentre outras aprendizagens e características fundamentais para a constituição de um bailarino, a pontualidade se mostra como algo importante. Enfim, esses tempos revelam um pouco sobre a dinâmica da escola, na participação na prática, nas suas regularidades.

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