• Nenhum resultado encontrado

Os tipos de discurso

No documento SÃO PAULO (páginas 48-55)

2 O PROCESSO DE PRODUÇÃO TEXTUAL:

2.4 AS CAPACIDADES DISCURSIVAS: A INFRAESTRUTURA GERAL

2.4.1 Os tipos de discurso

Para Bronckart (2007), no arcabouço teórico do interacionismo sociodiscursivo as atividades de linguagem funcionam dentro das coletividades dos seres humanos e se realizam de acordo com as formações sociodiscursivas pertencentes a um agente-produtor. Assim, um autor, dentro de um quadro sociodiscursivo, interage verbalmente efetuando uma ação de linguagem. Nesse sentido, os textos são considerados como formas comunicativas que constituem o produto de uma ação de linguagem. Além disso, eles são produzidos em gêneros de acordo com os propósitos comunicativos e dentro de uma formação sociodiscursiva.

Os tipos de discurso são considerados como formas linguísticas que podem ser identificadas nos textos, além de desvelarem os mundos discursivos. Esses tipos de discurso podem ser articulados entre si por meio dos mecanismos de textualização e dos mecanismos enunciativos, responsáveis pela coerência sequencial e configuracional do texto.

A natureza semiótica das atividades de linguagem implica na criação de mundos virtuais que funcionam como planos da enunciação acionados pelo agente na interação linguístico-discursiva. Para Bronckart (2007, p. 151):

Esses mundos são sistemas de coordenadas formais que, de um lado, são radicalmente “outros” em relação aos sistemas de coordenadas dos mundos representados em que se desenvolvem as ações de agentes humanos, mas que, de outro, devem mostrar o tipo de relação que mantêm com esses mundos da atividade humana.

Para o autor, os mundos representados pelos agentes são classificados como mundo ordinário e os mundos que são criados pela atividade de linguagem como mundos discursivos. Nesse sentido, os mundos discursivos são construídos, primeiramente, por meio de elementos responsáveis pela organização do conteúdo temático dos textos e por elementos do mundo ordinário no qual é desenvolvida uma ação de linguagem. Por outro lado, os mundos discursivos se constroem por meio de operações referentes às variadas instâncias de agentividade, que se assumem no texto, situadas num espaço e num tempo, como as personagens, instituições, etc. Além disso, os mundos discursivos mobilizam os elementos físicos de uma ação de linguagem, como o agente-produtor, o interlocutor, o espaço e o tempo da produção textual.

Essas operações de construção dos mundos discursivos levam à distinção de dois mundos: um da ordem do narrar e outro da ordem do expor.

No primeiro, o mundo discursivo assenta-se num outro lugar, mas com características semelhantes ao mundo ordinário, ou seja, é um mundo capaz de ser analisado e interpretado pelas pessoas que lerão/ouvirão o texto.

Conforme Bronckart, mesmo sendo parecidos, os mundos da ordem do narrar podem apresentar diferenças em ralação às normas do mundo ordinário.

Assim, pode ser que em uma fábula os animais possam falar e uma pessoa possa viver dois mil anos. Por outro lado, numa notícia, pode ser que as características ou atitudes dos personagens sejam mais próximas ao que de fato acontece num mundo real (ordinário).

Por isso, o referido autor estabelece uma diferença entre um narrar realista e um narrar ficcional. No primeiro, o conteúdo veiculado é possível de ser avaliado e interpretado conforme princípios validados no mundo ordinário.

No segundo, a avaliação dos conteúdos pode se dar apenas de forma parcial em relação ao mundo ordinário.

Diferentemente, na ordem do expor, o conteúdo temático imbuído nos mundos discursivos é avaliado e interpretado de acordo com os princípios do mundo ordinário. Assim, mesmo quando houver ficção na ordem do expor, será esta submetida a uma avaliação dos critérios que regem a criação do mundo ordinário. Por isso, quando isso acontecer, alguns desses conteúdos poderão ser taxados como falsos, desconexos, caóticos ou hipotéticos.

As ações de linguagem na ordem do expor podem apresentar, por um lado, relações materiais que explicitam as instâncias responsáveis pela agentividade do texto. Melhor dizendo, é possível que haja segmentos linguísticos que indiquem a presença de quem enuncia no texto, os interlocutores visados, o tempo e o espaço. Por outro lado, essa relação de agentividade com o texto pode ser implícita, ou seja, os agentes demonstram uma certa independência em relação à construção de uma ação de linguagem.

Pode-se dizer, assim, que no primeiro caso os textos implicam os parâmetros da ação de linguagem por meio de elementos dêiticos que são associados ao conteúdo temático do texto. Com isso, as condições de produção constituir-se-ão de elementos fundamentais para que os textos sejam analisados e interpretados de forma completa. Já no segundo caso, para a interpretação dos textos não é necessário que se tenha acesso às condições de produção, já que os mesmos demonstram uma autonomia em relação aos parâmetros da ação de linguagem.

Essas considerações acerca dos mundos discursivos levam à distinção entre a ordem do narrar e a ordem do expor, de um lado e à oposição entre implicação e autonomia, de outro. Segundo Bronckart, essas distinções possibilitam a definição de quatro mundos discursivos: a) mundo do expor implicado; b) mundo do expor autônomo; c) mundo do narrar implicado; d) mundo do narrar autônomo. Esses mundos são, portanto, identificáveis por meio de formas linguísticas responsáveis por sua semiotização.

Tais mundos passam a ser representados em tipos de discurso de maneira linguística e psicológica. Na primeira, o tipo de discurso semiotiza-se por meio de elementos morfossintáticos e semânticos de uma língua natural.

Na segunda, o tipo de discurso apresenta-se apenas psicologicamente, ou seja, de forma abstrata sem o constitutivo semântico acionado por meio de

recursos morfossintáticos. Os tipos psicológicos correspondentes aos mundos discursivos podem ser representados da seguinte forma:

COORDENADAS GERAIS DOS MUNDOS

Conjunção Disjunção

Expor Narrar

Implicação Discurso interativo Relato interativo Autonomia Discurso teórico Narração Quadro2: As coordenadas dos mundos discursivos

No próximo tópico faremos algumas considerações sobre o primeiro desses tipos de discurso, o discurso interativo.

2.4.1.1 O discurso interativo

O discurso interativo possibilita a criação de um mundo discursivo que é conjunto ao mundo ordinário da interação verbal. Ele configura um expor que tem como característica a implicação de representações físicas da ação linguagem. Por isso, nele podem-se identificar elementos textuais relacionados ao produtor, interlocutor, espaço e ao momento da produção textual como: eu, você, sua, me, aqui nesta sala, nossa casa, esta escola, hoje, agora, etc.

O discurso interativo caracteriza-se pela presença incessante de elementos dêiticos, implicando com isso que, para sua total interpretação, é necessário que se conheçam os princípios organizadores da ação de linguagem. Melhor dizendo, quanto mais se tem o conhecimento do contexto gerador de um discurso interativo, melhor será a sua interpretação.

Segundo Bronckart (2007, p. 168) “o discurso interativo caracteriza-se pela presença de unidades que remetem à própria interação verbal, quer seja real, quer seja encenada, e ao caráter conjunto implicado do mundo discursivo criado”. Assim, quando é dialogado, esse tipo de discurso apresenta como característica muitas frases declarativas nos turnos de fala. Além disso, no discurso interativo encontram-se elementos linguísticos que se referem ao autor/receptor, ao tempo e ao espaço da ação de linguagem. Com exemplo disso podemos citar: isso, aí, aqui, lá, agora, daqui a pouco.

Esse tipo de discurso também traz em sua configuração nomes próprios, verbos, adjetivos e pronomes na primeira e segunda pessoa que se referem aos participantes da interação verbal. Portanto, o discurso interativo, em sua materialidade linguística, é composto por uma grande presença de verbos e consequentemente por uma baixa densidade sintagmática.

2.4.1.2 O discurso teórico

No discurso teórico, conforme Bronckart (2007), o conteúdo temático organiza-se em um mundo discursivo total ou parcialmente simultâneo ao mundo de quem produz o texto. Nesse mundo, que se configura conjuntamente ao mundo dos agentes, os conteúdos são mobilizados por meio de um expor caracterizado por uma autonomia total em relação aos elementos físicos da ação de linguagem que produz o texto.

Nesse sentido, os elementos linguísticos, no discurso teórico, não fazem referência ao produtor do texto e as instâncias de agentividade que podem aparecer são independentes ou indiferentes desse agente-produtor. Além disso, nesse tipo de discurso não aparecem unidades linguísticas que remetem ao espaço e ao tempo da interação verbal. Sendo assim, para se interpretar um segmento de discurso teórico não é necessário que se conheçam os princípios da ação de linguagem produtora do texto.

Por em princípio se apresentar de forma monologada e escrita, o discurso teórico tende a apresentar a ausência de frases não declarativas, além de ter como tempos verbais principais o presente e o futuro do pretérito. É sua característica também a não presença de elementos lexicais que se relacionam diretamente ao autor/receptor e ao espaço/tempo da interação verbal.

Nesse tipo de discurso, não é comum a presença de nomes próprios, adjetivos e pronomes de primeira e segunda pessoa do singular e também de verbos na primeira e segunda pessoa do singular. No entanto, é possível que no discurso teórico sejam encontrados elementos na segunda pessoa do plural que se relacionam, de forma geral, ao contexto enunciativo, mas que não se exprimem diretamente com os interactantes da produção textual. Um exemplo

disso são construções como: Vivemos numa sociedade democrática; Devemos escolher bem nossos representantes.

Além disso, o discurso teórico apresenta como característica a presença de organizadores lógico-argumentativos como: mas, por outro lado, entretanto, etc. Uma de suas marcas também é a presença de modalizações lógicas e do verbo auxiliar poder com valor de modalizador. Assim, isso pode ser identificável em expressões como: De maneira geral, todos querem a mudança;

Aparentemente a atitude dele não foi correta; Com essa atitude ele poderia resolver o problema; Nós podemos resolver a questão agora.

Outra característica marcante desse tipo de discurso é o uso de frases passivas, elementos com função de referência intratextual/intertextual.

Também é caracterizado por uma alta quantidade de anáforas pronominais, nominais e referenciação dêitica intratextual. Isso pode ser exemplificado em casos como: Esses dois exemplos mostram que...; Este procedimento é usado em outros países; A bebida pode causar graves prejuízos. Em suma, o discurso teórico apresenta uma densidade verbal muito baixa e uma elevada presença de sintagmas.

2.4.1.3 O relato interativo

O tipo de discurso relato interativo caracteriza-se pela criação de um mundo discursivo disjunto do mundo pertencente ao produtor e ao interlocutor.

Por isso, apesar de ser criado, nele pode-se fazer alusão espaço-temporal ao mundo ordinário dos agentes. Nesse mundo, que é disjunto, um narrar que apresenta personagens e acontecimentos é desenvolvido, caracterizando-se pela presença de elementos físicos de uma ação de linguagem. Entre tais elementos podemos citar aqueles de caráter dêitico, que remetem ao produtor ou ao contexto físico da interação.

O relato interativo é um tipo de discurso realizado em princípio de forma monologada, sendo desenvolvido em uma interação real ou fictícia. Por isso, ele pode acontecer em um conto, romance ou peça de teatro, caracterizando-se pela ausência de fracaracterizando-ses declarativas e pela precaracterizando-sença de tempos verbais como o pretérito perfeito, o imperfeito, o futuro simples e futuro do pretérito.

Alguns desses tempos verbais têm a função de marcar a isocronia entre os

relatos e acontecimentos da diegese e seus contrastes aspectuais. Outros tempos verbais marcam a projeção ou retroação, ou seja, a heterocronia entre o desenvolvimento da narrativa e o desenvolvimento da diegese e seus contrastes aspectuais.

O relato interativo é configurado ainda pelo uso de organizadores temporais como advérbios, sintagmas coordenativos, subordinativos e preposicionais, que auxiliam no desenvolvimento de um narrar produzido a partir de um espaço e de um tempo. É comum que nesse tipo de discurso apareçam adjetivos e pronomes na primeira e segunda pessoa (singular e plural) que expressam uma ligação com os participantes da ação de linguagem.

Uma de suas marcas é também a grande presença de anáforas pronominais que têm a função de assegurar uma retomada fiel do sintagma antecedente. Portanto, no relato interativo a densidade verbal é alta e a densidade sintagmática apresenta-se de maneira mais baixa.

2.4.1.4 A narração

Na narração há um mundo discursivo totalmente disjunto do mundo comum ao autor e ao receptor do texto, ou seja, nela cria-se um mundo à parte em que os acontecimentos, fatos e ações se desenvolvem. Nesse mundo discursivo os elementos que envolvem a ação de linguagem podem condizer espaço-temporalmente com o mundo ordinário dos agentes. Muitas vezes a situacionalidade da narração é independente de elementos explícitos de ordem espaço-temporal que indiquem sua origem. Por isso, quando o princípio espaço-temporal não tem marcação explícita, a situacionalidade do mundo narrativo pode ser identificada inferivelmente por meio de itens lexicais que se referem a datas ou lugares. Em outros casos pode ser que a narração configure-se por uma não-situacionalidade e isso geralmente é marcado por uma origem espaço-temporal que indetermina o mundo discursivo.

Na narração, independentemente do estado de explicitação de elementos que originem sua situação, desenvolve-se um mundo discursivo, envolvendo personagens e acontecimentos de forma autônoma em relação ao contexto físico que lhe principia. É por isso que nela os itens linguísticos não se voltam diretamente a quem produz o texto, ou seja, em um segmento de

narração de um conto dificilmente aparecerão remissões ao escritor da história.

Além disso, é possível que os personagens pertencentes ao fato narrado sejam identificados sem que se considere o autor do texto.

Esse tipo de discurso, que geralmente é escrito, tem como uma de suas características ser monologado e portar-se em frases declarativas. Seus tempos verbais dominantes são o pretérito perfeito e o imperfeito, responsáveis pela marcação da isocronia estabelecida entre o desenvolvimento da narrativa e da diegese. Além disso, esses tempos verbais têm a função de marcar os contrastes aspectuais. Outros tempos verbais que também podem se fazer presentes na narração são o pretérito mais-que-perfeito, com função de marcar a relação retroativa que se estabelece entre o desenvolvimento da narrativa e da diegese e o futuro do pretérito, com função de assinalar a projeção entre o desenvolvimento da narrativa e da diegese.

A narração, cujo desenvolvimento inicia-se num espaço e num tempo, é também caracterizada por apresentar organizadores temporais como advérbios, sintagmas subordinativos, preposicionais, coordenativos, etc. Além do mais, nela não aparecem pronomes e adjetivos de primeira e segunda pessoa (singular e plural) que façam referência direta ao autor e seus leitores.

O uso de anáforas pronominais e nominais também é muito frequente nesse tipo de discurso.

Portanto, é a narração um tipo de discurso que comporta uma densidade verbal considerada média em relação ao discurso interativo e ao teórico. Além disso, sua densidade sintagmática também é considerada média em relação aos outros tipos de discurso.

Depois de termos visto sobre os tipos de discurso, passaremos a outra forma de planificação, as sequências textuais.

No documento SÃO PAULO (páginas 48-55)