Antes de me estender sobre os inconvenientes que me parecem necessariamente conectados ao novo intento de desvalorizar a moeda de cobre, parece-me importante explicar os vários géneros de maravedis usados em Castela ao longo dos séculos, assim como os seus valores. Trata-se de uma questão convoluta e complexa, mas necessária, se mediante o nosso esforço há de ver a luz uma verdade até agora enterrada em densa treva – empresa da qual não desesperamos.
Em primeiro lugar vieram os maravedis de ouro, em frequente uso no tempo dos godos. Como foi dito, os imperadores romanos mais tardios cunharam moedas de ouro menores que as antigas: de uma onça faziam seis, de um marco faziam 48, pouco maiores que os nossos castellanos. Chamaram soldos37 a estas moedas de ouro, e valia 12 denários cada uma. Se o denário romano se estima em 40 quadrantes (ou maravedis), o valor do soldo será de 480 maravedis, que é o mesmo do nosso castellano. Por isto, os soldos de época posterior, embora feitos de prata e depois de cobre na sua maior parte, sempre retiveram o valor proporcional de doze denários – já estes também feitos não de prata, mas de cobre. Também em França e em Aragão, onde o nome “soldo” permanece, cada um vale doze dineros.38
Vigorava em Espanha o Império Romano – e com ele naturalmente a moeda, as leis e os costumes romanos – quando a invadiram à espada os godos. Apesar da mudança de poder, não apenas os vencedores transmitiram os seus costumes aos vencidos, mas também os vencidos aos vencedores. Inicialmente, os godos usaram a moeda romana. Em seguida, estabelecido o novo império, conceberam e cunharam uma nova moeda, à qual chamaram maravedi.39 Não é
37 No original em latim: solidus.
38 Ou seja, denários.
39 Apesar do que neste parágrafo afirma o autor – que na versão castelhana dá como fonte não só o Forum Iudicum (Fuero Juzgo), mas o Codex Euricianus (Leyes Góticas), dois corpos legais visigóticos – o termo “maravedi” só constaria de traduções bem posteriores aos originais latinos
necessário que nos detenhamos no exame desta palavra, mas no facto de que cada um daqueles maravedis valia dez dineros e 400 quadrantes, o mesmo valor da nossa moeda de ouro castelhana atual: 400 quadrantes (isto é, 400 maravedis atuais). Por isto, manteve-se desde o início que o maravedi, embora feito de prata e em seguida de cobre, sempre vale dez dineros (Na nossa lei, o maravedi vale duas blancas, seis coronados, dez dineros e sessenta meajas. Pelo seu valor ínfimo, estas moedas quase desapareceram; quando vigoravam, porém, assim se relacionavam com o maravedi). Entre o soldo romano e o maravedi de ouro dos godos, a discrepância era mínima. Assim, no lugar dos soldos que a lei romana prescrevia para as multas, era de costume no Forum Iudicum (do qual provinha o direito naquele império) indicar o mesmo número de maravedis de ouro. Hoje, em Espanha, desenterram-se muitas moedas góticas de ouro impuro, que, derretidas, mostram ter dele apenas a metade (são os chamados semisses do maravedi gótico) ou mesmo um terço (os tremisses, de cujo valor trataremos posteriormente).
Vieram tempos muito turbulentos, e a moeda também foi afetada pela confusão. Numa Espanha domada pelas armas dos mouros, surgiu nova progénie de reis, para a salvação de uma gente oprimida por males com que o Céu a puniu. Não trataremos da moeda dos mouros. No governo dos reis de Leão e Castela, surgiram três maravedis. Os de ouro (também chamados bons), os velhos e os correntes (ou seja, usuais).
Tratemos primeiramente dos usuais e descrevamos o seu valor e qualidade, pois o entendimento dos outros dois depende da explicação destes. O valor dos usuais não foi único, mas variado, e alternou-se com o tempo. Esta variação é certamente difícil de definir. Não há como tecer uma conjectura senão a partir do próprio valor do marco de prata. Para compararmos aqueles maravedis aos nossos, é necessário fazê-lo segundo a mesma proporção em que o valor do
dos documentos. Nestes, lê-se solidus (soldo), moeda realmente presente naquele império. Embora o autor nos vá fazer notar – correctamente – que o soldo visigótico (herdeiro ibero do sistema romano) tenha sido na prática igualado ao maravedi, esta moeda em particular não foi propriamente visigoda, mas posterior. Tanto ela quanto o termo que a representa ainda não haviam surgido antes do século XI, aquando da invasão dos almorávidas (al-murabitûn), dinastia que, no poder, deu então o seu nome (murabití, “maravedi”) ao dinar mouro. Este detalhe, embora digno de nota, não invalida a exposição de Mariana, pois aqui apenas se comparam proporções monetárias e se mostra certa persistência do sistema romano. O maravedi introduziu-se, como o fizeram outras moedas do califado ao longo daqueles anos, tendo como substrato a apropriação visigótica da moeda romana.
marco de cada época se compara ao da nossa. Pois bem: actualmente, um marco de prata bruta vale 2210 maravedis; como moeda, vale 2278. Não convém deter-se na qualidade da prata, pois em todas estas épocas ela teve aproximadamente a mesma qualidade de hoje, o que podemos aferir pelos cálices e demais instrumentos litúrgicos há muito preservados nas igrejas. Adiciono que o marco de prata, embora tivesse valor variado se comparado aos maravedis, sempre valeu cinco moedas de ouro – comumente chamadas doblas40 – as quais valiam 12 moedas de prata cada (não 14, como dizem alguns). O marco valia, pois, 60 ou 65 moedas de prata. Isto depreendemos das leis de João I, rei de Castela.
Mas a discussão ruma a esta outra fonte. O mais antigo valor do marco que podemos aferir é de 125 maravedis. Este foi o valor do marco durante o reino de Afonso XI, conforme o atestam as Crónicas, cap. 98.41 Portanto, valia dois maravedis a moeda de prata que hoje vale 34. Assim, o maravedi daquela época valia 17 dos nossos e um pouco mais; e era seguramente de prata, como o próprio valor nos indica. No reino de Henrique II, a moeda de prata valeu três maravedis, como nos contam as suas Crónicas, ano 4, cap. 2.42 Assim, o valor do marco subiu a 200 dos maravedis então em uso, e consequentemente cada um destes valeria 11 dos nossos atuais. A Henrique II sucedeu João I, em cujo reino o marco de prata subiu a 250 maravedis (ou quadrantes), visto que a moeda de prata valia quatro maravedis, e a de ouro, 50. Isto consta da Lei 1.ª das Cortes de Burgos, do ano de 1388. Deste modo, naquela época o maravedi valia nove ou dez dos nossos actuais. Para o mostrar mais claramente, basta que consideremos esta outra lei de Briviesca, que pune ofensas a pais e mães com multa de 600 maravedis.43 No tempo dos reis Fernando e Isabel, esta lei foi incluída no Ordinamentum (VIII, tít. 9, lei 1.ª), onde se observava que os 600 maravedis nela mencionados eram bons e valiam 6000 maravedis do seu tempo – e
40 Ou seja, “dobrões”.
41 C.R.C., Alfonso XI, cap. 95. Não apenas da edição de 1857 que utilizamos, mas também noutra anterior (Madrid: Antonio de Sancha, 1787. cap. 98), consta que o valor do marco seria mais exatamente de 100 maravedis, e que apenas após algum tempo foi elevado (por uma carestia) a 120. Embora esta discrepância pudesse afectar os valores descritos, ela não contrariaria o argumento de Mariana, mas sim favorecê-lo-ia, visto que a desvalorização do maravedi teria sido ainda mais acentuada entre Afonso XI e Henrique II.
42 C.R.C., Henrique II, ano 4, cap. 3.
também do nosso (pois, desde a época dos Reis Católicos, não houve nenhuma alteração no marco de prata, nem no maravedi).
Passemos a outros monarcas. Conforme vejo em documentos antigos, no reino de Henrique III o marco chegou a valer 480 ou ainda 500 maravedis. Nesta época, portanto, a moeda de prata valeu por volta de oito maravedis – e consequentemente cada um deles valia quatro ou cinco dos nossos. No reinado de João II (filho de Henrique III) o marco passou a valer 1000 maravedis, especialmente no fim da sua vida. Logo, os do seu tempo já valiam dois e meio dos nossos – uma assombrosa variação, mas que não cessou naquele reino. Pois no governo de Henrique IV, em que se deram graves e numerosas perturbações, o marco de prata subiu a 2000 maravedis e depois a 2500, como nos conta Antonio de Nebrija nas suas Repetitiones. O seu maravedi valia tanto quanto o nosso, e desde então não houve nenhuma grande alteração no seu valor – o que se deve atribuir à diligência de Fernando e Isabel, assim como dos seus sucessores. Agora, munidos das leis e crónicas dos nossos monarcas anteriores, tratemos dos demais maravedis.
O maravedi de ouro era igual a seis daqueles que se usavam comumente no tempo de Afonso X, o Sábio. Como o afirmam as Leyes del Estilo (n.º 114), sob aquele monarca verificou-se que seis maravedis da sua época tinham o mesmo peso de um dos de ouro. Isso não significa que os maravedis de Afonso X fossem de ouro, como o suspeitam alguns; chegou-se a tal valor considerando-se o peso os maravedis dos dois tipos e a proporção do ouro para a prata, que é de doze para um. A lei de Afonso XI, por sua vez, promulgada nas Cortes de Leão de 134944, afirmava que 100 maravedis de boa moeda (ou, neste caso, de ouro) valiam 600 dos comuns. Desta passagem podemos tirar duas conclusões, a saber: primeiro, que do tempo de Afonso X, o Sábio, até ao do seu bisneto, Afonso XI, em nada se alterou o valor do marco e do maravedi, visto que sob ambos o maravedi de ouro equivalia a seis dos usuais. Segundo, que, se o
44 Tanto no original quanto na versão castelhana, lê-se que tal parlamento ocorreu “na era de 1387”, ou seja, em 1349 (quando de facto reinava Afonso XI e tiveram lugar aquelas cortes). Sempre que apresentado de tal maneira, o ano refere-se à chamada era hispânica, proclamada em 38 a.C. sob Otávio Augusto (63 a.C.–14 d.C.), aquando da pacificação da Península Ibérica e da sua inserção na civilização romana. O uso contínuo desta datação em paralelo com a contagem cristã daquela região durante quase toda a Idade Média (a contagem das Crónicas e Cortes é sempre dupla, por exemplo) dá testemunho de como as invasões visigóticas não eliminaram o sentido de identidade dos hispanos conquistados. Ao contrário, o império visigodo viu-se, sob este e vários outros aspectos, como herdeiro e continuador do mundo romano cristianizado.
maravedi usual valia 17 dos nossos actuais (ou até um pouco mais, como dito antes), então necessariamente equivocam-se os que avaliam o maravedi de ouro em 36 ou 60 dos nossos: ele valeria três moedas de prata, ou seja, mais de 100 dos nossos maravedis.45 Trata-se de opinião nova, mas assentada sobre bons fundamentos.
Suspeito, ademais, que estes maravedis de ouro não seriam outra coisa que os tremisses dos godos, dos quais se valeram estes primeiros reis de Castela, que não cunharam novos. Primeiro, por se verificar que o seu valor é, também, de três a quatro moedas de prata; segundo, porque os desenterramos com muita frequência, mas não encontramos nenhum com a efígie ou o nome dos reis de Castela. Quem creria que desapareceram todos, sem qualquer vestígio?46
Já tratamos do maravedi de ouro. Quanto ao maravedi velho, diz-se que ele vale um e meio dos nossos. Disto melhor falarão aqueles que conhecem mais profundamente a lei do reino; talvez tenha sido o consenso dos jurisconsultos que, nas multas, se substitua um maravedi velho por um e meio dos nossos sempre que o termo aparece no texto das nossas leis – do mesmo modo que o maravedi de ouro encontrado nestas leis é comumente avaliado a 36 ou 60. Mas, se falamos precisamente, o “maravedi velho” não teve um valor só, mas variado e múltiplo; toda a vez que algo se subtraía da qualidade da moeda (o que se faz com frequência), os reis concediam – para não ter que abolir os maravedis anteriores – que estes fossem correntes junto com os novos, e que se chamassem velhos.
Assim, será fácil comparar entre si (e com os nossos) os maravedis usuais de uma geração ou outra. O maravedi de Afonso XI, comparado ao que se cunhou sob o seu filho Henrique II, pode dizer-se velho, e valerá um e meio [dos
45 Mais precisamente, 6x17 = 102. Quanto à proporção com as três moedas de prata, lembremos que dois maravedis comuns equivaliam a uma moeda de prata no reino de Afonso XI, da mesma maneira que 34 maravedis comuns o faziam no tempo de Mariana. Como disse o autor, a prata pura não mudou o seu valor intrínseco. No original, a sentença latina – argentei trescentum
amplius Maravedinos – parece dizer “mais de trezentos maravedis de prata” (lendo trescentum
como trecenti), o que não é correto, e confirma-o a versão castelhana, onde se lê “tres reales de
plata y aun algo más”. Prefira-se, portanto, ler: “argentei tres [seu] centum amplius Maravedinos”.
46 Pareceria difícil conciliar esta possibilidade com a afirmação anterior de que o maravedi de ouro original (“gótico”, como o propunha o autor) equivalia ao soldo romano, e que ademais valia três dos maravedis-tremisses góticos (como ele próprio afirmou). A não ser que se entenda que o maravedi bom (ou de ouro) aferido por Afonso X já fosse a versão um tanto desvalorizada (o
usuais de então]. Se comparado com o nosso, valerá não menos que 17. Os maravedis velhos, pois, foram os usuais em algum momento. Logo, a partir do valor dos usuais cabe-nos estabelecer (conforme explicamos) quanto valem os antigos; e, destes que se dizem novos, quanto valem comparados aos nossos. Estas são miudezas espinhosas, mas já estamos a chegar ao seu final.
Nas nossas leis, denomina-se “maravedi novo” não só este que corre na nossa época, mas também o que corria no tempo do rei Fernando, o Católico. Naquele tempo, recompilaram-se em alguns poucos volumes as leis dos reis que o precederam; chamaram-se então “maravedis velhos” os destes monarcas anteriores. Podemos, portanto, a partir do valor do maravedi que foi usado por cada um deles, reconstruir o valor deste maravedi velho. O de Afonso XI valia 17 dos nossos. O de Henrique II valia 11. O de João I valia dez. O de Henrique III, cinco. O de João II, dois e meio. Devem-se considerar as épocas atentamente, e ante elas estabelecer quanto valia o maravedi velho em cada lei, e quanto valeria o novo – seja entre eles próprios, seja deles com relação aos nossos.
Tampouco devemos esquecer que o maravedi velho às vezes se diz bom, como vimos na lei antes mencionada (Ordinamentum VIII, tít. 9, lei 1a), na qual observaram que eram bons (e valiam 6000 dos seus usuais) os 600 maravedis com que João I ordenara se multassem os que ofendiam pai e mãe. Decerto a lei não se refere a maravedis de ouro, que valiam muito mais, mas aos velhos, que, sendo os usuais daquele reino (o de João I), valem dez vezes os nossos. (Recordemos que o valor do maravedi não se alterou desde Fernando, o Católico.)
Por outro lado, consideremos esta lei, promulgada em 1409, em Guadalajara, por João II (Ordinamentum VIII, tít. 5, lei 2a): nela, quem esteja excomungado por um mês deve pagar 100 maravedis bons, que valem 600 dos velhos; se a contumácia chegar a seis meses, que pague 1000 maravedis bons, que valem 6000 dos velhos. Neste caso, os maravedis bons são os de ouro; os velhos eram os correntes no tempo de Afonso X a Afonso XI. Pois, como antes dissemos, apenas naquele tempo os maravedis de ouro valiam seis dos usuais. A propósito: se a alguém lhe parece dura aquela multa, que chega a 3000 das nossas moedas de ouro, é certamente mais severa a actual, que pune como suspeito de heresia quem permanecer excomungado por um ano.
Por último, cito as Crónicas deste mesmo rei João II (ano 29, cap. 145),47
quando nas Cortes de Burgos o monarca expediu ordem para cunhar maravedis-semisses (aos quais, por sua alvura, chamamos blancas) da mesma qualidade e peso com que os havia feito o seu pai, Henrique III. Muito posteriormente, foi visto que a referida moeda era inferior, e os procuradores do reino puseram todo o tema a exame. Reconhecidos o vício e o engano na cunhagem, determinou-se que o maravedi velho (de Henrique III) valeria um e meio dos novos. Isto consta do ano 42 de João II, cap. 36.48
Observemos que nesta passagem parecem ter encontrado razões para emitir juízo aqueles que declararam universalmente que um maravedi velho vale um e meio dos nossos, quando deveriam antes dizer que o maravedi cunhado por Henrique III valia um e meio dos que João II cunhou. Ainda assim, se considerarmos o valor do marco sob estes dois reis, o desvio não estaria satisfatoriamente sanado, pois um maravedi anterior valia dois inteiros dos posteriores: com efeito, comparado aos nossos, o maravedi de João II valia dois e meio, enquanto o de Henrique valia quatro ou cinco – o que é evidente e manifesto, por tudo que expusemos nesta discussão.
47 C.R.C., João II, ano 23, cap. 35. Como o atestam os livros destes parlamentos (ver Cortes, vol. III, p. 79-80), as referidas Cortes de Burgos, embora comumente datadas de 1430, iniciaram-se no fim de 1429. Que o ano de 1429 seja o 23.º ano do reinado explica parte do erro no texto original. Em 1430, esta assembleia traslada-se a Medina del Campo. Sobre o seu contexto e relevância, ver: COLMEIRO, Manuel. Cortes de los Antiguos Reinos de León y de Castilla; Introducción. Madrid: Rivadeneyra, 1883-1884. vol. I, p. 444-49.
48 C.R.C., João II, ano 36, cap. 6. (O erro é da mesma natureza do anterior: 1442 é o 36.º ano do reinado). Apesar do termo “maravedi” aqui empregado, o referido ajuste proporcional (de 1,5 para 1) aplicou-se primeira e materialmente entre as blancas dos dois reinados. Assim rezava o texto: “E conoscida la ventaja que habia de las viejas á las nuevas, mandó que de las blancas nuevas valiesen tres un maravedí, é quelas viejas quedasen en su valor, valiendo dos un maravedí”. Concebido tal ajuste entre os maravedis propriamente ditos, o resultado seria que de facto os velhos valeriam um e meio dos novos. Não obstante, já vimos que para o autor – que o confirma em seguida – os velhos valeriam o dobro destes em uso no reinado de João II, e portanto a proporção de 1,5 para 1 entre maravedis ainda teria deixado a desejar.