3 ORIGEM DOS VALORES HUMANOS
3.3 O S VALORES NA TEORIA DE P IAGET
3.3.3 Os valores nos estágios de desenvolvimento
3.3.3.3. f) Os valores e o ato de vontade que os conserva
afetiva antes dos sete anos é intuitiva, espontânea, impulsiva, impedindo a orientação constante do pensamento e dos sentimentos. Depois dos sete anos, o pensamento e os sentimentos se organizam, constituem regulações ou formas finais de equilíbrio que podem ser expressas pela vontade.
O análogo afetivo das operações intelectuais é encontrado no ato de vontade. Piaget (1981) afirma que o instrumento para a conservação dos valores é a vontade. O ato de vontade equivale a uma operação intelectual, sendo esta a única força mental necessária para o comportamento. Existem, contudo, variados aspectos que podem confundir o que de fato seja este ato de vontade.
Por exemplo, Piaget aponta para o fato de que se considera como significando vontade, sem que de fato o seja: (i) a criança pedindo com energia (Piaget o considera, ao contrário, como um capricho); (ii) o movimento voluntário que se opõe a um reflexo ou (iii) comportamentos que podem ser voluntários, mas que não são afetos normativos.
aparição tardia, seu exercício real está ligado (precisamente) ao funcionamento dos sentimentos morais autônomos.Não é uma simples manifestação de energia de que o sujeito dispõe (por exemplo, um guri que persevera até conseguir um objetivo) e não é a energia à disposição de uma tendência, mas uma regulação da energia.
Antes de conceituar o que considera como sendo o ato de vontade, Piaget (1981) faz uma revisão de literatura a respeito do tema. Entre outras idéias interessantes, sopesadas por este autor, destacam-se as de William James. Segundo James, o ato de vontade obedece a dois critérios: (i) o primeiro é que deve existir, como ponto de partida, um conflito de impulsos ou tendências e (ii) o segundo é que o impulso inicial mais fraco deve se tornar o mais forte. A idéia de Wundt é a de que a vontade está em todos os impulsos, todos os estados afetivos, tendendo a prolongar o que é agradável e suprimir o que não é.
Existem ainda teorias afetivas que, segundo Piaget (1981), descrevem a vontade, mas sem dizer como. Nestas abordagens, a vontade seria uma intenção remota, predominante, ou um certo esforço. De onde viria? Como funcionaria? Questiona Piaget. Também teorias intelectuais, tratariam do ato de vontade. Para Descartes, por exemplo, a vontade é uma análise do julgamento. A Inteligência, segundo este filósofo, teria dois estágios: (1) a concepção, equivalendo à compreensão e (2) a afirmação, constituindo a vontade. Para Spinoza, a vontade é compreensão, a força de nossas idéias.
Para Piaget (1981), a força de um impulso não é fixa (mesmo que só tenha uma em jogo), ela depende (a cada instante) da configuração do campo afetivo, assim como, na experiência perceptual, o envolvimento comparativo dos elementos da configuração depende do campo perceptual. Um tal efeito de campo é produzido pela modificação das forças que ocorrem na descentração.
Referindo-se às idéias de James e de outros autores, Piaget (1981) argumenta que as forças dos impulsos no conflito não são absolutas, mas relativas à configuração atual. Mudar a perspectiva significa modificar a situação ou a distribuição de forças que são constantemente variantes. Dizer que as forças são antagônicas falsifica o problema, uma vez que não explica porque a força fraca triunfa.
Para Piaget (1981), a vontade é um comportamento especial de regulação, é o que ele chama de “regulação das regulações”.
(a) Regulação das Regulações
Todos os sentimentos fundamentais ligados às atividades do indivíduo já traduzem uma regulação de energia. O interesse é um forte regulador ( por exemplo, basta que a criança se interesse por um trabalho para achar forças necessárias para empreende-lo). Os sistemas de interesses ou de valores são mutáveis a cada instante, conforme a atividade em curso12.
Uma regulação é quase automática e contínua: - quando intuitiva é em parte irreversível e sujeita a freqüentes deslocamentos de equilíbrio e - quando se dá pela vontade, é uma regulação específica tornada reversível, equivalendo a uma operação. Sendo uma operação intelectual, o ato de vontade vem a se assentar em um problema essencial da inteligência, um conflito entre a experiência perceptual e a dedução lógica. No ato inteligente, o sujeito tem que ir além ou estar acima da configuração perceptual; deve libertar-se da configuração perceptual para fazer surgir relações que não foram dadas, à percepção, desde o início.
Trata-se assim de um processo de descentração. A descentração, podendo ser afetiva ou cognitiva, permite o controle da situação atual, pela conexão com situações passadas e, se necessário, por antecipar as futuras. Piaget (1981) conclui que este é um trabalho de
perceptual das operações intelectuais. Para ir além destas é preciso apenas mudar a perspectiva. Esta mudança deve trazer à tona relações que antes não apareciam.
Considerando a questão dos impulsos, este autor explica que as forças dos impulsos não sendo absolutas, são, em cada caso, relativas à configuração. Pode-se modificar a situação, mudando a perspectiva com que se a encara e alterando a distribuição das forças, que estão constantemente variando.
A força de um impulso não é fixa. Depende o tempo todo da configuração do campo afetivo, tal como acontece na experiência perceptual. Piaget (1981) sempre reforça a afirmação de que não existe um comportamento que seja puramente afetivo ou intelectual, por trás de um ato tem sempre estes dois aspectos intervindo.
A descentração no ato de vontade é o raciocínio e os efeitos de representação que trazem o passado à vida outra vez; permitindo controlar a situação atual ao conectá-la com situações passadas (e ao antecipar situações futuras se necessário). Além de conectar as situações correntes às situações do passado, de ligar as percepções presentes à imagens do passado, a descentração permite recriar sentimentos e valores, momentaneamente esquecidos. Quando uma pessoa se lembra de uma situação do passado, revive (como uma ação
afetiva) valores, assim como lembrariam imagens que foram memorizadas. Piaget (1981)
afirma que no ato de vontade são dadas as condições afetivas que correspondem à configuração perceptual das operações intelectuais. No caso da cognição, não se trata de rejeitar a percepção imediata, mas de ir além desta, mudar a perspectiva de maneira a deixar aparecerem relações que não foram dadas desde o começo.
A descentração dos valores é paralela e não redutível à descentração cognitiva. Esta primeira não requer outra energia que não a sua própria, assim como outras regulações
12 Provavelmente, Piaget está se referindo aqui à aplicação de valores específicos à atividade em curso e não a
também não requereriam outra energia. Além do mais, nem todas as regulações envolvem atos de vontade. Da mesma forma que uma operação é uma ação sobre ações, a vontade é uma regulação de segundo poder, uma regulação de regulações. Assim, o ato de vontade corresponde à conservação de valores, subordina uma dada situação a uma escala de valores tornada permanente.