Capítulo III – JORNALISMO, MOBILIDADE E LUGAR
2. A construção de um texto jornalístico
2.1 Os valores-notícia
Os valores-notícia são outro tópico de abordagem nesta tese, pois é parte da notícia, resultado de um processo que nasceu com o jornalismo tradicional e permanece no JDM.
Definem-se os valores-notícia como elementos que classificam e transformam os acontecimentos cotidianos em algo público e em um fenômeno ou um evento (TUCHMAN, 1978, p.6-12), ou ainda, segundo a abordagem de Wolf (2009, p.195) como controlador e gerenciador da quantidade e tipos de acontecimentos que serão notícias.
“Uma vez que não podemos registrar tudo, temos de fazer uma seleção, e a questão é saber o que chamará a nossa atenção” (GALTUNG; RUGE, 2004, p.63). Tuchman (2004, p.77) corrobora com os autores ao afirmar que “cada notícia é uma compilação de fatos avaliados e estruturados pelos jornalistas”. O valor-notícia é defendido por Guerra (2014) como uma condição para se estabelecer o vínculo entre jornalistas e a audiência. “Não se pode pensar o jornalismo sem esse vínculo, pois o princípio geral que a estrutura em sua concepção moderna é a função de mediadora que lhe cabe, isto é, operar uma oferta de informação sobre fatos da atualidade para indivíduos” (GUERRA, 2014, p.42).
Falta um consenso entre estudiosos ao afirmar quais são os critérios que definem uma notícia. Desta forma, serão abordados dois autores referência, a priori, Erbolato (1991), que pontua 24 critérios, sendo a proximidade, o marco geográfico, o impacto, a proeminência ou celebridade, aventura e conflito, consequências, humor, raridade, progresso, sexo e idade, interesse pessoal, interesse humano, importância, rivalidade, utilidade, política editorial do jornal, oportunidade, dinheiro, expectativa ou suspense, originalidade, culto de heróis, descoberta e invenções, repercussão e confidências (p.60-65).
Traquina (2002, 2004), conforme texto exposto no capítulo III, ao elencar 10 valores- notícia, sendo a morte, a notoriedade, a proximidade, a relevância, a novidade, o tempo, a notabilidade, o inesperado, o conflito ou controvérsia ao envolver discussões ou violência física e o escândalo. Considera-os mais adequados por serem concisos e coesos, abarcando os possíveis enquadramentos dos acontecimentos ao determiná-los como notícia, tendo a escolha justificada por Gans, citado por Wolf (2009, p.197), ao afirmar que os critérios precisam ser claros e objetivos, resultando na aplicabilidade rápida.
Para contextualizar as categorias de noticiabilidade pontuadas por autores referências no assunto, Fernandes (2014, p. 144) reúne as categorias estipuladas por cada um, permitindo uma relevante observação.
QUADRO 7 – Categorias de noticiabilidade
Autor Categorias de noticiabilidade
Carrol Warren Elementos básicos da notícia: atualidade, conflito, consequência, curiosidade, emoção, proeminência, proximidade, suspense. Fraser Bond
(1954)
Valor notícia: importância, oportunidade, proximidade, tamanho.
Elementos de interesse da notícia: interesse próprio, dinheiro, sexo, conflito, o incomum, culto do herói e da fama, expectativa, interesse humano,
acontecimentos que afetam grandes grupos organizados, disputa, descoberta e invenção, crime.
Luiz Amaral Atributos fundamentais: atualidade, veracidade, interesse humano, amplo raio de influência, proximidade, raridade, curiosidade.
Johan Galtun e Mari Holmboe Ruge (1965)
Critérios de noticiabilidade: momento do acontecimento, intensidade ou magnitude, inexistência de dúvidas sobre seu significado, proeminência social dos envolvidos, proeminência das nações envolvidas, surpresa, composição tematicamente equilibrada do noticiário, proximidade, valores socioculturais, continuidade.
Mar de Fontcuberta (1993)
Interesse do público: atualidade, proximidade, proeminência, conflito, consequências.
Mario Erbolato (1978)
Critérios de notícia: proximidade, marco geográfico, impacto, proeminência (ou celebridade), aventura e conflito, consequências, humor, raridade, progresso, sexo e idade, interesse pessoal, interesse humano, importância, rivalidade, utilidade, política editorial do jornal, oportunidade, dinheiro, expectativa ou suspense, originalidade, culto de heróis, descoberta e invenções, repercussão, confidências.
Natalício Norberto (1969)
Valor notícia: interesse pessoal (dinheiro, sexo, solidariedade); Interesse pelo próximo; proximidade; incomum (conflito, crimes, expectativa, objetividade); tamanho; importância; oportunidade. Nilson Lage
(2001)
Critérios de avaliação: proximidade, atualidade, identificação social, intensidade, ineditismo, identificação humana.
Pâmela Shoemaker (1991)
Critérios de noticiabilidade: oportunidade, proximidade, importância, impacto ou consequência, interesse, conflito ou controvérsia, negatividade, frequência, dramatização, crise, desvio, sensacionalismo, proeminência das pessoas envolvidas, novidade, excentricidade, singularidade.
Teun A. van Dijk (1990)
Valores jornalísticos: novidade, atualidade, pressuposição, consonância, relevância, desvio e negatividade, proximidade.
Entre os autores, o consenso é que os valores-notícia distinguem o que é importante do que é comum e a partir das características, despertam a atenção do público. Ressalta-se que todos os estudiosos citados no quadro acima concordam que a proximidade é um critério de noticiabilidade. A partir disto, resgata-se o que foi abordado no primeiro capítulo, sobre as características do webjornalismo e do JDM em relação à proximidade e, também, no terceiro capítulo, sobre o jornalismo e o lugar, no qual pode-se pontuar a proximidade como algo físico ou de interesse e à relação de identidade e alcance, que o smartphone tem em questão à mobilidade e às pessoas.
Em essência, concorda-se com Jorge (2007, p.78), ao pontuar que “identificar um valor-notícia, dá-lhe forma e posição na reportagem, são o objetivo do jornalista: o apelo deve atingir o leitor nas emoções e capturar-lhe a atenção”.
No jornalismo tradicional, os valores-notícia permanecem os pontuados por Traquina (2002, 2004) e no ambiente do JDM, na era da ubiquidade comunicacional, acrescem-se outros três, conforme defende Satuf (2013), o hashtag, a redundância e a participação ou colaboração. O primeiro é o valor-notícia hashtag. O autor explica que contextualiza a união dos termos ingleses hash (symbol), representado pelo # e tag, que significa etiqueta ou rótulo. “Uma hashtag é composta pelo símbolo # e uma palavra ou frase sem espaço entre os termos. Sua principal função é facilitar a busca e a agregação automáticas de conteúdo, é um metadado que permite o rastreamento por sistemas informáticos” (p. 326). Twitter, Facebook e Instagram reúnem as publicações marcadas pelas mesmas hashtags e possuem um motor de busca que oferece uma lista com os posts mais compartilhados. A redundância é o segundo valor-notícia pontuado pelo pesquisador. Quando há um número considerável de registros e manifestações, principalmente nas redes sociais, há maior possibilidade de virar notícia. Uma das normas do jornalismo, contudo, é a verificação dos fatos que deve ser feita com esmero, em um tempo em que, com câmeras em punho, todos podem captar os acontecimentos de vários ângulos. “A redundância aumenta a credibilidade da informação partilhada” (p.327). Satuf (2013) propõe como terceiro valor-notícia do jornalismo contemporâneo, a participação ou colaboração. Inserido no ambiente das redes sociais, a cultura do compartilhamento força os jornalistas a verificarem os conteúdos produzidos pelos cidadãos. “Este valor-notícia está bastante presente na cobertura de fenômenos naturais ou eventos culturais e esportivos” (p.327). Considera-se os postulados de Satuf (2013), por concordar com Traquina (2004), ao afirmar que os valores-notícia não são imutáveis, mas vão se adequando à sua época histórica, a partir de novas sensibilidade, “[...] a definição da notabilidade de um acontecimento ou de
um assunto implica um esboço da compreensão contemporânea do significado dos acontecimentos como regras do comportamento humano e institucional” (p.120).
Além do questionamento sobre a validade e uso dos valores-notícia nas observações dispostas nos apps investigados, questionou-se sobre o gênero jornalístico neste novo ambiente comunicacional.