2. Enquadramento da prática profissional
2.3 Doenças Crónicas mais comuns
2.3.6 Osteoartrose e Artrite Reumatóide
A artrite reumatoide é uma doença inflamatória sistémica crónica, onde ocorre uma atividade patológica do sistema imunitário contra os tecidos das articulações. A osteoartrose é uma doença articular degenerativa local que pode afetar uma ou várias articulações, sendo geralmente nas articulações do joelho, anca e mão (Bennell & Hinman, 2011; Pescatello et al., 2013), embora mais comum nas duas primeiras (Bennell et al., 2014). O processo envolve toda a articulação, incluindo cartilagem, osso, ligamentos e músculos, com alterações como redução do espaço articular, osteófitos e esclerose (Bennell & Hinman, 2011).
É uma condição que provoca dor, rigidez, inchaço, instabilidade articular e fraqueza muscular, que podem levar a uma redução da função física, alteração da propriocepção, diminuição do equilíbrio, anormalidades na marcha, dificuldade em realizar atividades da vida diária, como caminhar (anormalidades na marcha), subir escadas e atividades domésticas, problemas de sono e fadiga, diminuindo a qualidade de vida (Bennell et al., 2014; Bennell & Hinman, 2011; Fransen, McConnell, Hernandez-Molina, & Reichenbach, 2014) e resultando em problemas psicológicos como depressão e ansiedade (Bennell et al., 2014; Bennell & Hinman, 2011).
Os FR são a idade avançada, género (prevalência superior no género feminino do que no masculino), obesidade, lesões articulares anteriores, predisposição genética e fraqueza muscular (Bennell & Hinman, 2011; Fransen et al., 2014). Fatores que podem prevenir o risco de desenvolvimento de osteoartrose, particularmente na articulação coxofemoral, são a melhoria da sua mecânica e redução da carga articular (Fransen et al., 2014). Para além disto, pessoas com osteoartrose geralmente têm outras patologias associadas com a obesidade, designadamente doenças cardíacas, hipertensão e diabetes, resultado do facto da maioria destes pacientes não alcançarem os níveis recomendados de AF moderada (Bennell & Hinman, 2011).
Atualmente não existe cura para a osteoartrose, no entanto o tratamento abrange não-farmacológico, que inclui o exercício físico, farmacológico, contendo analgésicos simples e medicamentos anti-inflamatórios não esteroides, ou cirúrgico, nomeadamente substituição total da articulação coxofemoral e do joelho numa fase mais avançada da doença (Bennell & Hinman, 2011). Os medicamentos são componentes fundamentais do tratamento de artrose, no entanto, o tratamento ideal envolve uma abordagem multidisciplinar, incluindo educação do paciente em autogestão, fisioterapia e terapia ocupacional (Pescatello et al., 2013).
Embora a dor e as limitações funcionais possam apresentar desafios para a AF, o exercício regular é essencial para a gestão destas condições (Pescatello et al., 2013). O exercício físico é uma componente integral do tratamento não-farmacológico independentemente da idade do paciente, da articulação em questão, da gravidade radiográfica da doença, da intensidade da dor, dos níveis funcionais e patologias associadas. A sua prescrição deve ser individualizada e centrada no paciente, com base nos resultados da sua avaliação, envolvendo a partilha de tomada de decisão entre o paciente e o especialista (Bennell et al., 2014).
Os principais objetivos do exercício nestes pacientes envolvem a redução da dor, melhoria da função física e otimização da participação em atividades sociais, domésticas, ocupacionais e de lazer, através da melhoria das lacunas fisiológicas associadas incluindo força muscular, amplitude articular, propriocepção, equilíbrio e componente cardiorrespiratória (Bennell & Hinman, 2011; Pescatello et al., 2013). Estudos demonstram imediatamente após um programa de exercício, uma reduzida a moderada diminuição da dor e da função física (Fransen et al., 2014), o que é corroborado por um estudo referindo que o exercício é eficaz a curto prazo, contudo ocorre uma redução dos seus benefícios a longo prazo (Bennell et al., 2014). Krauss et al. (2014) verificou também maiores efeitos positivos na redução da dor e melhoria da condição física no grupo com intervenção de exercício físico em comparação com o grupo de controlo e o grupo com intervenção de
placebo, contudo, uma vez que a sua intervenção foi de 12 meses, não permite retirar conclusões sobre os efeitos do tratamento a longo prazo.
Outros benefícios potenciais do exercício são as melhorias ao nível da mobilidade, do risco de quedas, do peso corporal, do estado psicológico e das alterações metabólicas (Bennell & Hinman, 2011). Assim, embora os efeitos do exercício físico possam ser considerados pequenos a moderados, são comparáveis às estimativas apresentadas pelo tratamento farmacológico (Figura 17), para além de que todos os tipos de exercícios estão associados com, relativamente, poucos efeitos colaterais em comparação com o tratamento farmacológico (Bennell et al., 2014).
É recomendado para pessoas com osteoartrose exercícios terrestres aeróbios e de fortalecimento muscular, bem como exercícios de flexibilidade, de amplitude articular e aquáticos (Bennell et al., 2014). O exercício aeróbio, como caminhar ou andar de bicicleta, tem efeitos na dor, na sensibilidade articular, no estado funcional e na capacidade aeróbia, já o fortalecimento muscular, nomeadamente dos quadricípites, abdutores e extensores da coxa, isquiotibiais e gémeos, melhora a força, a dor e a função física (Bennell et al., 2014; Bennell & Hinman, 2011). O treino cardiovascular, combinado com uma restrição alimentar, é também importante para a redução ou manutenção do peso corporal, enquanto o treino de força minimiza a perda de massa muscular. O exercício aquático é uma opção para pacientes com obesidade, dado que minimiza a carga na articulação (Bennell & Hinman, 2011). É aconselhado uma intervenção combinada de todos para um maior benefício, em que a sua prescrição irá depender da avaliação individual de cada paciente (Bennell et al., 2014; Bennell & Hinman, 2011). Muito importante ainda um aquecimento e um retorno à calma adequados para redução da dor (Pescatello et al., 2013). Exercício de alto impacto deve ser evitado, devido aos efeitos potencialmente nocivos da alta carga (Bennell & Hinman, 2011), bem como exercícios extenuantes durante períodos de inflamação aguda (Pescatello et al., 2013).
Relativamente à dosagem do exercício físico, é recomendado no mínimo 150 minutos por semana, contudo pessoas com osteoartrose devem ser encorajadas a serem tão fisicamente ativas quanto a sua capacidade e condição permite (Bennell et al., 2014; Pescatello et al., 2013).
Tabela 7: Recomendações para indivíduos com osteoartrose e artrite reumatóide (Pescatello et al., 2013).
Aeróbio Resistência Muscular
Frequência 3-5 vezes/semana. 2-3 vezes/semana.
Intensidade Leve: 30-40% VO2res (indivíduos
descondicionados); a moderada: 40-60% VO2res.
Leve: 40-60% 1RM, 10-15 repetições.
Duração ≥150 min/semana, ou surtos de 10 minutos de acordo com a dor. Tipo Atividades aeróbias com pouco stress articular
(caminhar, bicicleta ou natação). Evitar impacto.
Exercícios para grandes grupos musculares.
Figura 17: Quantidade de efeito na dor dos diferentes tipos de exercício (barras pretas) em comparação com a intervenção farmocológica (barras brancas) em osteoartrose de joelho (Bennell, Dobson, & Hinman, 2014).