Othon Luiz Pinheiro da Silva foi um dos fundadores do Programa de Desenvolvimento do Ciclo do Combustível Nuclear e da Propulsão Nuclear para Submarinos. Em 2011, foi nomeado pesquisador emérito do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen). Possui uma especialização em Engenharia Nuclear pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT). Atualmente é vice-almirante reformado da Marinha do Brasil e presidente da Eletronuclear.
Depoimento concedido a Marly Motta, Matias Spektor, Tatiana Coutto e Lucas Nascimento em duas sessões realizadas no Rio de Janeiro nos dias 13 de outubro e 15 de dezembro de 2010. A opção pela engenharia e o período na USP
De onde surgiu a ideia de entrar para a Marinha?
Um tio me aconselhou a fazer o curso científico na Marinha; passei no concurso, fiz o Colégio Naval em Angra dos Reis e a Escola Naval na Ilha de Villegagnon. Em uma turma de cento e tantos, eu era o terceiro colocado, mas estudava mais por obrigação, como alguém que tem que tomar um remédio. Formei-me em 1960.
Que fatores o levaram a optar pela engenharia?
A engenharia não era minha primeira opção. Havia uma banca examinadora mista, e éramos
admitidos no terceiro ano da universidade. Fiz o concurso no segundo semestre de 1963 e em 1964 fui para a USP. Apaixonei-me pela engenharia ao fazer o curso de resistência de materiais do professor Souza Lima, um dos maiores engenheiros deste país. Eu, que me imaginava sem vocação para nada, passei a gostar de engenharia.
O período na USP foi muito interessante; era um mundo novo para mim, que contrastava com a formação de uma escola militar que tinha recebido na Escola Naval e no Colégio Naval. O contato com docentes e colegas civis foi fundamental durante o programa autônomo da Marinha. Outra vantagem de um curso nessa universidade é que os oficiais podiam ser mandados para outros departamentos. Isso é importante, porque a indústria da defesa tem que estar dentro do contexto normal da sociedade, não pode estar à margem dela.
Como as relações entre o departamento de engenharia naval na USP e a Marinha contribuíram para o desenvolvimento da área no Brasil?
O curso de engenharia naval foi instituído em 1956. A USP foi pioneira nessa área; outro curso foi inaugurado logo depois pela Escola Nacional de Engenharia. O Exército tinha o IME, a Força Aérea criou o ITA e a Marinha resolveu criar um departamento em uma universidade já existente. A USP foi a instituição que melhor atendia aos requisitos da Marinha, que bancou o departamento no início: mandou professores assistentes para o exterior, trouxe docentes do MIT. Havia um mix de
professores.
Frequentei o curso na USP pouco depois de sua criação. Ao longo da década de 1960 a construção naval começou a se desenvolver, e, no início da década de 1970, chegamos a ser o segundo país em lançamento de navios no mundo, devido a incentivos do governo. Era uma época de crescimento econômico muito grande e havia muita demanda por engenheiros navais; os civis da minha turma não saíram procurando emprego, eram entrevistados na própria Escola Politécnica pelos novos estaleiros que haviam sido criados.
Que rumo tomou sua carreira após a formatura em dezembro de 1966?
Após o curso na USP, voltei para o Rio de Janeiro e fui trabalhar na fundição no Arsenal de Marinha. Na Escola Politécnica tivemos um bom curso de programação e controle de produção. Eu via
claramente que o Arsenal produzia bens sem valor agregado - como barras para transformar em vergalhões para a construção civil - e competia com a indústria siderúrgica sem ganhar dinheiro algum. Propus então mudar essa linha, aproveitando quadros qualificados que já trabalhavam lá, mas que eram subaproveitados.
Eu tinha vinte e oito anos, mas, por ser militar, chefiava engenheiros que haviam sido grandes mestres para mim. Na época nossa indústria era incipiente, e tínhamos recursos muito bons. O que nós fizemos foi começar a usar esses recursos.
Foi uma fase muito ativa do Arsenal, que estava parado desde o pós-guerra. Gerávamos os recursos que depois alimentavam a própria operação. Temos ali um parque industrial fabuloso, e vejo que hoje está novamente parado, por causa do regime estatutário.
O interesse não planejado pela engenharia nuclear
Como surgiu a ideia de estudar energia nuclear no exterior?
Em determinado momento fui confrontado por duas opções: ir para a comissão de construção de fragatas na Inglaterra – área em que eu trabalhava no Brasil - ou fazer a pós-graduação em Monterey, que eu preferia. Havia, no entanto, um colega de turma que tinha sido mandado para Belém do Pará pelo chefe de departamento da produção por ter pedido seis meses de licença-prêmio. Esse colega era primo do diretor de pessoal. O chefe de departamento, que o havia enviado para Belém, decidiu fazer um agrado ao diretor do pessoal: passou esse colega de turma na minha frente e o mandou para Monterey, dizendo que eu tinha preferido ir para a Inglaterra. Isso foi em 1973. O diretor de pessoal então me garantiu que ninguém que trabalhasse com ele seria prejudicado; disse-me que um ano não fazia diferença – ele achava que seria nomeado ministro na virada de governo – e que eu poderia escolher a escola e o curso que quisesse. Concluí que se fizesse o curso chegaria no máximo a chefe de departamento – posição que eu já ocupava. Poderia procurar outra área.
Um fato decisivo foi a visita do vice-presidente, general Adalberto,183 ao AMRJ. Fui encarregado de fazer uma apresentação sobre a construção de fragatas. Fui à Escola de Engenharia Naval, peguei uns textos de forma de emprego e cheguei à conclusão, já naquela época, de que o valor da fragata
era extremamente limitado em um mundo com satélites, onde o submarino era mais importante. Claro que não disse isso na apresentação. Por outro lado, pensei que o futuro da Marinha estaria na
engenharia nuclear. É preferível estar na vanguarda de alguma coisa.
Procurei o diretor do Arsenal da época e disse-lhe que gostaria de ir para a energia nuclear. Ele disse que eu “ia me atrapalhar”, que um oficial já havia estudado física nuclear e, quando voltou, não havia campo para ele na Marinha. Tratava-se de José Carlos de Almeida Azevedo,184 que depois foi reitor da UnB. Argumentei que eu estudaria engenharia nuclear e não física, mas para ele era ‘tudo a mesma porcaria’. Falei para o almirante que se não houvesse campo eu o criaria; faríamos ali o campo.
O senhor já sabia que o governo Geisel185 tinha um projeto de desenvolvimento da área nuclear quando se candidatou ao MIT?
Naquela época, o presidente da República assinava todas as idas de oficiais para o exterior, era muito centralizado. Lembro que o Geisel em princípio não autorizou minha ida, por medo de que isso atrapalhasse o programa nuclear brasileiro. Eu mesmo redigi a justificativa: argumentei que
desconhecíamos o impacto que poderia ter a vinda de fora de navios de propulsão nuclear. Faltava alguém especializado, inclusive para assessorar a Marinha sobre onde os navios poderiam ser colocados, entre outras questões. Ele então aprovou minha ida para o MIT.
Visões sobre o programa nuclear brasileiro
A partir de 1975, os EUA fizeram pressão para que a Alemanha Ocidental não transferisse tecnologia considerada sensível a outros países. Isso de alguma maneira influenciou as suas atividades no MIT?
Não. No entanto, influenciou a mim mesmo, pois o Brasil aceitara uma tecnologia que não servia para nada em termos de enriquecimento.
Tive aula com o professor Manson Benedict,186 um dos ícones da área nuclear do mundo. Ao dar aula sobre o jet-nozzle, ele botou as equações todas no quadro e falou que os brasileiros haviam acreditado e comprado aquilo.
Como se justifica a opção pelo jet-nozzle?
O Brasil tinha solicitado inicialmente a transferência de tecnologia por centrifugação, que foi prometida pelos alemães. Acho que foi um golpe comercial em que o pessoal aqui quis cair. A
Nuclebrás já tinha sido criada, as chefias já haviam sido atribuídas quando os alemães disseram que os holandeses da Urenco não concordavam. Por que os holandeses? Porque tinham pouco comércio com o Brasil. Mas havia um professor, Becker,187 que poderia desenvolver um projeto conjunto. Um pouco de análise demonstraria que o método era absurdo. A difusão gasosa, usada pela França, já gasta muita energia; o jet-nozzle gastaria muito mais. Quer dizer, era uma maluquice!
26 centrais, e depois a quatorze, depois a oito. Chegaram a fazer um convênio para quatro centrais, e no fim fecharam em duas.
Por que o presidente Geisel assinou um acordo com essas bases? Ele teria sido influenciado pelos problemas decorrentes de Angra 1?
Angra 1 foi decidida no governo Costa e Silva.188 A comunidade científica queria reatores a água pesada e urânio natural. Mas houve muita pressão dos americanos para que se aceitasse a tecnologia de PWR. Com o reator PWR é literalmente impossível se fazer uma bomba. Há épocas determinadas para abrir o reator, e o plutônio produzido não permite a construção de uma bomba, não é weapons
grade. Houve muita pressão, além de ter sido prometido suprimento de combustível a preço fixo por
30 anos. Pouco depois a garantia de fornecimento foi interrompida.
A tecnologia das centrais nucleares é demandante e estrategicamente valiosa, mas o custo de investimento é muito baixo. Eu tinha certeza disso porque em uma conferência no MIT o professor Hastings, que foi assessor do presidente Carter,189 afirmou que o problema de se instalar centrais nucleares em países em desenvolvimento é que o investimento é muito baixo e eles podem ser estimulados a ter o ciclo também – o que é verdade.
A Marinha tinha algum projeto de tecnologia nuclear quando o senhor foi estudar no MIT?
Ninguém falava sobre a possibilidade de o Brasil algum dia desenvolver um submarino de propulsão nuclear. O programa nuclear da Marinha ainda não existia. Mas o mundo tinha mudado e a Marinha tinha que mudar, pois até aquela época o submarino não era considerado um meio de defesa. Mais tarde soube que tinha havido um contato com a Nuclebrás, mas os alemães não tinham propulsão nuclear; foi apenas estratégia da Alemanha para estimular a venda, não houve nada de mais sério.
De que forma a sua estada no MIT e a exposição do professor Benedict influenciaram a concepção das ultracentrífugas?
O comentário do professor Benedict me intrigou. Quando chegasse ao Brasil me perguntariam sobre o método: eu ia dizer que era uma porcaria e teria o dever de dizer qual seria a solução. Àquela época eu começava a me preocupar com ultracentrífugas. Foi enquanto estava no MIT que concebi a ultracentrífuga.
Uma vez, em uma dessas comissões internacionais americanas, perguntaram-me de onde eu havia copiado a ultracentrífuga. Não copiei de lugar nenhum, mas confesso que me inspirei em um projeto americano apresentado em um seminário realizado toda segunda-feira no MIT. A concepção do sistema de sustentação das centrífugas também me ocorreu em outra palestra. Ao responder a uma pergunta da plateia, o palestrante mencionou um sistema de sustentação diferente desenvolvido pela Nasa. Um mês depois uma revista chamada Technology Review publicou um artigo sobre o
desenvolvimento da sustentação magnética ativa para a Nasa. Eu falei: então é aqui.
Como foi o retorno do MIT, e de que forma seus estudos foram incorporados às atividades da Marinha?
Ao voltar ao Brasil, apresentei-me ao almirante Maximiano da Fonseca,190 que cuidava da área de material da Marinha, um homem de uma visão enorme. Perguntou-me quais eram as nossas
possibilidades de desenvolver a propulsão nuclear. Informei-o apenas de que já havia no país uma iniciativa de domínio do ciclo, levada a acabo pelo coronel Amarante,191 da Aeronáutica. Como ele solicitou um relatório, pedi três meses de prazo. O documento final, elaborado em 1978, e percorreu a Marinha. Fui chamado a Brasília para dar mais esclarecimentos, e, na ocasião, encontrei com o comandante Didier, que também tinha formação nuclear - inclusive o reator Argonauta do IEN, da UFR, foi feito na sua empresa.
Quis o destino que o almirante Maximiano me fizesse aquela pergunta. Ninguém nos venderia
combustível para submarino, nós teríamos que produzi-lo. O jet-nozzle não ia dar certo – mesmo que desse, as salvaguardas do acordo proibiam o uso militar do urânio enriquecido, eram mais restritas do que as do TNP. A única solução era viabilizar o ciclo do combustível com tecnologia
independente. O almirante acreditou nessa ideia.
Origem do programa paralelo: o papel da Força Aérea
Em março de 1979, nasce um projeto paralelo com o objetivo de viabilizar o domínio do ciclo do combustível e desenvolver o submarino com propulsão nuclear. O senhor poderia comentar sobre o início do programa paralelo, também chamado de autônomo?
O programa nuclear da Marinha teve início em 8 de março de 1979. No entanto, o programa paralelo teve início em 1977, com o tenente-coronel José Alberto Albano do Amarante, da Força Aérea. Amarante era doutor em física, e, naquela época, havia muita expectativa de enriquecer urânio
usando laser. Ouvi seu nome pela primeira vez em um seminário no MIT, onde o palestrante afirmou que havia sinais de que países em desenvolvimento, entre eles o Brasil, estavam trabalhando nesse método. Escrevi uma carta para a Unicamp que desenvolvia o programa, mas eles responderam que não podiam fornecer informações por se tratar de um projeto confidencial realizado junto com a Força Aérea. Até então não havia cooperação entre Força Aérea e Marinha na área nuclear.
Na época havia muitos brasileiros cursando engenharia e física no MIT. Em um almoço com vários brasileiros, comentei com o José Galvão, de Campinas, que tinha ouvido falar do projeto de
separação de isótopos a laser. Ele disse que o comandante Amarante, da Força Aérea, havia convencido o general Geisel de que era necessário ter uma alternativa ao jet-nozzle. Foi tão convincente que conseguiu a permissão para começar um programa “paralelo” ao da Nuclebrás, única instituição que poderia trabalhar na área nuclear.
Como o coronel Amarante convenceu Geisel?
Foi durante uma palestra. Amarante também convenceu o presidente Geisel da necessidade, para o programa de enriquecimento, de se produzir hexafluoreto de urânio no país. Isso seria feito em escala laboratorial no Ipen, sob a coordenação do químico Dr. Alcídio Abrão.192
Como se deu sua ida para o CTA?
Eu era favorável a que verificássemos se o programa da Força Aérea realmente funcionava a fim de concentrar esforços em vez de abrir uma nova frente. Os almirantes e os engenheiros na época eram todos contra, e uma forma de eu ficar livre da burocracia naval foi me mandar para a Força Aérea, onde eu teria liberdade. O almirante Maximiniano então negociou com a Força Aérea para que eu fosse para lá avaliar os dados do programa de enriquecimento. Iniciei minhas atividades em São José dos Campos em março de 1979. O programa, portanto, não tem relação direta com a guerra Irã-
Iraque, tampouco com o segundo choque do petróleo.
Consultei físicos como Sérgio Porto,193 Spero Penha Morato194 e Artemio Scalabrin195, ou seja, aqueles que conheciam laser. Fiz uma tabela e cheguei à conclusão de que, se tudo funcionasse bem, seria possível produzir dois microgramas de urânio enriquecido por ano, o que era muito pouco. Em outro relatório que fiz para a Marinha, afirmei que existia a possibilidade de um breakthrough, um salto, mas que não podíamos contar com o urânio enriquecido por laser em um horizonte de vinte anos.
Existia no CTA outro coronel, chamado José Roberto Scheer,196 que eu pensei que era amigo do Amarante. Comentei com ele que eu estava preocupado que o laser fosse um segundo fiasco depois do jet-nozzle. Propus que ele convencesse o Amarante a dar um intervalo de tempo para comprovar o método em laboratório antes de construir a planta piloto. Houve um jantar ao qual compareceu uma delegação do Conselho de Segurança, liderado pelo então coronel Sampaio Maia.197 Scheer
comentou aquilo com Sampaio Maia, que me perguntou se eu achava que não ia dar certo. Eu disse que a planta piloto não deveria ser feita naquele momento e que era favorável a seguir com a
pesquisa, pois a equipe era muito competente. O coronel pediu que eu lhe entregasse meu estudo; sugeri que eles pedissem a um civil em quem eles confiassem, e a quem eu passaria os dados, que fizesse uma avaliação do programa de enriquecimento a laser. Uma semana depois, o Cerqueira, que era oficial de Marinha que servia no Conselho de Segurança, ligou para mim e perguntou se eu
conhecia o doutor Rex Nazaré. Como eu tinha ido para os Estados Unidos e não conhecia quase
ninguém, telefonei para o Custódio Carvalho Alves,198 da Cnen, e perguntei se ele conhecia o doutor Rex. Ele falou que Rex era uma pessoa muito séria, um nacionalista. Rex seria então um assessor civil do Conselho, o que evitava a rivalidade entre forças diferentes.
Propus que começássemos o desenvolvimento das centrífugas junto com o Amarante. Ele concordou que começássemos a desenvolver centrífugas a quatro mãos. Eu continuaria lá mais um bocado e seria o gerente de centrífuga.
Qual era o seu grau de autonomia para conduzir o programa paralelo?
O Maximiniano afirmou que eu não conseguiria desenvolver nada se não criasse uma estrutura independente. Essa foi uma das razões pelas quais ele me mandou para a Força Aérea. A Força Aérea não mandaria em mim porque eu era da Marinha, e a Marinha tampouco mandaria em mm porque eu estava na Força Aérea. Quem mandava em mim era o almirante Maximiano, que no governo Figueiredo199 se tornou ministro da Marinha. Na época do Geisel, era o CTA que tinha a
permissão de conduzir o programa. Fiz um convênio entre a Marinha e a Aeronáutica, que permitiu que começássemos a trabalhar no Ipen. Mais tarde, a Marinha fez um convênio próprio com o instituto.
Qual era a posição dos outros almirantes e engenheiros da Marinha?
Eram contrários ao programa nuclear, achavam que era um projeto lunático. Simplesmente não acreditavam nas possibilidades.
Segundo Rex Nazaré, a alternativa institucional que permitiu resolver a discussão entre Marinha, Aeronáutica e a comunidade científica foi localizar o programa paralelo na Secretaria Geral de Conselho de Segurança Nacional, com o general Danilo Venturini.200 O senhor concorda com essa visão?
Não. Todas as decisões relativas ao programa nuclear eram tomadas em nível presidencial. No governo Figueiredo, o Venturini deu continuidade ao que já tinha sido definido. O programa paralelo teve início no governo Geisel, com o Amarante. O convênio entre CTA e Ipen data de 1977.
O desenvolvimento desse trabalho conjunto entre Marinha e Aeronáutica se justificava pelo interesse de ambas as forças na propulsão nuclear?
Nosso interesse conjunto era o enriquecimento. Para a Marinha, interessava por causa da propulsão. Para o outro lado eu nunca perguntei.
Nós iniciamos em 1978, mas com a ideia do programa claramente definida. Perdemos uns três meses porque queriam que eu dissesse aos pesquisadores que a propulsão nuclear, nosso objetivo desde o início, era para a Marinha Mercante. Falei que não poderia enganar os meus pesquisadores e que não havia nada de errado em dizer que a propulsão nuclear se destinava ao submarino, porque o país precisa de defesa, e a defesa é fundamental para uma sociedade.
O programa paralelo no Ipen e a relação com o governo de São Paulo
A transformação do Instituto de Energia Atômica em Ipen e a vinculação às Secretarias de Indústria e Comércio e Tecnologia de São Paulo atendiam à necessidade de autonomia do programa?
Não, pois o Ipen era federal. O presidente da Cnen, Hervásio de Carvalho,201 não acreditava no desenvolvimento do programa brasileiro. O Pieroni202 e ele não se davam bem. O dr. Pieroni
convenceu o governador de São Paulo, Paulo Egydio,203 a abrigar o projeto no Ipen, único instituto nuclear não salvaguardado. A Nuclebrás também não se opôs, pois só acreditava na pesquisa alemã. E, como precisava de permissão da Cnen, tinham dois funcionários da Cnen que assistiam o
Conselho Diretor. Essa foi a maneira de a Marinha entrar: fazer um convênio com a Aeronáutica para trabalhar no Ipen. Foi a maneira que nós encontramos.