4. As versões do passado-presente: a Catingueira e o Catingueira
4.3. O “ouro branco”
“Na época de Inácio, o que era mais forte, a agricultura ou a pecuária?”, o entrevistador dirige-se ao artesão-poeta. E a resposta:
Agricultura, agricultura. Existe, a pecuária é forte, mas naquela época a questão da... da... O algodão era o ouro daqui. Você aqui, hoje se você for em Patos, ali onde é o shopping, o shopping center, ali era uma grande usina. Aí você vê hoje onde era as (lojas) Americanas, em outro prédio, era uma usina.
Os galpões ainda estão do mesmo jeito. (LUCENA, 2022)
Em outro momento da entrevista, anterior, Beto já havia afirmado:
Catingueira, o comércio, o mais forte mesmo... É a agricultura. Já passou a época do algodão, mas ainda hoje tem a agricultura de milho, feijão, essas coisas... [...] Os ribeirinhos aqui hoje tá produzindo mamão, melão, melancia, essas coisas aí. Então tá voltado mais pra isso. E também aqui a questão do comércio da cidade mesmo.
Catingueira chegou a produzir algodão. Era o ouro branco do sertão, né. Era conhecido aqui como ouro branco. Mas isso aí foi se acabando, né... Também com a questão do bicudo, né. Acho que ninguém se interessou pra combater, né. Tentou-se o algodão colorido, né, mas pra gente aqui é muito pouco.
Acabou, vou lhe dizer aqui, acho que até a década de 90... Eu alcancei aqui.
A época do algodão aqui, de 90 pra 93. De lá pra cá, teve uma queda brusca.
Despencou e hoje pode se dizer que chegou a zero. (LUCENA, 2022)
O depoimento de Beto reforça um trecho da fala do professor Roberto Gomes, exposto na primeira subseção (“A pecuária, ao contrário do que se acha, não era forte não.”). E quanto à decadência do algodão, depois dessa cultura atravessar todo o século XX, os discursos de
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ambos se coadunam (“A agricultura até hoje é de subsistência, não tem uma produção assim, por exemplo, de grande escala, não.”).
Apesar da pecuária ter sido a alavanca do processo de fixação colonial nos territórios do sertão nordestino, viu-se também no primeiro capítulo desta pesquisa que as agriculturas de subsistência foram instaladas como cadeias produtivas subordinadas às propriedades senhoriais (em geral, fazendas de criatório bovino). Contudo, na Paraíba, a pecuária se instalou mais fortemente no agreste, permitindo a migração de alguns produtores alimentícios sertanejos para a produção algodoeira, voltada em grande medida para a exportação e para o abastecimento da indústria têxtil regional nordestina – movimento similar ocorreu com produtores de tabaco, na Bahia.
Mesmo com esses apontamentos através das oralidades, é mais provável que Inácio tenha sido mesmo um trabalhador cativo com atribuições típicas de um funcionário de curral (vaqueiro e/ou fábrica), e não da produção algodoeira, uma vez que, conforme registrado no capítulo 1, o Sítio Marrecas, na qual era cativo, foi uma unidade de produção de criatório bovino – além do que, não há registro de que Inácio, do começo da vida laboral até a morte de seu primeiro senhor, Manoel Luiz, e depois tendo sido herdado duas vezes por descendentes dessa família, haja trabalhado em outra fazenda ou sítio. Paralelamente, o escravizado-poeta deve ter mantido um roçado nas imediações da fazenda, dado que sua família (irmãs, irmãos e mãe, todos nascidos/as antes da Lei do Ventre Livre) vivia consigo em Catingueira – e, como se viu também no capítulo 1, para baratear os custos com a escravaria, permitia-se por vezes que famílias escravizadas tivessem terreno para plantar gêneros alimentícios e se auto prover – e, sobretudo, porque em uma das estrofes da famosa peleja com Romano do Teixeira, ele cria tais versos: Seu Romano inda não viu / O tamanho do meu roçado / Grita-se aqui num aceiro / Ninguém ouve do outro lado / Eu faço coisa dormindo / Que outro não faz acordado / O que o sinhô fizé em pé / Eu faço mesmo deitado (Cf. Anexos).
De acordo com o sítio eletrônico de abrangência nacional Caravela,9 especializado em dados e estatísticas de indicadores socioeconômicos, a agropecuária catingueirense contribui com apenas 7,4% do PIB municipal de cerca de 45,3 milhões. Já a área de serviços colabora com 21, 6%, demonstrando a tradição longeva – mais de dois séculos – de Catingueira como
9 Catingueira – PB. In: Caravela Dados e Estatística, s./d. Disponível em:
https://www.caravela.info/regional/catingueira---pb#:~:text=Do%20total%20de%20trabalhadores%2C%20as,varejista%20de%20minimercados%20(8). Acesso em: 13/11/2022.
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um local de passagem e, portanto, de transporte de cargas e demais prestações de serviços no comércio. Diz o relatório atualizado da empresa, sobre os setores de sua economia: “Dentro de sua área de influência, a cidade atrai maior parte dos visitantes para logística de transportes”.
Logo, mesmo depois de 68 anos de sua emancipação, em 1954, tornando-a município, o que proporcionou uma guinada em termos político-administrativos e econômico (com a administração pública sendo o setor responsável por 60,9% da riqueza local produzida, conforme o relatório eletrônico da Caravela), os ramos de distribuição e fornecimento, embora bem abaixo do que mais contribui, fazem jus à cultura de uma população tradicionalmente familiarizada com trabalhos que demandem locomoção de gente, cargas e trocas com agentes comerciais das proximidades.
O professor Plauto elabora seu exercício de contextualização a respeito das transformações por que passou esse comércio entre Catingueira e os demais municípios da microrregião sertaneja.
A BR-361, né, que corta a cidade de Catingueira de uma ponta a outra... Então, hoje não se tem mais esse fluxo da economia girar em torno dessa atividade, é uma movimentação extinta, mexer com gado, essas coisas. Mas hoje a economia de Catingueira gira em torno dos comércios, da Prefeitura, do Estado... E a agricultura também, mas hoje se tem mais aquela agricultura voltada para a agricultura familiar. Na época do algodão, minha avó conta, dizem os mais velhos, que se plantava muito algodão para se abastecer as fábricas de tecelagem, principalmente em Patos, que era a cidade beneficiada pelo algodão e beneficiava o algodão. Então se plantava muito algodão, se gerava em torno do algodão e do milho. É tanto que no brasão da cidade de Catingueira, existe um... Do algodão, e outro do milho. O milho eu acho que significa a agricultura, né, que sustentava as famílias, né, e os fazendeiros da época. Então hoje a principal fonte de economia da cidade de Catingueira são o comércio, o município, o Estado, essas coisas. São poucos comércios e poucas empresas, na verdade, porque não investem mais, porque Catingueira fica entre esses dois polos, né, Patos e Piancó, Itaporanga... E aí com o comércio bem diversificado, né. Mas estagnado. (MARTINS, 2022)
Há uma complementaridade entre os trechos transcritos de Plauto e o de Beto. Agora se entende melhor porque o artesão e poeta citou as usinas de Patos, ao querer exemplificar a relevância da cultura do “ouro branco” em Catingueira. Os produtores de algodão local negociavam a matéria-prima, segundo o professor, majoritariamente com Patos, onde lá os proprietários industriais recebiam o insumo no intuito de, nas chamadas usinas de beneficiamento de algodão, gerarem mercadorias ao setor comercial têxtil (inclusive podendo revendê-las, agora com maior valor agregado, ao comércio catingueirense). Um movimento em cadeia: agricultura-transporte/logística-indústria-transporte/logística-comércio.
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Nota-se também, a exemplo das outras fontes orais entrevistadas, a alocação da atividade pecuária e algodoeira no passado. Plauto afirma que “mexer com gado” é uma atividade “extinta”. De certo que se pode entender de duas formas: uma é que não se leva mais uma boiada de dezenas ou centenas de gado para ser transportada até as cidades, marchando em direção aos pontos principais de comércio; outra, é o fim da produção pecuária e até mesmo do próprio comércio de carne bovina em trânsito por Catingueira. Acredita-se que o professor se referiu à primeira circunstância.
A mensagem do professor de matemática Roberto Gomes alcança todos os aspectos até aqui analisados nesta subseção, ratificando o surgimento do bicudo-do-algodoeiro10 (Anthonomus grandis) nas plantações daquele sertão paraibano como o causador da erradicação dessa cultura ao menos em Catingueira, refletindo assim na improdutividade e ociosidade de terras, desemprego, queda na renda per capita e nas receitas do município.
O que que acontece? Aqui a grande produção da agricultura, é muito comum o milho e o algodão. A criação... Por exemplo, a criação caprina e bovina não era muito grande não. Porque é um período... Que não chove, chove muito pouco aqui, e a alimentação ficava escassa, né. E ainda hoje fica. Aí, mas...
No período de chuvas tinha uma grande produção de algodão, não se já ouviu falar, o algodão branco... E o milho. Dava-se muito o milho aqui. Infelizmente apareceu uma praga chamada bicudo, que teve uma devastação grande e tudo o que o pessoal plantava não dava, entendeu? Não sei se era um mosquito, se era um besouro, aí danificava a plantação. Tinha-se até um projeto aqui da Prefeitura, não lembro qual foi o ano, pra plantar o algodão colorido... Do Governo do Estado. Mas não... Que eu saiba, não... Pode até ter em alguma localidade, mas isso é muito pouco. Essa produção... Sempre tinha um comprador aqui, chamado atravessador, né, eles compravam a produção aqui e levavam pra outros estados. Daí eles aíam e vendiam pra outros estados.
Existia uma grande produção, a população daqui vivia em função disso. As pessoas trabalhavam nas grandes propriedades... A gente tem um sítio aqui e
10 Em documento técnico de 2016 da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, assinado pela engenheira agrônoma Dalva Gabriel, intitulado Bicudo do Algodoeiro, afirma-se que: “A associação do bicudo com o algodoeiro cultivado se deu em 1855, quando o inseto foi encontrado causando danos a algodoais próximos a Monclova, Estado de Coahuila, no México (HOWARD, 1894). No Brasil, foi observado, pela primeira vez, em fevereiro de 1983, na região de Campinas, estado de São Paulo (BARBOSA et al., 1986).” (...) “(...) a praga mais importante do algodoeiro é o bicudo. Trata-se de uma praga de grande importância econômica, devido a sua rápida capacidade reprodutiva e de destruição. Os níveis de infestação crescem rapidamente e os prejuízos podem atingir até 100% da produção, caso as medidas de controle não forem adequadas. O bicudo representa um grande potencial de dano para o algodoeiro, devendo ser considerado a praga-chave no planejamento e controle
dos insetos nocivos à cultura” (p. 2) Disponível em:
http://www.biologico.sp.gov.br/uploads/docs/dt/bicudo_algodoeiro.pdf. Acesso em: 15/11/2022.
Lira Neto (2020) acena para “A relevância de se pesquisar sobre a praga do bicudo na Paraíba” (p. 5). Justifica-se, pois, “pelo fato do surgimento da referida praga no Nordeste ter se dado primeiramente no referido estado no município de Ingá.” (p. 5). Costa (1996) reflete que a mesma foi “o golpe final contra a tradição algodoeira nordestina”. Para ambos os textos, as referências: LIRA NETO, José Batista de. O bicudo em Ingá-PB : a história da chegada da praga do bicudo no Nordeste Brasileiro (1983) / José Batista de Lira Neto. - 2020.; e COSTA, José Jonas Duarte da. A crise do sistema de produção algodoeiro paraibano (uma análise das causas). Dissertação (Mestrado em Economia). Campina Grande, PB: UFPB, 1996.
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eu ainda alcancei meu pai plantando algodão, ele colheu algodão. Se não tiver enganado, foi em... setenta e... 79, 81, até os anos de 80, a gente tinha plantação de algodão. 91, 93, até a década de 90. Porque aqui a gente teve uma seca grande em 93, que não ficou nada, sabe. Até as árvores, morreu tudo, os animais... Passou o ano todinho sem chover. Foi no ano de 93.
Os estados eu não sei informar, mas vinha um senhor de Patos, que ele tinha um local aqui e comprava a produção. Daí ele levava para outros locais.
(GOMES, 2022)
O antropólogo Antônio Martins cita a relevância do algodão, mas “de passagem” em seu depoimento, apenas apontando, tal qual as outras fontes orais, a cultura do “ouro branco”
como um dos motivos para também se estabelecer trocas com as cidades vizinhas do sertão de Piancó – para logo retornar à história das boiadas e do ponto comercial, iniciativa dos fazendeiros, que se tornaria a então vila.