2. LOUIS MASSIGNON: uma nova mirada
2.5 OUSADA GENEROSIDADE
[...] Ninguém quer amar, ninguém busca compreender, ninguém quer perdoar [...]461
Louis Massignon reencontrou sua fé cristã na terra do Islã. Como escreve Borrmans, “[...] um cristão curiosamente ligado e transformado pelo mistério da compaixão universal e pela substituição redentora. [...] Não sendo nem teólogo nem exegeta, Louis Massignon se deixou guiar por suas intuições espirituais e pelas sugestões do Espírito de Deus”. De acordo com ele, o “desafio místico” para os cristãos é a crença na sinceridade do Profeta Mohammad e a lembrança de que o Islã também possui santos.462
457
MASSIGNON ET GANDHI: la contagion de la vérité, p.40-43.
458
Ibid., p.111.
459
Ibid., p.149-150. Párias ou intocáveis não pertencem à casta alguma e são desprezados pelas outras.
460
Ibid., p.121.
461
MASSIGNON, Louis. L’Hospitalité sacrée, p. 300. Textes inédits présentés par Jacques Keryell. Paris: Nouvelle Cité, 1987.
462
BORRMANS, Maurice. Prophètes du dialogue islamo-chrétien : Louis Massignon, Jean Mohammed Abd-el- Jalil, Louis Gardet, Georges C. Anawati, p. 27-28, 33.
A sua maneira de pensar e o desejo de “manifestar” o Cristo no Islã, a exemplo do grande amigo Charles de Foucauld, se manteria na Badaliya. Fazer-se um “badaliyano” é tornar-se um Abdāl, um santo, um intercessor “cujo poder de intercessão é adquirido, merecido pelo sofrimento”.463 Assim, o testemunho supremo do santo realiza-se
superando os equívocos e as ambivalências, atravessando de frente o medo, o perigo, a dúvida, a pior tentação [...], pois não é senão através do sofrimento mortal da prova desejada que ele pode aceder à União com o Um, à Essência divina, desarmada, solitária, nua.464
Frei Jean-Jacques Pérennès pontua que a generosidade era a marca com que o orientalista dava o tom em seu diálogo com o outro. Afirma que alguns o consideravam ousado demais, indo muito longe, principalmente no plano teológico com relação ao Islã.465 Massignon escrevera que o “Islã é antes de tudo, testemunho (shahâda) expressando adoração do Deus único de Abraão, do Misericordioso”.466
O islamólogo considerava que a incursão e o crescimento dos muçulmanos em terras cristãs e a submissão destas, foi benéfica para a Igreja, que encontrou fontes renovadas na liturgia, no martirológio e na fundação de Ordens Religiosas. Cita, por exemplo, os Mercedários. Estes faziam um 4º voto pela redenção dos cativos dos Sarracenos. Este voto os obrigava a servir como escravos no lugar daqueles que eles não podiam redimir de outra maneira.467 É um ato de Badaliya.
Massignon morre na noite de 31 para 1º de novembro de 1962, dia de Todos os Santos. Seu pensamento exerceu um grande influxo na opinião pública cristã, mesmo antes do Concílio Vaticano II (1962-1965), possibilitando que muitos cristãos fossem levados a “revisitar evangelicamente a experiência religiosa dos muçulmanos”.468
Observa Basetti-Sani que Massignon
463
DESTREMAU, Christian; MONCELON, Jean. Louis Massignon, p. 502, nota 3 do capítulo 12. ROCALVE, Pierre. Louis Massignon et l’Islam, p. 65.
464
MASSIGNON, Louis. La passion de Husayn ibn Mansûr Hallâj : martyr mystique de l’Islam exécuté à Bagdad le 26 mars 922. Tome I: La vie de Hallâj. Préface de la nouvelle édition, p. 28. Paris: Gallimard, 1975.
465
PÉRENNÈS, Jean-Jacques. Portrait de Louis Massignon, pionnier du dialogue islamo-chrétien. Œuvre
d’Orient, n. 769, oct-nov-déc 2012, p. 727-732. Disponível em:
<http://louismassignon.org/uploads/articles/JJPerennes.pdf>. Acesso em: 16/10/13. Artigo publicado em 2012 por ocasião dos cinquenta anos da morte de Louis Massignon.
466
MASSIGNON, Louis. Écrits mémorables, v. I, p. 387.
467
Id. Les trois prières d’Abraham, p. 114-115.
468
BORRMANS, Maurice. Prophètes du dialogue islamo-chrétien : Louis Massignon, Jean Mohammed Abd-el- Jalil, Louis Gardet, Georges C. Anawati, p. 15.
[...] permanece ainda presente e vivo na recordação de quantos o conheceram. Cristão fiel à sua vocação de “mestre e intelectual” – como leigo, primeiro, durante quarenta anos e como “sacerdote pelo Islã” nos últimos doze anos de sua vida – ele deixou para a Igreja do século XX um exemplo insigne e riquíssimo de santidade e doutrina.469
Seguindo o espírito de São Francisco de Assis e de Charles de Foucauld, Louis Massignon não descansou em seu trabalho pela paz e pela compreensão fraterna entre as pessoas, principalmente entre cristãos e muçulmanos. Sua voz pode ser ouvida, ainda hoje, através de seus inúmeros escritos que disto dão testemunho.
O professor da Sorbonne realizou uma leitura “muito generosa”470 do lugar do Islã no desígnio salvífico de Deus. A partir de seu estudo sobre Ismael, filho de Abraão e a escrava Agar, ele acentua a participação dos muçulmanos na Promessa de Deus ao Patriarca, mas, com uma condição singular: a de “expatriados espirituais”.471
Através da sua tese de doutorado, o orientalista descobriu em profundidade a mística muçulmana, o que lhe possibilitou vislumbrar ali a abertura singular do Islã para um diálogo com o Cristianismo, onde a perspectiva maior é a do amor.472
Massignon abre novo horizonte para que o Islã seja visto com simpatia, fazendo notar que compreendê-lo significa “colocar-se em seu eixo” e estar disponível a um “certo descentramento”. Não há ingenuidade nessas reflexões, ao contrário, foram amadurecidas pela vasta cultura do jovem orientalista e através da sua vivência concreta.
O seu trabalho não ficou isento de críticas. Estas vinham de alguns muçulmanos que diziam ser Massignon um “missionário camuflado” e entre alguns cristãos que diziam ser ele um traidor da Europa e da cristandade “por amor ao Islã e à língua árabe”.473
Edward Said assinala que:
Nenhum erudito, nem mesmo um Massignon, pode resistir às pressões de sua nação ou da tradição erudita em que trabalha. Em grande parte do que dizia sobre o Oriente e sobre sua relação com o Ocidente, Massignon parecia refinar, e ainda assim, repetir as idéias de outros orientalistas franceses.474
469
BASETTI-SANI, Giulio. Louis Massignon orientalista cristiano, p. 123.
470
De acordo com PÉRENNÈS, essa “leitura generosa” foi provocada pelas circunstâncias de sua conversão e sua familiaridade com a mística muçulmana. PÉRENNÈS, Jean-Jacques. Portrait de Louis Massignon, pionnier du dialogue islamo-chrétien.
471
Id. Ibid.
472
TEIXEIRA, Faustino. Louis Massignon: a hospitalidade dialogal, p. 82.
473
DESTREMAU, Christian; MONCELON, Jean. Louis Massignon, p. 247-248.
474
SAID, Edward W. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente, p. 363. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 3ª reimpressão 2012. Destremau e Moncelon assinalam que Massignon “sabia ‘ver’ a alma de cada
Entretanto, o mesmo Said reconhece que os pontos de vista apresentados por Massignon – mesmo tendo uma visão rígida, como o autor afirma – não davam origem a “nenhuma hostilidade profunda” por parte do orientalista. Qualquer um que lesse Massignon, continua Said, ficaria impressionado pela “repetida insistência na necessidade de uma leitura complexa”, e não redutora, com relação ao Islã.475
Ao pesquisar o Islã e, principalmente, o místico muçulmano, o orientalista experimenta uma “metanóia”. Propõe e utiliza um método de “descentramento” com relação à aproximação do pesquisador ao objeto estudado. Analisa-o a partir de dentro, indo “ao coração mesmo do objeto de estudo”.476
Para Rocalve, seria difícil estudar a mística muçulmana do exterior e assim, Massignon adapta este método de interiorização em todos os seus estudos sobre o Islã. O que não o isentou de críticas, principalmente quando de suas análises políticas sobre o Oriente e o Ocidente. Muitos muçulmanos consideravam que o arqueólogo fazia uso de posições místicas no campo da política, em proveito desta.477
A influência do orientalista sobre aqueles que defenderam as reflexões com referência ao diálogo islamo-cristão no Concílio Vaticano II é uma contribuição incomensurável. Suas posições foram levadas, de muitas maneiras, aos diversos membros das Sessões por nomes como Louis Gardet, Georges Anawati, Jean-Mohammed Abd el-Jalil, só para citar alguns.
Quanto a Hallāj, a intenção de Louis Massignon ao tornar pública sua vida, foi a de “restituir” um modelo de uma “verdadeira virtude, uma chama heroica” presentes na vida do místico sufi, de “reconstituir sua doutrina do amor místico e do autêntico sacrifício”.478
Ele acreditava “ter assimilado” algo de muito precioso e o seu desejo era partilhar, com todos, o exemplo do místico muçulmano.
Ao finalizar um texto ou uma obra, a metodologia utilizada por Massignon, antes da publicação, era muito interessante. Ele mandava imprimir cópias limitadas, cujos exemplares
lugar”. No entanto, ele não era um “desenraizado”. Era de “toda a sua alma” profundamente francês. DESTREMAU, Christian; MONCELON, Jean. Louis Massignon, p. 13.
475
SAID, Edward W. Orientalismo: o Oriente como invenção do Ocidente, p. 360-361.
476
DESTREMAU, Christian; MONCELON, Jean. Louis Massignon, p. 44. Este método refere-se a uma verdadeira revolução no modelo tradicional do pensamento semelhante àquela provocada por Nicolau Copérnico, no século XVI, com a sua teoria heliocêntrica e levada a cabo por Kepler e Galileu. Para mais detalhes sobre a teoria cf. GLEISER, Marcelo. A dança do universo: dos mitos da criação ao Big-Bang, p. 94- 156. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
477
Sobre a “Revolução Copernicana” de Massignon ler mais em ROCALVE, Pierre. Louis Massignon et l’Islam, p. 99ss.
478
numerados ele enviava aos amigos para apreciação. Esta ideia, ele a tomou emprestado do amigo Paul Claudel. É um método de leitura crítica antes de editá-las.479
Mesmo durante a composição da tese, em notas sobre este período, o islamólogo cita uma série de problemas dos quais não se esquivou, como possíveis “barbarismos” na tradução, pleonasmos e lacunas na redação, afirmando que “todas as categorias de faltas materiais” aí se encontravam representadas, e abundantemente”.480
Concluindo
Como se pôde observar, as influências na vida de Louis Massignon foram muitas e determinantes para a elaboração de suas reflexões. Do amigo Charles de Foucauld, das relações de amizade com Huysmans, do místico sufi al-Hallāj, de Abraão a Gandhi e do encontro frequente com pessoas diversas e de várias espiritualidades, o orientalista absorveu e desenvolveu temáticas muito importantes para a família humana, como a compaixão, a substituição mística, a hospitalidade sagrada e a busca da verdade. Sobre esta última ele perguntava como se poderia
comunicar ao outro nossa convicção da verdade, quando o outro coloca sua honra em defender essa verdade travestindo-a com recursos à astúcia ou à violência, comprometendo-se mesmo a morrer por esse ideal desviado, por um voto corporativo, o qual ele não percebe que é nulo [...].481
Após o contato com o engajamento de Gandhi e a sua maneira de perceber a figura da mulher, Massignon, no prefácio à obra da amiga Camille Drevet, Gandhi et les femmes de l’Inde (Gandhi e as mulheres da Índia), assinala que “o ideal do casamento, o que dele faz um sacramento, é chegar juntos a uma união espiritual, passando pela união física destinada à procriação”.482
479
MASSIGNON, Daniel. Avant-propos, p. 14-15. In: MASSIGNON, Louis. Les trois prières d’Abraham.
480
MASSIGNON, Louis. Les trois prières d’Abraham, p. 384.
481
MASSIGNON, Louis. Écrits mémorables, v. II, p.817.
482
Préface à Gandhi et les femmes de l”inde de Camille Drevet, 1959. In: MASSIGNON, Louis. Écrits
mémorables, v. II, p.824. Camille Drevet (1881-1969) amiga de Louis Massignon ficara viúva quando da
Primeira Guerra Mundial. Lança-se em uma série de atividades feministas e caritativas. Torna-se secretária da Associação dos Amigos de Gandhi.
O professor da Sorbonne também foi bastante criticado e incompreendido por muitos, tanto cristãos quanto muçulmanos, por suas convicções com relação ao Islã e o lugar que este ocupava juntamente com o Cristianismo na história da salvação e por sua escolha em tornar- se sacerdote no rito oriental. Por isso mesmo continuava a oferecer-se em substituição mística por todos, sem exceção.
Enquanto o Islã, desfocado em sua face real pelos excessos do Islã político, provoca reações de medo, ainda hoje, no Ocidente, Louis Massignon é de grande auxílio ao permitir nova mirada sobre o Islã: o da sua “projeção espiritual”; eliminando pré-conceitos equivocados.
A visão interior do Islã ele também aprendera com Jean-Mohammed Ben Abd-el-Jalil. Religioso franciscano ainda pouco conhecido no Brasil. De origem marroquina, este muçulmano converteu-se ao catolicismo, tendo como padrinho o próprio Louis Massignon.