2. CRÍTICA À SUPREMACIA JUDICIAL: A PERSPECTIVA DA ÚLTIMA
3.5 DIÁLOGOS NA JURISDIÇÃO CONSTITUCIONAL BRASILEIRA
3.5.1 O diálogo interinstitucional entre o Supremo Tribunal Federal e o Congresso
3.5.1.3 Outras formas de diálogos interinstitucionais
Na dinâmica das relações entre Supremo Tribunal Federal e demais Poderes, vêm surgindo novas hipóteses de arranjos institucionais aptos a viabilizar a implementação de uma postura cooperativa e dialógica. No que diz respeito aos casos de omissão inconstitucional, exemplificativamente, pode-se compreender que a técnica de decisão de apelo ao legislador leva à atuação cooperativa, porquanto o Poder Judiciário reconhece a mora do Parlamento, e indica a necessidade de colmatação de lacunas. Os diálogos interinstitucionais podem, assim, servir como mais uma forma de tratamento da omissão inconstitucional, e da regulamentação normativa de um tema específico. Exemplo dessa dinâmica pode ser evidenciado no caso do aviso prévio proporcional ao tempo de serviço.
Ao examinar o Mandado de Injunção411 que discutia o tema, os ministros do Supremo Tribunal Federal se atentaram para o fato de que a simples declaração de mora do Poder Legislativo não teria o condão de materializar a força normativa da Constituição. Dessa forma, de maneira estratégica, e alterando posicionamento tradicional relativo à omissão legislativa em que apenas advertia o Congresso Nacional sobre a necessidade de regulamentar os dispositivos com eficácia limitada, a Corte engendrou uma decisão concreta. Entretanto, postergou o julgamento da demanda, a fim de desenvolver proposta de implementação adequada ao direito de aviso prévio proporcional ao tempo de serviço.
411 MI 943, Relator: Min. Gilmar Mendes, j.06.02.2013, DJ 02.05.2013.
Diante da sinalização, o Congresso Nacional, de forma célere, aprovou a Lei n.
12.506/2011 antes da devolução dos autos do processo para prosseguimento do julgamento no Supremo Tribunal Federal. Na rodada procedimental seguinte, a Corte prosseguiu no julgamento da matéria, aplicando os mesmos critérios definidos pelo Poder Legislativo aos mandados de injunção examinados, acolhendo o entendimento consolidado no Parlamento. Diante da clareza de suas premissas, é oportuna a transcrição da ementa do referido julgado:
1. Mandado de injunção. 2. Aviso prévio proporcional ao tempo de serviço.
Art. 7º, XXI, da Constituição Federal. 3. Ausência de regulamentação. 4.
Ação julgada procedente. 5. Indicação de adiamento com vistas a consolidar proposta conciliatória de concretização do direito ao aviso prévio proporcional. 6. Retomado o julgamento. 7. Advento da Lei 12.506/2011, que regulamentou o direito ao aviso prévio proporcional. 8. Aplicação judicial de parâmetros idênticos aos da referida legislação. 9. Autorização para que os ministros apliquem monocraticamente esse entendimento aos mandados de injunção pendentes de julgamento, desde que impetrados antes do advento da lei regulamentadora . 10. Mandado de injunção julgado procedente.
Durante as rodadas procedimentais, o Presidente da Câmara dos Deputados participou de reunião com Ministros do Supremo Tribunal Federal, em que restou alertado que uma manifestação judicial definitiva da Corte, no sentido de regulamentar a norma de eficácia limitada, poderia dificultar a votação da matéria no Congresso.
Quando das discussões, o Poder Judiciário auxiliou o Parlamento a retomar as negociações, anteriormente suspensas, com grupos de interesses, e a encorajar um acordo entre empresários e centrais sindicais, sobre a proposta apresentada412. Extrai-se disso que os diálogos institucionais podem se apresentar como uma forma efetiva e democrática de solução das questões atinentes à omissão inconstitucional no Brasil.
Outra forma de se desenvolver uma postura dialógica pelo Supremo Tribunal Federal restou evidenciada no julgamento envolvendo a dívida dos Estados, em que, inclusive, foi formada uma mesa de diálogo prévio, fato inédito na Corte. Em fevereiro de 2016, o Estado de Santa Catarina impetrou mandado de segurança no Supremo Tribunal Federal, questionando o método utilizado pelo Ministério da Fazenda, quando do recálculo da dívida pública do Estado catarinense com a União413. A petição inicial
412 CABRAL, Maria Clara; SELIGMAN, Felipe. Câmara e STF negociaram aviso prévio. Folha de São
Paulo, São Paulo, 23 set. 2011. Disponível em:
<http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mercado/me2309201103.htm>. Acesso em: 28.11.2016.
413 MS 34023, Rel. Min. Edson Fachin, em janeiro de 2017, pendente de exame de arguição de carência de interesse de agir, diante de acordo definitivo celebrado pelos Estados e União acerca das dívidas estaduais.
pugnava, em vez da utilização da taxa Selic capitalizada para calcular o montante da dívida, pela aplicação da Selic simples, adotada para atualização das dívidas cobradas no Poder Judiciário. Pretendia-se, com o mandamus, impedir que a União prosseguisse no propósito de obrigar Santa Catarina a firmar o refinanciamento da dívida, utilizando a taxa Selic capitalizada, além de evitar qualquer tipo de sanção pela União, como o bloqueio no repasse de recursos de origem federal, em razão da recusa da assinatura da nova avença.
Em abril de 2016, concedida a liminar em favor do impetrante, nos dias que se seguiram, outras 15 unidades da Federação também obtiveram provimento jurisdicional semelhante, circunstância que constrangeu o governo federal a construir um acordo geral com os Estados. Em exame ao pleito, decidiu o plenário do Supremo Tribunal Federal pela suspensão do processo, com significativa repercussão política e social, para que as partes envolvidas, Estados e União, iniciassem um diálogo com a finalidade de solucionar, consensualmente, a controvérsia jurídica. Após o exame da liminar, o Min.
Edson Fachin, na busca de solução cooperativa para o impasse, designou audiência com a participação do Ministro da Fazenda, Governadores de Estado e autoridades do Tesouro Nacional, da Advocacia Geral da União e da Procuradoria Geral da República.
Em junho de 2016, o Ministério da Fazenda e os Governadores dos Estados celebraram acordo de repactuação das dívidas. Por conseguinte, em julho de 2016, os Ministros adaptaram a liminar favorável ao Estado de Santa Catarina – que autorizava pagamentos menores das parcelas da dívida – à avença celebrada, em junho do mesmo ano.
Em nova etapa procedimental, após meses de negociação, em dezembro de 2016, o Congresso Nacional aprovou a renegociação das dívidas dos Estados, adotando como base os argumentos originariamente apresentados na petição inicial do mandado de segurança impetrado pelo Estado de Santa Catarina, fato que viabilizou a significativa redução dos débitos, em um período de profunda crise econômica e de escassez de recursos para os governos estaduais.
Em uma dinâmica que envolveu a interação entre entes distintos, das diversas esferas da Federação, cada qual contribuindo com suas capacidades específicas, dentro de seu âmbito de responsabilidade, denota-se um esforço coordenado para a tomada de uma decisão mais qualificada, que pudesse assegurar o cumprimento efetivo dos postulados da Constituição, com aperfeiçoamento das respectivas instituições democráticas.