MEMÓRIAS E HISTÓRIAS DO HOSPITAL E DA CIDADE
OUTRAS HISTÓRIAS E MEMÓRIAS DA “CIDADE DO JUQUERI”
Ao propor este trabalho e discutir as memórias da cidade de Franco da Rocha, através de materiais publicitários, livros memorialistas e imprensa. Sabia que de antemão que minha problemática não seria completa se não dialogasse com as histórias de vida dos moradores da cidade.
Construí assim, diversos diálogos, entrevistando moradores de algumas áreas da cidade. Nos bairros mais antigos e próximos da área central identifiquei o Sr. Antônio Carlos, Sr. Juvenal Lima e Eda Lambert. Estes moradores nascidos na cidade vivenciaram, portanto, uma experiência mais próxima do Hospital do Juqueri. Na região conhecido como “Paradinha”105 ou Vila Bela identifiquei outros moradores também residentes na cidade há algum tempo, gravei entrevista com o Sr. Antônio Exposto e Dona Josefa Andrade. No bairro vizinho encontrei Dona Valdete Leite, residente na Vila Bazu. Foi preciso ampliar as entrevistas em outros bairros mais distantes da área central, surgiu oportunidade de entrevistar os moradores da “Comunidade Vale dos Lírios”, um local que passou por um processo de reintegração de posse, já em fase avançada de disputa judicial, neste bairro entrevistei Dona Francisca Conceição, Laudeci Conceição e Dona Maria Deusa, que já não residem mais ali.
105 O bairro conhecido como “Paradinha” se desenvolveu próximo a estação de Baltazar Fidélis que foi inaugurada pela E.F. Santos- Jundiaí em 1955 para atender aos trens de subúrbio. Por muitos anos foi conhecida apenas como “parada do Km 113”. Virou estação em 1975 como o nome atual. A estação é conhecida como “paradinha” devido nas décadas de 1970 e 1980, os trens de Santos a Jundiaí só pararem ali em alguns horários e também por não ter plataformas em toda a extensão. Atualmente conta com as mesmas características das outras estações, está situada entre a estação de Franco da Rocha e Francisco Morato. Assim, Franco da Rocha é a única cidade servida pelo Ramal CPTM que possui duas estações em seu perímetro urbano. Ver:
www.estaçõesferroviarias.com.br/b/baltfidelis.htm. Acesso 12/11/2010.
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Figura 16: Mapa de Entrevistados. Fonte: http://www.bing.com/maps/?FORM=MMREDIR acesso 10/12/2010. Elaboração: Adilson R.
E além de entrevistar moradores que estavam na cidade há muito tempo, entrevistei também moradores que haviam chegado às décadas de 1980, 1990 e 2000 e traziam além da experiência no município, outras referências e experiências de vivências em outros lugares. A diversidade de entrevistas possibilitou colocar em movimento diferentes trajetórias, que enunciavam percepções, valores, conflitos, até então enquadrados como questões menores no debate sobre a cidade.
Neste capítulo, privilegia o diálogo com as lembranças dos moradores que tiveram um contato mais próximo do Hospital do Juqueri. A proposta é buscar refletir e analisar os diversos usos, sentidos e significados de uma cidade, que se constituiu a partir de uma vida de trabalho nesta instituição. E encarando estas lembranças, como expressão de uma memória popular não necessariamente oposta à memória produzida pelos poderes municipais, mas em contestação ao seu triunfalismo e sua univocidade. Busco contribuir, com a crítica há uma história, que Walter Benjamim chamou “dos vencedores.”106
106 A partir desta história que são criadas as narrativas históricas da cidade referência única ao que ensina nas escolas, mostra ao novo morador, celebra nos feriados municipais. Ao esconder e silenciar as outras narrativas dos acontecimentos passados e presentes, essa história se torna unívoca. Cf. BENJAMIM, Walter. “Sobre o conceito de História”. In: Magia e Técnica, Arte e Política. Ensaios sobre literatura e História da Cultura. São Paulo, ed. Brasiliense, 1993.
85 Como havia problematizado anteriormente, a memória oficial do município de Franco da Rocha é feita em celebração a uma cidade, que tem com lema a
“ciência e a ternura”. O Hospital Psiquiátrico do Juqueri é interpretado como símbolo destes elementos, cuja cidade já estava predestinada a recebê-los.
Afinal, o que significa e o que significou o Hospital Psiquiátrico do Juqueri para os moradores de Franco da Rocha? O que representou tê-lo como uma referência importante nos sentimentos de pertencimento social à cidade? Como estes moradores compõem suas lembranças do passado da cidade?
Durante as entrevistas, a cidade e o Hospital foram sendo (re) significados pelas narrativas dos moradores, o ideal de ciência e ternura, ora ou outra aparecia em suas falas, mas contendo outras dimensões, muitas vezes, estando distante da realidade vivida no dia-a-dia.
Na entrevista com o morador Antônio Carlos, 68 anos, que nasceu em Franco da Rocha, não trabalhou no Hospital, mas teve uma grande proximidade, uma vez que possuía familiares que trabalhavam na instituição, residente no bairro central da cidade. Ao iniciar a entrevista sua primeira lembrança da cidade foi procurar narrar sua atividade, que desenvolveu como locutor junto a um sistema de rádio que a cidade possuía. Quando questionado sobre as lembranças do Hospital, este morador enfatizou aquilo que o encantava, como a grande quantidade de pacientes e a proporção em relação aos moradores da cidade. O hospital é traduzido como aquele que, “era o maior da América Latina”.
Naquele tempo o hospital, o hospital era o maior da América Latinha, tinha muita gente, o Hospital tinha mais gente do que habitantes na cidade. Até chegou visitar o hospital aquele? Como que fala? Aquele grande psiquiatra?
Freud! É Freud. Chegou a visitar Franco da Rocha.107
O comentário de que o psicanalista austríaco, Sigmund Freud, ou simplesmente Freud, como Sr. Antônio Carlos diz, teria visitado a cidade parece
107 Trecho da entrevista realizada com Antônio Carlos em 24/06/2010. Acervo do Pesquisador.
86 legitimar o lugar de grandeza que seu Antônio Carlos estabeleceu para o hospital. A visita do médico austríaco não havia ocorrido, mas apenas uma carta de agradecimento enviada ao Dr. Osório César, médico psiquiátrico do hospital do Juqueri, em 1928. Porém importa perceber o processo de legitimação de uma memória que foi incorporada.
Nesta fala, a noção de grandiosidade e ciência que provém do discurso oficial encontra-se presente, entretanto, como veremos a seguir, a maneira como o Sr. Antônio Carlos produziu suas recordações durante a entrevista, indica uma relação com as versões dominantes a partir de sua cultura de classe, dos valores que fazem sentido para ele, como trabalhador, não reproduzindo meramente aquilo que é propagado na esfera pública local. A tão propagada “ciência”
aparece mais como algo distante do seu cotidiano, cujas lembranças, parecem se assentar mais nas atividades que desenvolvia na cidade.
Eu ficava vendendo amendoim ali para o pessoal perto do hospital, eu era molecote, vendia jornal também, naquele tempo tinha morrido Getúlio Vargas, eu dizia: - A morte do presidente! A morte do presidente! E vendia bastante jornal ali. Depois eu fui fazer bico para o Paulo Azine, ele tinha uma bomba de combustível naquele tempo, o posto de gasolina, e eu fazia bico naquele tempo pra ele ali. Naquele tempo nos postos de gasolina os tanques eram de vidro, sabe era com manivela, tinha os riscos no vidro, cem, noventa, e ia abaixando conforme vendia os litros para os carros abastecer, eu ficava na manivela pra ver o tanto de gasolina que ia colocando.108
Na medida em que seu relato vai sendo tecido é possível perceber o significado do trabalho cotidiano, não necessariamente no Hospital, mas nos territórios de comércio, que se formavam em suas proximidades. Este trabalhador convivia no seu dia-a-dia com práticas variadas, trabalhando em diferentes locais, vendendo amendoins, jornais e em um posto de gasolina.
A visão da cidade aparece como o local de trabalho. O interesse em falar do seu trabalho era uma forma de recuperar algo que se perdeu, uma dinâmica que já não existe mais e, que marcou profundamente sua vida permanecendo
“vivo” em suas lembranças, como o dia em que vendeu muito jornal e o seu
108 Trecho da entrevista realizada com Antônio Carlos em 24/06/2010. Acervo do Pesquisador.
87 encantamento ao descrever a bomba de combustível, uma vez que os postos de combustíveis não a utilizam mais, contando com outros equipamentos. A preocupação em descrever como operava a máquina estava assentada na necessidade de enfatizar as transformações que passaram a cidade. Sobre isso ele se lembra do sistema de autofalantes que a cidade possuía:
Sabe ali onde tem o escadão que sobe para ir para o Jardim Cruzeiro, ali logo quando termina as escadas, tinha um plano, tinha um poste o poste tinha quatro cornetas grandonas. Uma virada para a Vila São Benedito outra pra rua São Paulo, Avenida Tiradentes, uma aqui para o centro outra para o pouso alegre.
Ali era o serviço de auto falante Guanabara, quando tinha falecimento, falecia gente qualquer hora, vinha e noticiava no auto falante, a turma ouvia aquela música tocando todo mundo ficava quieto pra ouvir, tinha uma musica funeral.109
A dinâmica recuperada pelas lembranças de Sr. Antônio Carlos, é aquela onde os ritmos da cidade eram guiados pela voz do autofalante, cujo trabalho era ele quem fazia, assumindo uma grande importância na constituição de sua trajetória. Ao buscar narrar este fato, o Sr. Antônio Carlos, busca justamente legitimar seu lugar social dentro da cidade, marcando presença e firmando pertencimento.
Porque aqui eu sou cantador de bingo, todo mundo me conhece, eu canto bingo na igreja, nas duas igrejas! Elas fazem várias festas, inclusive vai ter festa agora dia de São Cristóvão, que é dia do motorista né? Lá na igreja do centro é mais no final do ano, dia 8 de dezembro que é dia da Nossa Senhora da Conceição, inclusive aqui é feriado e tudo né? Naquela igreja eu to desde... faz 61 anos que eu frequento aquela igreja, ajudo de terça e sexto eu vou direto, quando tem festa eu canto bingo, agora mês de Julho tem na igreja Cristo Ressuscitado e eu canto lá também.110
Dialogando com outro morador, Sr. Antônio Exposto, funcionário aposentado do Hospital Psiquiátrico do Juqueri, 65 anos, a cidade é também lembrada a partir de sua vida de trabalho, as lembranças deste morador são das atividades que desenvolvia junto com sua família.
109 Trecho da entrevista realizada com Antônio Carlos em 24/06/2010. Acervo do Pesquisador.
110 Idem.
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Aquele tempo vendia leite na carroça, existia umas carrocinhas assim..
Preparada de latas né? De aço. Era puxado por burro, eu me lembro de meu irmão fazia isso depois começou a vender na lata e no picoa né? Era umsaco de dois buracos penduravam no pescoço e ia embora né? Até eu carreguei isso muitas vezes quando era menino né? Ai a gente vendia leite por litro a granel e vendia, ia em casa em casa oferecia, tinha os fregueses que pagavam por dia e aqueles que pagavam por mês e a gente vivia disso. Tinha plantado mandioca, tinhagado pra criar até porco tinha, lavoura milho . Meu pai sempre trabalhou na lavoura ele queria que eu ficasse na lavoura. Eu disse; aqui eu não fico! E comecei a estudar o ginásio, depois fui para São Paulo, tinha bons empregos na época viu graças a Deus. Mas se dependesse do meu pai eu estava na lavoura até hoje, a lavoura é bom pra quem tem maquinário capital, mas naquela época era tudo no braço.111
O Sr. Antônio Exposto trabalhou durante 30 anos no Hospital Psiquiátrico do Juqueri dentre as lembranças de sua vida de trabalho, estão as atividades ligadas ao serviço na lavoura, venda de leite em casa em casa, compunham a fonte de renda da sua família, juntamente com outras atividades realizadas na propriedade de seu pai. O sentimento que o trabalho realizado na lavoura necessita de grandes investimentos e maquinário carrega a dimensão da realidade vivida por muitos pequenos agricultores no Brasil.
Nesta época, narrada por Sr. Antônio Exposto, década de 1950 a1970, a cidade de Franco da Rocha possuía poucos estabelecimentos, na sua grande maioria, voltada para a venda de mercadorias, os chamados secos & molhados.
As péssimas condições das estradas municipais e o transporte precário, aliados ao custo elevado dos empréstimos colocavam os pequenos produtores em desvantagem no comércio de gêneros alimentícios112. Esta condição social esta marcada na memória deste morador.
Sr. Antônio Exposto era filho de imigrante português, seu pai veio primeiro, para o Rio de Janeiro, depoispara São Paulo e posteriormente para Franco da Rocha. Sobre seus pais, Antônio Exposto lembra-se, que ele chegou à região ainda no início do século XX, em 1926.
111 Trecho da entrevista realizada com seu Antônio Exposto. 19/07/2009. Acervo do Pesquisador.
112 Alguns dados referentes à indústria, agricultura e comércio pode ser observados através do IBGE. Coleção: Enciclopédia dos municípios brasileiros. Vol. XXVIII. Rio de Janeiro. 1957. P. 358.
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Meus pais vieram pra cá há muito tempo, eu tenho passaporte, tenho tudo guardado ai, até hoje minha intenção era investigar né. Ai eu vi um carimbo do Rio de Janeiro, que ele ficou na hospedaria do Rio Janeiro tinha o carimbo do Rio Janeiro. Ai eu tentei contato e não consegui, fui lá ao museu do imigrante, ali no Brás rua da Mooca ,ai me falaram; seu pai veio na época tal e passou no RJ por causa do carimbo né? Ai meus irmãos mais velhos tinha mais informações tinha um fazendeiro que queria uns homens pra lavoura. Não sei como meu pai veio parar aqui, trabalhou em uma fazenda ai. Minha mãe veio pra cá acho que 1926 junto com meu pai eles trabalhavam de encher vagão com madeiras ali na estação, tinha uma porção de gente que fazia isso, era um trabalho muito duro. Então Franco da Rocha tinha muita madeira, minha mãe enchia galera, galera. Eram os três que carregavam madeiras, minha mãe, meu pai e meu irmão. Ela dizia quando era menino, eu enchia galera. Enchia o caminhão de gente e ia lá empilhar, encher galera. Minha mãe trabalhou muito, ela foi uma heroína criou 19 pariu 19 filhos, é claro que morreu alguns, mas ela deixou muita saudade pra mim. O pai nem tanto, ele era assim, tinha que manter o lar né. A minha mãe lutou pelos filhos.113
Também se lembra da vida que seus pais levaram quando chegou à cidade, trabalhando de encher vagões de trem com madeira, a chamada galera, trabalho feito com muita dureza o qual a sua mãe trabalhou muito. Refazendo a trajetória de seus pais, Sr. Antônio Exposto lembra-se ainda de sua mãe como uma heroína e das dificuldades para criar os filhos. O fato de seu pai ser português ajudou a conseguir trabalho junto à estrada de ferro:
A estrada de Ferro tem muita haver com os ingleses, os portugueses e os pretos, que eram um pessoal de fibra né? Inclusive para trabalhar né? Eu estava lendo ha pouco tempo. Eram os pretos e os portugueses que eram trabalhadores, trabalhavam muito né? E os portugueses eram muitos, depois vieram outros, e meu pai, como era português tinha facilidade. Foi ai que ele conseguiu comprar terra, comprou, tenho até os documentos tudo guardado aqui. Pagou em 120 prestações né? Tenho o contrato tudo guardado aqui até hoje.114
Referindo a importância da estrada de ferro para a cidade, Sr. Antônio Exposto, identifica o trabalho e reconhecimento daqueles que ajudaram a construí-la. Seu pai foi um dos muitos, que trabalhavam ali, e isso permitiu a ele comprar terra. Segundo Sr. Antônio Exposto, haveria uma facilidade em conseguir trabalho. Essa facilidade pode ser traduzida como uma relação de
113 Trecho da entrevista realizada com seu Antônio Exposto. 19/07/2009. Acervo do Pesquisador.
114 Idem.
90 preferência estabelecida pelo contratador, relação a uma suposta “fibra,” que estes trabalhadores possuíam. Para estes trabalhadores, vindos de outras cidades, a opção de trabalho estava restrita há alguns espaços da cidade. Ao ser perguntado sobre as opções de trabalho na cidade, Sr. Antônio Exposto narra:
Emprego tinha o Juqueri, a Linharte e a estrada de ferro. Eram os três lugares que davam lugar para o povo, vinham muita gente de fora para trabalhar na estrada SANTOS/JUNDIAI, mineiros principalmente, naquele tempo nem vinham nordestinos. E o Juqueri também tinha muita gente de fora que vinha trabalhar no Juqueri. Tinha Hospedaria ali alguns vinham acabavam ficando.
Comprava uma casinha. Mas eu entrei em 1970, entrei em 26 de maio de 1970.
Era atendente depois fiz curso de enfermagem, direito especialização em saúde pública. Eu sou educador em saúde pública né? E aposentei como auxiliar de enfermagem, mas eu não posso me queixar eu sou uma pessoa muito econômica né? Pra mim dá, não sou esbanjador, não viajo, queria viajar, passear bastante né? Mas eu tenho uma chacárazinha ali, que é meu passa tempo graças a Deus. Eu vou lá com enxada planto mandioca.115
A oferta de trabalho nestes três estabelecimentos levavam muitos outros trabalhadores a se deslocarem para a cidade em busca de serviços. Este movimento na memória do Sr. Antônio Exposto parece não ter cessado, sendo possível fazer uma organização dos territórios, separando os que chegaram primeiro, (mineiros) e depois (nordestinos). Este gesto busca firmar o sentimento de pertencimento a esta dinâmica que se fazia na cidade. Assim como o trabalho no Juqueri que possibilita compartilhar os ambientes de trabalho comum da cidade. Entrar para o Juqueri, representou um crescimento profissional, mas que aparentemente não fora recompensado, pois seu Antônio sentia desejo de realizar muito mais coisas quando se aposentasse.
É justamente nessa disputa por organizar a cidade, através de suas memórias, que os sujeitos forjam seu aprendizado, elaboram expectativas e sentidos de pertencimento, bem como reivindicam espaços e participação. É nessa arena, que elas constituem sua vida em sociedade e aprendem a política.
Dialogando com outra moradora, Valdete Leite, 49 anos, conhecida como Branca, moradora da cidade e funcionária do Hospital do Juqueri há 25 anos, filha de agricultores da região de Atibaia SP, na entrevista, deixa marcada sua vivência
115 Trecho da entrevista realizada com Antônio Exposto. 19/07/2009. Acervo do Pesquisador.
91 e interesses que fizeram parte de suas escolhas, assim constrói uma dada história sobre a cidade e do hospital, ressaltando a experiência do trabalho no Juqueri eque ele representou para sua família:
Eu morava em um sitio em Atibaia e vim pra cá criança, tinha 6 anos. A cidade de Franco, quando a gente falava que morava em Franco da Rocha eles olhavam assim como se fosse inteiro um manicômio, um hospital psiquiátrico e não como uma cidade. Era Franco da Rocha e Juqueri, uma junção, eles via como se fosse inteiro um hospital psiquiátrico não como uma cidade [...] 116
Nas lembranças de dona Branca, a cidade e o hospital aparecem sendo referendada como uma coisa só, uma “junção”. Para compreender um pouco melhor, este aspecto da fala de dona Branca, façamos uma identificação dos territórios.
O nome Juqueri que dava nome a localidade foi apropriado pelo hospital, que acabou às vezes gerando a confusão, até 1944 a localidade era conhecida como Distrito de Juqueri, passando a se chamar Franco da Rocha, em homenagem ao médico diretor do Hospital.
Assim, o uso do nome Juqueri passou a designar apenas o Hospital e povoado central (atual cidade de Mairiporã), que mais tarde também modificou o nome, pois segundo estes, havia associação do nome Juqueri ao Hospital, causando confusão na entrega de correspondência. No ano de 1948 este povoado conseguiu fazer a mudança de nome, aprovando a lei 233 de 24 de dezembro, que atribuía à cidade o nome de Mairiporã. Deste modo o nome Juqueri, passou apenas a designar o nome do rio que corta a região e do Hospital.117
Este fato certamente ganhou dimensões ao longo dos anos, sendo incorporado e traduzido por alguns moradores, representada aqui pela fala de dona Branca, que não viveu estes episódios, mas incorporou a dimensão de unidade entre o Juqueri e a cidade. As fronteiras pareciam não estar bem definidas. Seguramente, a dificuldade em receber correspondência não era o único
116 Trecho da entrevista realizada com Valdete Leite. 20/06/2010. Acervo do Pesquisador.
117 Conforme consta no livro; PARADA, LOUZADA, 2005. (Orgs), e no texto introdutório do site da Prefeitura Municipal de Mairiporã.
http://www.prefeituramairipora.com.br/index.php?option=com_content&view=category&layout=blog
&id=35&Itemid=54 . Acesso em 12/11/2010.