2. OUTRA COLÔNIA SUÍÇA, NA PROVÍNCIA DO PARANÁ
2.2. Outras obras que tratam, de alguma maneira, sobre Superagui
As principais obras sobre Superagui dizem respeito mais a colonos que se tornaram conhecidos do que propriamente à colônia de estrangeiros em si. A publicação mais significativa a esse respeito talvez seja “Michaud: o pintor de Superagui” de Emílio Scherer, publicado na Suíça em 1960 e traduzido pela fundação cultural de Curitiba somente em 1988, a partir de um exemplar encontrado fortuitamente. Praticamente todas as obras posteriores que trataram especificamente da colônia devem- lhe algum tipo de referência.
Admitindo que os imigrantes suíços com destino à América do Sul se estabeleceram principalmente no Brasil, Scherer faz um delineamento rápido das atividades de Carlos Perret Gentil no início da década de 1840, e de suas relações com a família Vergueiro, bem como os trabalhos elogiosos que havia redigido sobre o sistema de colonização da família paulista. O autor afirma que o cônsul suíço seria cunhado do “senador” José Vergueiro e, que já em 1843, enviara a Suíça um relatório favorável ao cafeicultor paulista: “Um desses relatórios, de 30 de março de 1843, por exemplo, fora publicado pela Sociedade Suíça de Utilidade Pública, em Glarus, em 1844, junto com um documento similar do adido comercial da Bahia, August Decosterd, de 23 de julho de 1843”150. Nós tivemos a oportunidade de conhecer o relatório em questão: é o que está descrito no início do capítulo 1, e em nenhum momento os suíços em questão pronunciaram-se sobre o sistema de parceria.
148
Segue trecho original: “La position générale du Superaguhy est des plus agrêables (...) Le climat y est sain et constamment de trois degrés plus tempéré qu’à Rio de Janeiro” MORÉ, Jean-Louis, Le Bresil en
1852 et sa Colonisation Future. Geneve: Chez les Principaux Libraries, 1852 p. 229.
149 PLATZMANN, Julius. Op. Cit., p. 171. 150
Da mesma forma, Scherer faz uma pequena confusão chamando José Vergueiro de senador, enquanto este seria filho de Nicolau Pereira de Campos Vergueiro, este sim senador e cafeicultor paulista. Por fim, a alegação de que Perret Gentil seria cunhado de alguns dos Vergueiro não se sustenta, uma vez que a relação de parentesco entre as duas personalidades limita-se ao casamento de uma das filhas do senador paulista, Ana Pereira de Campos Vergueiro, com o irmão de Carlos, seis anos mais novo que este, Augusto Perret Gentil. Obras posteriores fariam questão de reparar o equívoco151.
As razões para a criação de um estabelecimento agrícola com base no trabalho estrangeiro também são diversas daquelas que pudemos apurar. De acordo com Scherer, Perret Gentil tentou criar uma companhia de imigração, com o apoio das autoridades suíças, para assegurar o bem-estar dos colonos em países estrangeiros, sem sucesso152. José Carlos Veiga Lopes escreveu que o cônsul suíço, atendendo aos interesses da família paulista, teria empreendido diversas viagens na Suíça e no Brasil no correr da década de 1840, com o fito de auxiliar a vinda de imigrantes, e teria chegado a formar uma agência de imigração no Brasil153. A iniciativa de comprar um grande território para estabelecer uma colônia de imigrantes suíços seria a última alternativa de Perret Gentil para estimular a vinda de estrangeiros ao Império, tendo em vista o fracasso em formar uma Companhia de Imigração que tivesse o suporte da Confederação Suíça. Os planos para fundação do núcleo colonial tinham em vista a elevação da 5º Comarca de São Paulo à categoria de província, estando o cônsul suíço atento às circunstâncias da futura província do Paraná. Este esperava que Curitiba fosse elevada a capital do novo território, e pensando que Paranaguá não atendia as demandas portuárias da nova província, desejava criar na península do Superagui um porto que pudesse receber navios de grande porte, coisa que o então porto parnaguara, às margens do Rio Itiberê, não podia154. Esta versão dos acontecimentos foi usada por autores posteriores155
Emílio Scherer diz ter se baseado num relatório de 1852, enviado a Suíça por Perret Gentil, para fazer tais afirmações. Não tivemos acesso a este relatório; no entanto, nossas investigações desmentem a idéia de que o cônsul suíço tenha se dedicado à
151 LOPES, José Carlos Veiga. Op. Cit. p. 109. 152 SCHERER, Emilio. Op. Cit., p. 12. 153
LOPES, José Carlos Veiga. Superagui: Informações Históricas. Curitiba: Instituto Memória, 2009, p. 109.
154 SCHERER, Emilio. Michaud, o pintor de Superagui. Curitiba: Imprensa Oficial, 1988, p. 12-13. 155 LOPES, José Carlos Veiga, Op. Cit. p. 112; e DURIEUX, Everton. La famille Durieu(x). Curitiba: Wunderlich, 2001, p. 87.
imigração de estrangeiros durante o decênio de 1840. Conforme constatamos, Perret Gentil possuía uma fábrica voltada à iluminação em Campos, e o seu afastamento desta empresa é que o teria motivado à colonização de europeus. A inspiração no sistema de parceria da Vergueiro e Cia. teria influído na escolha desta nova atividade, conforme sua própria obra nos atesta. As diversas obras anteriores sobre Superagui não fazem qualquer referência ao estabelecimento campista, e a atividade do cônsul suíço enquanto auxiliador do empreendimento de parceria é mencionada apenas enquanto uma de suas atividades, e não como algo que tivesse lhe influenciado na fundação de um núcleo colonial.
Outro equívoco diz respeito á datação do início do empreendimento. De acordo com Scherer, Perret Gentil teria se estabelecido em Superagui por volta de 1854, juntamente com o colono Willian Michaud156. Já Leônidas Boutin estabelece outras datações, com base em autores paranaenses como Sebastião Paraná, que sugere junho de 1852, e Francisco Negrão, que aponta o dia 28 de agosto de 1852157. De fato, Perret Gentil teria chegado a Superagui em outubro de 1851, conforme atesta uma correspondência assinada pelo próprio158. Mesmo a área que a colônia ocupava é objeto de alguns enganos. Na obra do autor suíço consta que a área de Superagui estaria dividida em três partes: uma parte abarcaria porções no continente próximo a Serra do Mar, outra corresponderia à própria península e a última parte corresponderia à Ilha das Peças e outras ilhotas, ocupando mais ou menos 35 mil hectares. Estas informações foram repetidas em outras publicações159 e questionadas por outros autores160. Como pudemos ver no mapa acima, a colônia do antigo cônsul suíço ocupava partes da Ilha das Peças e da península próxima, não havendo nenhum trecho sobre a Serra do Mar.
De qualquer modo, não há como negar a contribuição do livro de Scherer enquanto obra biográfica e como fonte de informações, apesar dos pequenos equívocos sobre o empreendimento e que não eram propriamente o objeto de estudo de Emílio Scherer, mas que nos pareceram dignos de consideração. Foi o escritor suíço o primeiro que estudou fontes importantes para conhecer diversos aspectos da colônia, como a obra
“Le Brésil en 1852 et sa colonisation future”, na qual se encontram as expectativas do
156 SCHERER, Emilio. Op. Cit., p. 15.
157 BOUTIN, Leônidas. Superagui. Curitiba: Separata Boletim IHGPR, 1983, p. 4. 158
GENTIL, Carlos Perret.. Ofício para o Presidente Zacarias de Góes e Vasconcellos. Superagui, 22 fev. 1854. Arquivo Público do Paraná, AP – 3, folhas 207-213.
159 SCHERER, Emílio. Op. Cit., p. 13; BOUTIN, Leônidas. Op. Cit., p. 4; e DURIEUX, Everton. Op. Cit., p. 86.
160
fundador do núcleo colonial, denotando detalhes importantes como a participação de uma casa bancária suíça no financiamento da vinda de imigrantes161. Outros autores vão ter o mérito de pela primeira vez trazer ao público fontes inéditas. Everton Durieux trouxe a público o contrato de imigração de Superagui que havia na Suíça, enquanto José Carlos Veiga Lopes transcreveria o documento de compra da península por Perret Gentil.
Na historiografia paranaense, a posição ocupada por Superagui foi diferente. Na maioria das vezes, a sua existência foi usada apenas para evidenciar as primeiras tentativas de colonização de europeus no atual território do Paraná, antes da emancipação da província de São Paulo. Entre as três colônias fundadas antes de 1853, estava a colônia do Rio Negro, iniciada com 5 famílias de alemães introduzidas em 1829, situada às margens do rio homônimo, na região conhecida como “Capela da Mata”. O núcleo fora fundado no intuito de criar uma povoação para auxiliar os tropeiros do caminho do Viamão e espantar os índios belicosos dos arrabaldes162, gozando de certo sucesso nos decênios seguintes, tendo em 1854 uma população de 351 indivíduos163.
Caminho diverso foi o seguido pelas colônias fundadas poucos anos antes da emancipação em 1853, que eram a colônia Thereza, fundada em 1847, e colônia de Superagui, em 1851. Ambos os empreendimentos teriam fracassado em seus objetivos: “Estes núcleos, estabelecidos ambos em função da política de povoar os vazios
demográficos, não tiveram condições de prosperidade e quase nem mesmo de
sobrevivência”164.
É necessário fazer um parênteses a respeito da política de “vazios demo- gráficos”, que os três autores em questão definem seu início na Regência de D. João VI em 1808, e que dominaria o emprego do contingente imigrante até 1850, quando as demandas por braços da grande lavoura se fazem mais presentes e as tentativas de enviar colonos a espaços ermos e remotos era combatida165. Os empreendimentos
161 SCHERER, Emílio. Op. Cit., p.14.
162 MARTINS, Romário. Quantos somos e quem somos. Curitiba: Empreza Graphica Paranaense, 1941, p. 59.
163 PARANÁ. Relatório do Presidente da Província do Paraná o conselheiro Zacarias de Góes e
Vasconcellos na Abertura da Assembléa Legislativa Provincial em 15 de julho de 1854. Curitiba: Typ.
Paranaense de Candido Martins Lopes, 1854.p. 59. 164
BALHANA, Altiva Pillati. MACHADO, Brasil Pinheiro. WESTPHALEN, Cecília Maria. História do
Paraná. Curitiba: Grafipar, 1969. p. 159 (grifos nossos).
165 BALHANA, Altiva Pilatti.; MACHADO, Brasil Pinheiro.; WESTPHALEN, Cecília Maria. Alguns Aspectos Relativos Aos Estudos de Imigração e Colonização. In:BALHANA, Altiva Pilati. Un Mazzolino
coloniais em questão parecem não se enquadrar na classificação apontada pelos autores. A localização da colônia Thereza pelo seu fundador, João Maurício Faivre, às margens do rio Ivai, parece estar mais relacionada à vontade de seu idealizador em afastar-se da sociedade escravocrata com o fim de tornar o homem feliz e virtuoso166, e não com as pretensões imperiais, embora o empreendimento fosse financiado em parte pela coroa. E Superagui, como vimos, deve-se exclusivamente à iniciativa de seu fundador.
O estabelecimento de Perret Gentil ocupou papel de destaque como a primeira iniciativa de introdução de colonos suíços no Paraná. Romário Martins contabilizou a entrada de 1.006 suíços durante os anos de 1852 e 1934, tendo o maior número de imigrantes ingressado na década de 1870, com 591 colonos localizados nas diversas colônias nas cercanias de Curitiba167. O autor em questão contabiliza Superagui com 35 colonos suíços, posteriormente escreve, na mesma obra, que havia 40 famílias suíças na colônia168, o que não se sustenta pela sua afirmação anterior e nem por documentos históricos. O fundador da colônia contabilizou 6 famílias entradas em 1851, que somavam 13 indivíduos suíços169.
A proximidade do estabelecimento com a povoação de Guaraqueçaba não deixou de ser destacada por diversos autores, bem como a introdução de elementos “caboclos” ou “mamelucos” na organização do empreendimento170. No entanto, por vezes foi feita confusão entre o estabelecimento de Superagui e a cidade de Guaraqueçaba, emancipada de Paranaguá em 1880, sendo admitido por alguns autores que a colônia teria dado início ao povoamento do município171. Por mais que o núcleo antecedesse em trinta anos a elevação de Guaraqueçaba à categoria de cidade, não foi o empreendimento de Perret Gentil quem determinou o surgimento desta. A povoação às margens da Baía das Laranjeiras tem seu início em 1839 com a construção da Igreja Nosso Senhor Bom Jesus dos Perdões por iniciativa de dois fazendeiros da região, sendo até 1880, paróquia e segundo distrito de Paranaguá.
166
PARANÁ. Op. Cit.p. 57
167 MARTINS, Romário. Op. Cit. p. 77. 168 Ibidem, p. 77; p. 144.
169 GENTIL, Carlos Perret.. Ofício para o Presidente Zacarias de Góes e Vasconcellos. Superagui, 22 fev. 1854. Arquivo Público do Paraná, AP – 3, folhas 207-213.
170 WACHOWICZ, Ruy Christovam. História do Paraná. Curitiba: Editar, 1972. p. 114; BALHANA, Altiva Pillati. MACHADO, Brasil Pinheiro. WESTPHALEN, Cecília Maria. História do Paraná. Curitiba: Grafipar, 1969. p.158.
171
2.3. Fazer o Superagui: as tentativas de atrair colonos e os métodos de