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7 TRIANGULAÇÃO ENTRE QUESTIONÁRIO, ENTREVISTA E PRÁTICA PEDAGÓGICA: ANÁLISE

7.3 PROFESSORAS E SUAS PRÁTICAS

7.3.1 Outras práticas: cada qual com suas particularidades

Na seção anterior, ilustraram-se práticas que foram comuns nas ações das professoras PA, PB e PC ― por exemplo, a copiação do quadro sob seus comandos. Reservamos, para este final, práticas que se mostraram distintas entre as professoras. A professora PA, por exemplo, faz perguntas, esperando uma única resposta. Um exemplo disso aconteceu antes de passar no quadro o texto ―Os animais‖ para os alunos copiarem. A seguir, transcreve-se o diálogo entre professora e alunos.

Professora: Os animais são seres? Alunos: Seres humanos.

Professora: Seres vi...? Alunos: Seres vivos.

Professora: Os seres vivos nas...? Alunos: Nascem.

Professora: Cres...? Alunos: Crescem.

Professora: Se reproduzem... O que é se reproduzir? Ter filhi...? Alunos: Ter filhinhos.

Nesse diálogo constata-se que, além de a professora não ter ensinado seus alunos a lerem mediante essa atividade, não mostrando a relação grafema-fonema por exemplo, também não fez perguntas que os tornassem críticos, dado que já fez perguntas esperando previamente uma única resposta, tida como a certa. Nota-se, por exemplo, que os alunos responderam que os seres vivos são seres humanos, o que está corretíssimo, no entanto a professora não aceita a resposta, pois esperava ouvir apenas a resposta seres vivos. Kleiman (2008) afirma a importância do professor no processo de aprendizagem da leitura, cabendo a ele fazer novas perguntas aos alunos que os façam se questionar, pensar, criar novas perguntas. Além disso, os adultos devem apoiar e estender o significado apreendido pela criança, concretizando, desta forma, a aprendizagem que permitirá à criança apropriar-se de outros mundos por intermédio da palavra.

No momento em que a professora escrevia o texto no quadro, ela o lia simultaneamente para os alunos, para que se inteirassem pelo que estavam copiando. Uma aluna, então, questionou: ―Prô, há animais carnívoros, né?‖ E a professora disse que mais tarde iriam discutir sobre o assunto, que o momento era propício somente para copiar. Entretanto, não houve a discussão posterior prometida. Depois, a professora fez um questionamento aos alunos: Onde vivem os animais? E um aluno responde: no zoológico. A professora negou e falou que os animais vivem na mata. Novamente, percebe-se o problema apresentado antecipadamente em que o professor ―acaba explicitando ele mesmo o significado [...] prática esta que determina que a única leitura seja a do professor mediador‖. (KLEIMAN, 2008, p. 42).

Durante as observações pude olhar o caderno de uma das crianças dessa turma e constatei que a professora trabalhava com as letras isoladamente, apresentando uma letra de cada vez, em ordem alfabética. Ao iniciar o trabalho com uma letra, a professora escrevia um texto no quadro que tinha predominância de palavras que iniciassem com a letra em questão. Depois, os alunos eram solicitados a circular as palavras, procurar em revistas palavras que iniciassem com a letra estudada. Também pedia que as crianças copiassem um banco de palavras, separassem as sílabas de cada palavra e contassem a quantidade de letras.

As atividades predominantes no caderno eram as de separações de sílabas. E havia atividades propondo que as crianças escrevessem palavras com as famílias silábicas (exemplo: ba, be, bi, bo, bu). Percebeu-se, pois, que não havia atividades que possibilitassem a reflexão da consciência fonêmica e, diferente disso, acredita-se que ―se as crianças não tiverem sua atenção chamada para os fonemas quando elas estão aprendendo a ler, elas vão compreender mal como um alfabeto funciona‖. (MCGUINNESS, 2006, p.37).

Nesse caderno também havia alguns textos copiados pelos alunos com perguntas de interpretação. No entanto, como as crianças ainda não dominam o código ortográfico, não tinham quaisquer possibilidades de resolver sozinhas, a não ser por um processo de adivinhação. Desse modo, anterior à compreensão, deveria vir o treino da decodificação que, segundo Morais (2013, p.82), ―devem ser reservados momentos próprios, de maneira que essas duas atividades mentais não interfiram uma na outra.‖ Nesse sentido, a leitura feita pelo aluno, nesse processo inicial no aprendizado de leitura, deve ter como objetivo somente o trabalho da decodificação, com o propósito de automatizar o código.

Considerando-se o processo defendido por Morais (2013), percebe-se que, enquanto a criança está aprendendo a ler, observa apenas as regras ortográficas da língua, refletindo, por exemplo, se letras como ―g‖ se lê como [ ʃ ] em palavras como ‗gente‘ ou como [k] em palavras como ´gato‘, informações essenciais para a compreensão do texto. Assim, na aprendizagem da decodificação, é essencial focar somente na linguagem, apesar de se considerar relevante a compreensão de textos orais lidos pelo professor à medida que amplia o repertório de vocabulário do aluno (MORAIS, 2013).

Percebeu-se, também, que a professora trabalha bastante com separação de sílabas. Quando os alunos haviam terminado de copiar o texto ―O sorvete‖ a professora deu uma atividade pedindo que as crianças ligassem algumas sílabas e formassem palavras, por exemplo: sa-pato = sapato; sa-po = sapo. Essa prática mostra o que se evidenciou anteriormente, de que a professora utiliza predominantemente o ensino do método silábico de alfabetização. As crianças juntaram também palavras como: sa-lada= salada; se-is = seis; se-te = sete, dentre outras. Ao juntar a palavra ―saia‖, um aluno disse que pensou que estava escrito sabiá, mas a professora não explorou a diferença fonética entre as duas palavras.

Como estavam estudando a letra ―s‖, os alunos foram orientados a recortar objetos da revista que iniciassem com a letra ―s‖ colocar o nome ao lado da figura recortada e separar as sílabas. Depois deveriam recortar palavras que iniciasse com a letra ―s‖. Um aluno queria recortar ―pensava‖, mas a professora não o autorizou, afirmando que essa palavra não começava com a letra ―s‖. Novamente, não propiciou a reflexão de trabalhar o ritmo, pois a intensidade (sílaba tônica) repousa justamente naquela em que contém a letra sob observação, ou mesmo a sua distribuição, consideração a fonologia do português.

A professora também escreveu no quadro cinco palavras iniciadas com: sa, se, si, so, su. Os alunos davam dicas que iniciavam com ―c‖ como ―circo‖, mas a professora não fazia a reflexão das letras- fonemas. E, claro, em palavras escritas como ‗cinco‘, o som [s] está presente no início de palavras, atestando a hipótese sonora desses alunos, ou seja, estavam tentando acertar a escrita.

A professora PB parte do princípio de que os alunos que já alcançaram fluência em leitura não precisam mais do ensino de leitura, tendo que fazer as atividades sem a mediação da professora, mostrando que acredita que, como leem, já compreendem o que leem. No entanto considera-se que é preciso ensinar o aluno a compreender. Nesse sentido, faz-se ―necessária a orientação cuidadosa por parte do adulto,

mediante a criação de condições que levarão o aluno ao seu desenvolvimento pleno, tomando como ponto de partida as capacidades já desenvolvidas por ele‖. (KLEIMAN, 2008, p. 193).

Um exemplo disso foi, quando após copiarem o texto de Ensino Religioso, a professora fez algumas perguntas de interpretação. Havia somente duas perguntas. A primeira questão era para assinalar as opções em que havia pessoas que amamos (opções dadas: só os que se parecem com a gente, gente de todas as idades, os amigos e a gente lá de casa, Deus e as pessoas, só quem nos dá presentes). A segunda era para pintar os corações que tinham pessoas que precisam ser amadas (nomes que estavam nos corações: crianças tristes, pobres, idosos). Essa atividade foi feita sem quaisquer questionamentos aos alunos. Eles tinham que ler sozinhos e fazer. Como dito anteriormente, a criança que ainda não lê, não conseguirá realizar a atividade sem auxílio. E a criança que lê precisa aprender a compreender. Outra incoerência percebida com essa atividade é que essas perguntas não têm a ver com o texto, então, mesmo crianças que não leram o texto conseguirão fazê-lo, portanto, não são perguntas de interpretação, como dito pela professora.

Concluído o simulado, a professora entregou uma história em quadrinhos de imagens para os alunos observarem. Disse que era uma leitura apenas para se divertir. Deu um minuto para que pudessem imaginar o que estava acontecendo na história e depois fez algumas perguntas aos alunos que estavam explícitas no texto. Ora, se é uma história de imagens, acredita-se que não haja leitura e, sim, interpretação. Para ser leitura é preciso códigos escritos (BRITTO, 2012).

Em uma das aulas observadas, a professora chamou todos os alunos em sua mesa, um por vez, para que corrigissem juntos os erros ortográficos contidos no texto que criaram sobre a família. Enquanto ia fazendo esse trabalho com uma criança, as outras ficaram responsáveis por fazer algumas atividades do livro de Língua Portuguesa. Uma atividade trazia um texto apenas para os alunos pontuar, a outra para criarem frases com algumas palavras dadas, e a última trazia algumas palavras para que os alunos identificassem o uso da letra ―m‖ e da letra ―n‖.

Uma atividade interessante feita por PB foi quando ela pegou o livro Família Alegre de Cristina Villaça para trabalhar com os alunos. Inicialmente tapou o título do livro e pediu que fizessem inferências, tentando adivinhar qual era o título olhando as imagens. As crianças sentiram-se instigadas a descobrir. Depois ela lhes perguntou: O título é importante? Logo após, mostrou a ilustradora, a autora, explorou

bastante esse aspecto. Durante a leitura, PB foi fazendo reflexões e interpretações importantes, que são estratégias de leitura relevantes a serem ensinadas aos alunos (KLEIMAN, 2008).

Na prática de PC, percebeu-se um trabalho interessante quando contextualizou os poemas trabalhados. Os alunos conheceram aspectos da vida dos autores, pesquisaram as palavras não compreendidas, fizeram debate sobre o assunto dos poemas, práticas estas que acarretaram compreensão. Percebe-se, pois, que a professora ensina as estratégias de leitura aos alunos, servindo como um guia que direciona o aluno. Ressalta-se que o trabalho conjunto do professor com o aluno é prática imprescindível, porque faz com que ele adquira habilidades para realizar leituras de forma independente, além de ampliar seu conhecimento (BORTONI-RICARDO; MACHADO; CASTANHEIRA, 2010).

Em outro momento, PC realizou um bingo de sílabas isoladas, o que comprova sua afirmação na entrevista de que trabalha por meio do método silábico; no entanto, disse que não iria falar a sílaba, e sim o som, como havia também evidenciado na entrevista. A primeira sílaba do bingo era ―vô‖, então ela disse que começava com o som ―vvvvvv‖, a segunda sílaba era ―ro‖, ela disse que começava com o som ―rrrrr‖. Essa prática, apesar de trabalhar com os sons, não é o método fônico que se defende neste estudo, pois parte-se do princípio de que se deva trabalhar por meio de palavras.

No entanto, essa prática de mostrar os sons permaneceu com apenas seis sílabas, pois o restante das sílabas era apresentado por meio de adivinhação, por exemplo: para descobrir a sílaba ―me‖, a professora disse que era o início de uma fruta que é verde por fora, vermelha por dentro (melancia); para a sílaba ―ri‖, a professora disse que era o início de um lugar que gostamos de ir quando é calor (rio). Assim, não se está trabalhando a alfabetização de forma satisfatória, pois acreditamos que ―as habilidades de manipulação de fonemas são preditivas do êxito na aprendizagem da leitura‖. (MORAIS, 2014).

PC também parece trabalhar com as letras, porque houve atividades em que ela solicitou às crianças que recortassem e colassem no caderno cinco palavras iniciadas com a letra ―c‖ e reescrevessem a palavra. Também houve atividade em que a professora entregou figuras de brinquedos e pediu que os alunos pintassem aqueles que iniciassem com a letra ―b‖. Os brinquedos eram os seguintes: bola, bicicleta, bilboquê, boneca, bambolê, patins. Depois que pintá-los, as crianças deveriam ligar os objetos ao seu devido nome.

A seguir, discutem-se as contribuições proporcionadas por este capítulo, tentando perceber de que forma os objetivos traçados para esta pesquisa foram respondidos.