CAPÍTULO 3 – “Hoje a gente tem a nossa liberdade”: os processos específicos de
4.2. Outras rezas: “Tem coisa que a gente não deve desacreditar”
Nossa principal interlocutora sobre a variedade de rezas oferecidas para os diversos santos devotados na comunidade foi Jamile, 28 anos, que é a mais jovem rezadeira das cabeceiras, moradora do Tabuleiro (cabeceira da Guaibinha).
Os principais santos de devoção local são, São Cosme e Damião, Santa Bárbara, São Roque, Santo Antônio, São João, São Pedro, Santa Luzia, Nossa Senhora do Parto e São Raimundo. Os dois santos que mais mobilizam em frequência de celebrações e número de participantes são São Cosme e Damião e Santo Antônio.
Há santos que são celebrados na Igreja e outro nas casas dos devotos. Em um ou em outro são guiados pelas rezadeiras (foram citadas Rosa, Jamile, Sônia, Ana e Maria de Jau). São quatro igrejas católicas no território: de Nossa Senhora da Conceição (no Fim de Linha/cabeceira da Guaibinha), de São José (na cabeceira da Guaíba), de Bom Jesus da Lapa (na Praça do Cristo/cabeceira da Vitória) e a de Santa Bárbara (próxima a Associação de Mulheres/cabeceira da Guaibinha). Esta última foi fundada em 2018, em um terreno doado pelo mesmo morador que doou um espaço para a construção da sede da Associação de Mulheres Quilombolas.
Para Santo Antônio, as famílias organizam novenários nas igrejas. Além das celebrações nas igrejas, também há rezas nas casas de moradores do Sítio Santo Antônio. Até 2017 aconteceram nas igrejas de Nossa Senhora da Conceição, de São José na Guaíba e de Bom Jesus da Lapa. Em 2018, foi incluída a celebração na Igreja de Santa Bárbara e não aconteceu na de Bom Jesus da Lapa. Há cada dia e em cada um desses templos, as celebrações da noite são de responsabilidade de uma família específica. O novenário acontece durante 13 noites e, em todas, ao término da celebração os responsáveis pela noite oferecem licor (em geral feitos na comunidade) e refrigerante. A cada noite e em cada igreja (e nas casas do Sítio Santo Antônio), foguetes anunciam o início da reza. No passado, no último dia do novenário de Santo Antônio acontecia a Festa de Santo: “no tempo dos velhos, do povo antigo, dos pais dos que
tem hoje, avô dos que tem hoje”.
Além do novenário de Santo Antônio, na igreja de Tabuleiro (que é onde atua nossa interlocutora Jamile) acontecem as celebrações para Nossa Senhora da Conceição (ofício rezado na quaresma e três novenários nos dias que antecedem o natal), para Maria (durante 30 ou nove dias), para São Roque (no dia 16 de agosto) e para Santo Antônio (trezena em junho), sendo este último o santo celebrado na igreja com maior adesão dos moradores. As outras são pouco frequentadas.
Nas residências rezam São Roque, São Cosme, Santa Luiza, Nossa Senhora do Parto, São Raimundo, São Pedro, e também Santo Antônio. Para qualquer família que solicite a presença das rezadeiras, elas estão sempre disponíveis.
Nas rezas, as orações “Pai Nosso”, “Ave Maria - Santa Maria” e “Salve Rainha” são cantadas. Jamile nos explicou que cada santo possui seus próprios “benditos” (cantos sacros
populares) e ritmos diferentes para as orações como “Salve Rainha” e “Ladainha”. Santo Antônio possui uma “ladainha” com dizeres que se diferenciam do restante. Quando acontecem nas casas dos devotos, após a reza, os anfitriões oferecem algum alimento. Nas rezas de Santo Antônio e São Pedro, por exemplo, servem canjica, milho assado e bebidas. Já nas rezas de Nossa Senhora do Parto e São Raimundo distribuem bolo, empanado, pastel, refrigerante e vinho.
Para São Roque, são oferecidos mungunzá, pipoca e “queimados” (doces, balas e bombons). Quando um devoto que anualmente promove a reza de São Roque por algum motivo se vê inviabilizado de oferecer um evento completo, há a possibilidade de repartir apenas a flor (a pipoca) com as crianças: Quando o negócio aperta um pouco que eu não posso rezar, aí eu
faço a flor e chamamos os meninos pra comer. (...) Se aperta não faço o mungunzá, mas quando estou mais folgada eu faço. No ano passado eu fiz.
Cada devoto que oferece a “pipoca para São Roque” tem uma história pessoal para contar sobre sua devoção e relação com o santo. A seguir seguem algumas, todas sem identificação dos interlocutores por se tratar de experiências muito pessoais.
Minha mãe tinha devoção com São Roque. Tem coisa que a gente não deve desacreditar. Minha mãe dava Pipoca de São Roque todo dia 16 de agosto. Ela parou de dar e ficou com um problema de garganta. Todo ano no dia 16 de agosto ela ficava ruim na cama. Todo mundo falava que era por conta de ter parado de dar a pipoca de São Roque. Ela falava que não era nada. Depois uma irmã minha também passou a ficar em cima da cama. Agora ela não reza e não faz muita coisa, mas faz um pouquinho pra dar.
Meu marido dava pipoca todo primeiro sábado de agosto. Depois que casamos, ao fim de cada festa, eu, antes de dormir sempre limpava toda a casa. Passava uma semana nos dois ficávamos de cama. Um dia sonhei que ficava doente porque acabava a festa, o povo saia e eu já limpava tudo. Depois disso deixei de arrumar a casa, ficava a bagunça. Desde então não adoecemos mais depois da festa.
Foi assim, meu menino só andava cheio de caroço. Aí eu troquei um São Roque: ‘Ele vai ajudar a acabar com esse caroço’. Deu uma peste que o dele chegou a grudar. Todo dia de manhã eu tinha que esquentar água e lavar com algodão. E aí [inaudível] no que ele ajudasse pra que ficasse bom eu trocasse um São Roque pra mim. E depois meu menino falou ‘o mainha, eu estava sonhando essa noite com um velho, um homem velho com uma capanga de um lado e um negócio na mão, mainha, e um cachorro. Ele estava pequeno e não sabia quem era. Eu já sei quem é. Aí eu já tinha o São Roque em casa e comecei a rezar. (...). [Seu filho foi curado?]. Curou, ficou bom dos caroços. Não tinha mais remédio que eu fizesse que saísse esses caroços. Não tinha quem tirasse esses caroços. Comprava pomada, sabonete... nada sarava. Dei três banhos de milho...