como uma das formas de combater as opressões múltiplas e imbricadas. Isso quer dizer que, ao longo das décadas de 1970 e 1980, são conhecidas as primeiras discussões e teorizações feministas sobre as experiências do racismo e do (hétero) sexismo sofridas por mulheres negras, mulheres de cor e mulheres lésbicas. Graças a estes primeiros contributos e às reivindicações relativas às diferenças, feitas dentro do movimento feminista pelas mulheres negras, do “terceiro mundo” e lésbicas, que começam a surgir na análise do género (até então conceituado somente como uma diferença sexual), outras categorias de diferenciação (classe, raça e sexualidade).
foi sumarizado por Sirma Bilge, que se faz porta-voz de uma definição que me parece ser consensual entre os estudos a que tive acesso:
Interseccionalidade refere-se a uma teoria transdisciplinar que visa compreender a complexidade das identidades e desigualdades sociais por meio de uma abordagem integrada. Refuta a compartimentalização e hierarquia dos principais eixos da diferenciação social, que são as categorias de sexo/género, classe, raça, etnia, idade, deficiência e orientação sexual. A abordagem interseccional vai além de um simples reconhecimento da multiplicidade de sistemas opressivos que operam a partir dessas categorias e postula sua interação na produção e reprodução de desigualdades sociais (Bilge 2009, 70. Tradução minha).
No contexto brasileiro, para situar a emergência de categorias, Piscitelli (2008, 264) argumenta que é importante recuar e olhar para as reflexões que surgiram no final da década de 1980, questionando os pressupostos embutidos nas primeiras formulações de género e que se tornaram referências clássicas nas discussões contemporâneas76. Ainda numa perspetiva histórica do feminismo, Piscitelli conclui que é igualmente importante as aproximações teóricas desconstrutivistas77 e as críticas feministas sobre um conjunto de teorias que, a princípio, possuíam como paradigma uma “ideia ocidental de género”.
Ao pensar mais concretamente sobre o conceito, Piscitelli sugere que interseccionalidade e categorias articuladas ao mesmo tempo que se integram na procura de ferramentas analíticas para compreender as distribuições diferenciadas de poder que situam as mulheres em posições desiguais, em certas abordagens, oferecem recursos relevantes para compreender a produção de sujeitos na nova ordem global (Piscitelli 2008). Na senda de Piscitelli, Paula Christofoletti Togni (2014, 131), assinala o modo como o debate sobre as interseccionalidades remete às diversas abordagens que variam na maneira como pensamos a diferença e o poder, como também as margens de agência (agency). Isto é, as possibilidades e as capacidades de agir concedidas aos sujeitos, mediadas social e culturalmente. Utilizando uma fala de Piscitelli (2008), Togni reforça o discurso sobre a necessidade desses conceitos na antropologia e destaca a importância do uso deste modelo teórico metodológico.
(2005); Sirma Bilge (2009); Elsa Dorlin (2012); Alexandre Jaunait & Sébastien Chauvin (2012); Pascale Molinier (2013); Helena Hirata (2014) e Akotirene (2018).
76 Joanna Overing (1986) e Marilyn Strathern (1988) entre as antropólogas, Joan Scott (1988) entre as historiadoras, Donna Haraway (1991) na história da ciência e Judith Butler (1990) na filosofia.
77 Segundo estas abordagens desconstrutivistas (Overing, 1986, Strathern, 1988), tornou-se possível contestar “a universalidade da hierarquia e da subordinação feminina com base na leitura de sistemas nativos de moralidade, do poder e do político” (Piscitelli, 2008:264).
Atingindo rapidamente o estatuto de “hit concept” (Dorlin, 2012, 7), o sucesso das interseccionalidades, quer na academia, quer nas agendas políticas feministas, não impediu, contudo, o debate crítico sobre alguns pressupostos do seu paradigma (Henriques 2015, 105). Centrados nos limites do conceito, muitos estudos têm procurado re-conceitualizar os fundamentos teóricos e metodológicos das interseccionalidades (ver por exemplo: Alonso 2012; Anthias 2013; Davis 2008; Dill & Zambrana 2009; Hancock 2007 e 2013; e Squires 2009). Em 2006, durante uma conferência no congresso da Associação Francesa de Sociologia (AFS) em Grenoble, Danièle Kergoat fez uma crítica à noção “geométrica” da intersecção. Traduzindo, de certo modo, o incómodo que o conceito provocava nas ciências sociais, Kergoat publicou um artigo sugerindo a seguinte reflexão:
Pensar em termos de cartografia nos leva a naturalizar as categorias analíticas [...] Dito de outra forma, a multiplicidade de categorias mascara as relações sociais. [...] As posições não são fixas; por estarem inseridas em relações dinâmicas, estão em perpétua evolução e renegociação (Kergoat 2010, 98).
Propondo o conceito de consubstancialidade em alternativa ao conceito de interseccionalidade, para Kergoat, género, raça e classe são categorias que se relacionam mutuamente na estrutura social e imprimem conteúdos concretos às relações sociais. Isto é, uma mulher não é apenas uma mulher. Ela é uma mulher branca e rica, ou branca e pobre, ou negra e rica, ou negra e pobre, e na medida em que estas categorias se relacionam, a sua experiência social dar-se-á de maneira diferente. Logo, na consubstancialidade, o género, ou a classe ou a raça não são somente unificadores. Na perspectiva de Kergoat (2012), a metáfora que melhor define o conceito de consubstancialidade é a espiral. Segundo a autora, não se trata de uma relação circular.
Ou seja, relacionar as três categorias de análise que compõem as relações sociais, não quer dizer “dar uma volta em todas as relações sociais, uma a uma”, e sim, analisar as
“intersecções e interpenetrações” (Kergoat 2012, 120). Nesse sentido, a consubstancialidade poderia ser resumida pelo nó existente entre classe, raça e gênero.
Diante desta tensão entre interseccionalidade e consubstancialidade elaborada por Kergoat (2010 e 2012), Helena Hirata percorre a literatura sobre a utilização dos dois conceitos e apresenta uma síntese, através da expressão: “interseccionalidade de geometria variável” (Hirata 2014, 66). Isto é, se para Danièle Kergoat existem apenas
três relações sociais fundamentais que se imbricam e são transversais: género, classe e raça. Segundo Hirata, na abordagem interseccional:
[...] a intersecção é de geometria variável, podendo incluir, além das relações sociais de gênero, de classe e de raça, outras relações sociais, como a de sexualidade, de idade, de religião etc (Hirata 2014, 66).
No artigo Interseccionalidades, categorias de articulação e experiências de migrantes brasileiras, Piscitelli assinala o modo como as divergências entre os dois conceitos podem ser percebidas ao contrapormos, por exemplo, a visão sistêmica da jurista Crenshaw e a abordagem construcionista de Brah (1996) e McClintock (1995) (Piscitelli 2008, 267). Na definição de Piscitelli (2008), a visão sistêmica centra-se no modo como a agência não é refutada aos sujeitos, ainda que sejam vistos como
“necessitados” de agência por serem afetados por “sistemas de subordinação”. Para a autora, o empoderamento de grupos subordinados deveria ser o objetivo das discussões e formulações de políticas públicas e o conceito de interseccionalidade utilizado para
“revelar o poder unilateral das representações sociais e as consequências materiais e simbólicas para os grupos marginalizados” (Piscitelli 2008, 268. Apud Prins 2006).
Por outro lado, na abordagem construcionista, Piscitelli sublinha os aspetos dinâmicos e relacionais da identidade social. E, nesse sentido, assinala a forma como essa formulação oferece possibilidades para pensarmos o sujeito enquanto ator, na medida em que considera os marcadores de diferença, não como limitadores, mas sim, instrumentos que podem oferecer recursos que possibilitam ação. Por fim, a autora, opta por atribuir maior relevância à abordagem construcionista, devido às noções de poder e agência que nela estão expressas (Piscitelli 2008).
Outros autores são mais críticos. No livro L’Intersectionnalité: enjeux théoriques et politiques, Fassa, Lépinard & Roca I Escoda (2016), apresentam um debate crítico sobre a teoria e a prática das interseccionalidades. Já no texto de introdução, sinalizam o risco de concentrarmos as nossas análises em grupos e categorias, ao invés de relações sociais. À vista disso, argumentam que essa medida poderia levar a uma análise excessivamente congelada da realidade social e que acabaria por reproduzir, assim, as próprias deficiências denunciadas pela interseccionalidade (Fassa & Escoda 2016, 9). As abordagens na América Latina, por sua vez, têm remarcado a necessidade de pensar que mesmo as diferenças desses marcadores são re-articuladas de formas diferentes, em
diferentes países e com diferentes pesos78. No contexto brasileiro, apesar das tensões e críticas ao conceito, o modelo teórico-metodológico das interseccionalidades é considerado uma ferramenta analítica potente e essencial, conforme sublinha Akotirene:
A interseccionalidade visa dar instrumentalidade teórico-metodológica à inseparabilidade estrutural do racismo, capitalismo, e cisheteropatriarcado – produtores de avenidas identitárias em que mulheres negras são repetidas vezes atingidas pelo cruzamento e sobreposição de gênero, raça e classe, modernos aparatos coloniais (Akotirene 2018, 19).
Da minha experiência de leitura sobre os marcadores sociais e o modelo teórico-metodológico das interseccionalidades, a tese de doutoramento de Paula Christofoletti Togni sobre jovens brasileiros residentes na zona do Cacém, na Área Metropolitana de Lisboa (2014) é uma importante referência. A começar pelo modo como o conceito foi sendo construído ao longo da sua pesquisa empírica. Isto é, os marcadores sociais estavam
“em aberto”, ajustando-se na medida em que a autora elaborava as suas questões teóricas, possibilitando resignificações e negociações da diferença. É o caso, por exemplo, da criação de novos arranjos classificatórios através da interação social com “portugueses”
e “africanos”, na qual Togni faz uma utilização inovadora do conceito articulando a hierarquização de outros marcadores de diferenciação social: sexualidade, nacionalidade e etnicidade. Além disso, esta perspetiva teórica da interseccionalidade permitiu que a autora chegasse à seguinte conclusão:
[...] ser brasileiro(a) no Cacém envolve, conjuntamente, a articulação de outras marcas de diferenciação social. A importância concedida à sexualidade na construção da identidade social e sua constante articulação com o mercado do sexo local foram constatados. Afirmo que a mobilidade entre fronteiras internacionais para contextos e conteúdos particulares, têm situado mulheres e homens de forma diferente. Tanto no caso das meninas, como dos rapazes em situação de deslocamento entre Mantena e o Cacém, a sexualidade ocupa centralidade no processo de construção da diferença e na classificação moral dos sujeitos, como também, se configuram como uma das principais categorias que circulam entre essas fronteiras (Togni 2014, 267).
78 Boa parte desta discussão tem a ver com as teorias decoloniais. Embora particularmente importantes, não são a minha fonte de discussão e referencial teórico e, por falta de tempo, não serão abordadas. Ver Bernardino-Costa (2015), que propõe um espaço de reflexões no qual sejam considerados os aspetos estruturais e dinâmicos da colonialidade do poder, relacionados com os eixos de opressão. Ver também Ochy Curiel (2017). Apoiada na crítica à colonialidade, a autora sugere interrogar os processos de produção das estruturas de opressão do sistema-mundo colonial. Ainda para Curiel, o que Crenshaw apresenta na interseccionalidade, estaria pautada numa perspectiva liberal. Ou seja, mais preocupada em produzir demandas por reconhecimento do que propriamente um projeto de emancipação. Assim, perdendo a capacidade de crítica substantiva ao processo de produção das opressões que, por sua vez, era compreendido como algo dado na conversão de diferenças em desigualdades. De forma semelhante, Carla Akotirene (2018) defende que o pensamento neoliberal pode apropriar-se da interseccionalidade, levando à redução e até simplificação de sua
Em sintonia com a perspetiva de McClintock (2010, 37) que recomenda, quando analisamos categorias articuladas, explorar políticas de agência diversificadas que envolvam “coerção, negociação, cumplicidade, recusa, mimesis, compromisso e revolta”, Togni (2014, 156-57) mostra como algumas “desigualdades duráveis” têm sido transpostas pelos sujeitos da etnografia a partir de suas experiências de mobilidade entre fronteiras internacionais (Mantena/Brasil – Cacém/Portugal), que têm significado para eles como “melhorar de vida e aproveitar a vida”.
No caso da minha pesquisa, que também propõe uma articulação entre diversas marcas de diferença, o trabalho de Togni é útil para compreendermos os diferentes arranjos de género, família e moralidade. A partir de uma aproximação com o modelo teórico metodológico das interseccionalidades, este capítulo centrar-se-á na análise dos grupos das caixeiras e da sua dinamização com a caixa, levando em conta a interação das suas diversas experiências geracionais, de género e raciais. Pretendo evidenciar o importante lugar destas mulheres na concretização religiosa dos rituais e na criação das relações que se fazem presentes nas festas do Divino de São Luís.
Conciliável com a definição de mediadores e agentes populares de Brandão (1981), tenciono aprofundar o estudo das caixeiras enquanto “sacerdotisas da viola” que, por intermédio dos seus cânticos, desempenham um papel performativo fundamental no relacionamento entre os devotos e o Divino (e o santo, santa ou invocação de Nossa Senhora a quem a festa, nalguns casos, é também dedicada). Com a intenção de discutir os principais tipos de performances asseguradas pelas caixeiras no decurso da festa, analisarei o seu repertório musical e o modo como elas verbalizam a sua atividade de mediadoras. A partir da descrição etnográfica, tentarei deixar mais clara a ideia de que as mediadoras populares atuam como porta-vozes que produzem saberes apropriados de sistemas eruditos (como a religião) e, ao mesmo tempo, pessoas que integram os símbolos e a criatividade popular (Brandão 1981).