4.2 ANÁLISE DOS CONSTRUTOS DA PESQUISA
4.2.4 Outros elementos de influência no setor espacial
Para três das quatro empresas pesquisadas, há uma especificação excessiva do produto final por parte do cliente (instituição do governo). Apenas para uma empresa (Empresa O) a resposta permitiu inferir que há uma relação mais ampla, que dê margem de liberdade e retorno para a empresa investir em qualidade.
O caminho para contornar esse problema dos embargos, apontado nas entrevistas, é o desenvolvimento de produtos a partir de componentes, principalmente europeus, que não estejam sujeitos aos embargos, mas por outro lado há redução de opções e de qualidade em relação aos componentes norte-americanos. Em uma das entrevistas, o diretor da Empresa E salientou que, no momento do projeto de desenvolvimento, em função das restrições, já são colocadas diversas opções de material, para utilizar um que seja mais livre de controle. Essas medidas se fazem necessárias principalmente na área de eletrônica. Esse diretor citou que
“se você quer comprar o melhor componente do mercado que faz tudo, aí você de fato não vai buscar alternativa. O que temos buscado, e vai buscar cada vez mais, são componentes comerciais disponíveis e qualificar. Na área de radiação, aqui, incorporar materiais de outras áreas e usar no espaço, não só copiar, depois se há um embargo naquilo, a gente fica paralisado.”
Há suficiente consenso de que o projeto de componentes tem influência nas características relacionadas à resistência à radiação e a padrões de qualidade, então as possíveis soluções para esse problema seriam o desenvolvimento de fornecedores locais e a qualificação dos componentes no Brasil, tais como projeto de módulos eletrônicos dedicados, fabricação de módulos sob encomenda e qualificação dos módulos para uso espacial(AIAB, 2009).O resumo das respostas dos empresários a essa questão encontra-se no Quadro 21.
Quadro 21 – Embargos à aquisição de tecnologia no exterior, impactos e medidas mitigadoras
Descrição Código Aquisição e
embargos a insumos tecnologia no exterior
Impacto na produção e capacidade de
inovação
Medidas mitigadoras
Empresa A Sim, no caso CBERS.
Há a necessidade de desenvolver produtos ITAR free, usando componentes europeus.
As opções e a
qualidade são reduzidas em comparação aos americanos.
Componentes ITAR free.
Empresa C Não se aplica, pois trabalha com partes mecânicas, não eletrônicas
Não se aplica Eu coloco esse potencial de restrição já como uma condição de contorno na hora do projeto , eu tenho
material A , B e C pra usar eu já vou tentar usar um que seja mais livre de controle Empresa E Não, pois adquire
componentes de parceiros europeus
A produção atrasa, sem dúvida. Na inovação é que é o problema.
Se você parte do projeto sabendo que tem essa restrição, você pode buscar solução inovadora.
Se você quer comprar o melhor componente do mercado que faz tudo, aí você de fato não vai buscar alternativa.
Busca, cada vez mais, componentes comerciais disponíveis e os
qualifica (p. ex. contra radiação)
Empresa O Sim. Não se consegue comprar alguns componentes para tecnologias críticas ou de emprego dual.
Atrasa o
desenvolvimento de alguns produtos pois temos que partir para o desenvolvimento de componentes que poderiam ser adquiridos no mercado.
Tentar evitar o uso de componentes ITAR.
Fonte: A autora
4.2.4.2 Tendências em relação às tecnologias espaciais no Brasil
Passando às tendências das tecnologias espaciais no Brasil, asrespostas refletem diferentes visões dos empresários, conforme o Quadro 22. Dizem respeito à gestão dos projetos espaciais, ao tamanho dos satélites e de veículos lançadores e seus componentes, a novos materiais, e também ao tipo de satélite que deve ser construído daqui para frente. Essas respostas denotam a diversidade de entendimentos dos empresários acerca do setor espacial, refletindo o comprometimento dos mesmos com o desenvolvimento de tecnologia nacional.
Quadro 22 - Tendências em relação às tecnologias espaciais no Brasil
Código Descrição
Empresa A É necessário descentralizar os projetos espaciais do INPE. Este não tem mais capacidade de gestão e acaba impossibilitando novos projetos.
Empresa C Satélites menores (miniaturização/ nanosatélites) e veículos lançadores menores e mais baratos.
Empresa E Na eletrônica, componentes menores com melhor desempenho, novos materiais, como Carbeto de Silício. Principalmente no Brasil nós temos que buscar qualificação de outros materiais, buscar componentes disponíveis e usar no espaço, e não só copiar, se depois há um embargo naquilo, a gente fica paralisado.
Empresa O Tendência para desenvolvimento de satélites para telecomunicações e meteorológicos além dos já desenvolvidos para missões de observação da terra.
Fonte: A autora
Ao passo que a Empresa A respondeu sobre a gestão centralizada pelo INPE e a necessidade de mudar essa estratégia nos projetos de satélites, mostrando certo desvio do foco da pergunta, as demais empresas fizeram afirmações sobre mudanças no tamanho e na tecnologia de satélites, bem como sobre novos materiais como meio para evitar embargos comerciais.
4.2.4.3 Impactos da nova configuração de prime contractor na área espacial através da condução de atividades inovativas da empresa e na relação com o governo
Programas espaciais mais avançados são geralmente conduzidos por uma agência reguladora forte, como é o caso da Europa, por exemplo, com a Agência Espacial Europeia (ESA), que trabalha com uma empresa integradora. No Brasil, não havia, até pouco tempo, uma empresa integradora de grande porte, e há grande fragilidade na cadeia de desenvolvimento e produção do setor espacial (BRASIL, 2009).
Este cenário começou a se modificar em 2012 com o lançamento de uma nova empresa, uma joint-venture, Visiona Tecnologia Espacial S.A, formada com participação da Embraer (51%) e da Telebras (49%). A Visiona terá participação no Programa Nacional de Atividades Espaciais, e deverá atuar em parceria com universidades e centros de pesquisa para acelerar a capacitação do setor espacial brasileiro, transferindo tecnologia para a qualificação de componentes de uso espacial. Especificamente, atuará no desenvolvimento do Satélite Geoestacionário Brasileiro (SGB), a ser lançado em 2014 (JORNAL DA CIÊNCIA, 2012b). Devido ao potencial desse fato acarretar mudanças para o setor, indagamos a opinião dos empresários sobre as implicações, conforme respostas no Quadro 23.
Quadro 23–Nova configuração de um prime contractor na área espacial no Brasil
Código Descrição
Empresa A “Depende como o negócio for conduzido. Pelas notícias o satélite geoestacionário será adquirido inteiramente fora do Brasil, sobrando para o prime contractor apenas a gestão e muito pouco para as demais empresas.”
Empresa C “Se eu estiver dentro do negocio eu acho legal, se eu estiver fora vou achar ruim...Há a necessidade de realizar projetos de desenvolvimento, para depois futuramente esse prime contractor conseguir consolidar os seus fornecedores ... nós estamos consolidando ainda, iniciando com o governo, formatando uma indústria de suprimentos.
Nós temos medo que essa politica de montadora se expanda no prime contractor. Esse é nosso medo, a gente tenta se posicionar contra isso pela nossa associação.”
Empresa E “Eu vejo com bons olhos, é uma quebra de paradigma, o prime contractor. Vem direto do governo brasileiro contratando na empresa um produto espacial, isso é fundamental.”
Empresa O “Esperamos contribuir com conhecimentos de engenharia de sistemas para realizar especificações e auxiliar no acompanhamento da fabricação, montagem, integração e testes do satélite que deverá ser feita no exterior. Para o segundo satélite, esperamos ter a oportunidade de fornecer os equipamentos, partes e componentes para os quais dispusermos das tecnologias afins.”
Fonte: A autora
Os empresários demonstraram interesse em contribuir com seus conhecimentos técnicos para qualificar-se como fornecedores do novo satélite. Há a intenção de qualificar a indústria nacional, e uma valorização da iniciativa do governo em mudar a modalidade de contratação de um produto complexo como o satélite geoestacionário.
5. DISCUSSÃO E SINTESE DOS RESULTADOS
Os mecanismos institucionais de incentivo à inovação pelo governo são principalmente descritos pela teoriainstitucional, dos sistemas setoriais e nacionais de inovação, triângulo de Sabato, tripla hélice, e, também, pela inovação aberta. Estas teorias fornecem a base conceitual para a compreensão da formulação e implementação de ações, pelos respectivos atores, para estimular e dinamizar o processo de inovação. Governos são responsáveis por criar mercados na tentativa de estimular o poder de compra no setor privado, exercendo a prerrogativa de contratante. E empresas são responsáveis pela concretização das inovações no mercado, através do desenvolvimento e fabricação de produtos. Esses elementos e suas repercussões em processos, mecanismos e relacionamentos entre os agentes do setor espacial foram estudados na presente tese, e, neste capítulo, são discutidos os resultados e suas implicações teóricas e práticas.
5.1 CARACTERIZAÇÃO DO UNIVERSO ORGANIZACIONAL DO SETOR ESPACIAL