C. Enquadramento bibliográfico
2. Doenças do pâncreas exócrino
2.1. Pancreatite
2.1.3. Diagnóstico
2.1.3.6. Outros exames complementares
Outros marcadores têm sido estudados, mas nenhum pode atualmente ser recomendado para o diagnóstico de rotina, devido a ainda não terem sido suficientemente avaliados, ou a apresentarem baixa sensibilidade e/ou especificidade. Além disto, a disponibilidade da maioria destes testes é atualmente limitada. Estes marcadores incluem as concentrações séricas de elastase-1 pancreática (PE-1), os complexos tripsina/inibidor 1α-proteinase e α2- macroglobulinas, as concentrações séricas e na urina do TAP, e as concentrações séricas de marcadores inflamatórios. Destes, as concentrações séricas de PE-1, do TAP (Xenoulis, 2015) e de alguns marcadores da inflamação parecem ser promissores (den Bossche, Paepe, & Daminet, 2010; Tvarijonaviciute, et al., 2015).
PE-1
A PE-1 é sintetizada nas células acinares e, na presença de inflamação pancreática ativa, é libertada para a corrente sanguínea ao mesmo tempo ou imediatamente após a libertação de tripsina, contribuindo para manter o estado de inflamação (Mansfield, Watson, & Jones, 2011) ao aumentar a atividade oxidativa dos neutrófilos (Mansfield, 2012a). Esta enzima é também menos afetada por uma excreção renal diminuída do que a maioria das restantes enzimas pancreáticas. A diferença entre as concentrações séricas de PE-1 em cães saudáveis e com pancreatite são significativas (Mansfield, Watson, & Jones, 2011).
No estudo realizado por Mansfield, Watson & Jones (2011), foi observada uma especificidade de 91,7% e uma sensibilidade geral de 61,4%, sendo que a sensibilidade aumentou para 78,3% quando apenas se consideraram cães com PA grave. Já o grupo de cães com PC apresentou valores de PE-1 geralmente mais baixos. Assim, a PE-1 sérica pode ser útil para o diagnóstico de PA grave, mas menos útil para o diagnóstico de formas mais ligeiras da doença.
Concentrações plasmáticas e na urina do TAP
O TAP é libertado durante a ativação do tripsinogénio em tripsina (den Bossche, Paepe, & Daminet, 2010). Enquanto em condições normais a ativação do tripsinogénio ocorre exclusivamente no intestino delgado, na pancreatite o tripsinogénio é ativado prematuramente nas células acinares e o TAP é libertado para o espaço vascular (Steiner, 2006), pelo que um aumento significativo deste pode ser detetado no sangue e urina durante as primeiras horas após o desenvolvimento da pancreatite, principalmente nos casos mais graves (den Bossche, Paepe, & Daminet, 2010). Em casos ligeiros existe um menor envolvimento ativo da tripsina (Ruaux, 2003), pelo que nestes a utilidade do TAP pode ser mais limitada (den Bossche, Paepe, & Daminet, 2010).
A avaliação da sensibilidade e especificidade das concentrações plasmática e urinária de TAP no diagnóstico de pancreatite induzida revelou valores superiores a 80% (Xenoulis & Steiner,
2008). Contudo, em casos de doença espontânea, os valores obtidos não são tão otimistas (Steiner, 2006). Tal deve-se à natureza transitória desta molécula em circulação e na urina, o que sugere que este teste só terá utilidade se as amostras forem colhidas muito cedo no decorrer da doença (Ruaux, 2003). Visto que muitas vezes, o início da doença não é conhecida, é possível que as concentrações de TAP estejam já a diminuir na altura da sua medição. Também devido à sua limitada disponibilidade e elevado custo, este teste apresenta pouca utilidade (den Bossche, Paepe, & Daminet, 2010). Ainda assim, a concentração de TAP sérica é mais sensível na avaliação da gravidade da doença do que cTLI.
O TAP urinário é considerado ainda menos preciso do que o TAP sérico no diagnóstico de pancreatite grave. Outra possibilidade é o cálculo do rácio TAP/creatinina urinário (UTCR), que é considerado um bom indicador de prognóstico em cães com valores diminuídos (den Bossche, Paepe, & Daminet, 2010).
Marcadores da inflamação
Quando os tecidos estão lesados, por trauma direto ou por mecanismos inflamatórios, ocorre uma marcada alteração da síntese de proteínas celulares. A produção de proteínas constitutivas é reduzida, enquanto novas proteínas, que não estão tipicamente presentes nas células, são produzidas. Isto é denominado “resposta de fase aguda”, sendo as proteínas produzidas protetoras contra danos adicionais (Ruaux, 2003). Visto que a PA é um processo inflamatório, são libertadas proteínas de fase aguda pelo fígado, tal como a proteína C reativa (den Bossche, Paepe, & Daminet, 2010). Segundo um estudo realizado por Nakamura, et al. (2008)6 e citado por den Bossche, Paepe, & Daminet (2010), que investigou os níveis de proteína C reativa em 928 cães com várias doenças, a PA foi uma das doenças com níveis de proteína C reativa mais elevados. Contudo, uma vez que esta pode ser libertada secundariamente a qualquer tipo de inflamação, infeção, lesão tecidular ou trauma, a sua especificidade muito baixa para ser usada no diagnóstico na PA (den Bossche, Paepe, & Daminet, 2010).
Um estudo recente de Tvarijonaviciute, et al. (2015) também demonstrou o potencial da paraoxanase 1 (PON1) como marcador de pancreatite e a a sua utilidade na avaliação da gravidade da doença. A PON1 é uma enzima sintetizada no fígado e secretada no plasma, e uma das suas funções mais importantes parece ser o metabolismo de lípidos oxidados e tóxicos. Já tinha sido descrita anteriormente uma diminuição da atividade desta enzima na PC no homem e na PA induzida em ratos, mas este foi o primeiro estudo realizado em cães com PA. Verificou-se uma diminuição de 30% na atividade de PON1 em cães com PA, que se encontrava negativamente correlacionada com os valores de proteínas de fase aguda e com
6 Nakamura, M., Takahasi, M., Ohno, K., Koshino, A., Nakashima, K., Setoguchi, A., Fujino, Y., Tsujimoto, H. (2008). C-reactive protein concentration in dogs with various diseases. Journal of veterinary medical science, 70, 127-131.
a gravidade da doença. Assim, a atividade da PON1 tem potencial para ser usada na avaliação da gravidade da PA (Tvarijonaviciute, et al., 2015).
Também está a ser investigada a utilidade de várias citoquinas (den Bossche, Paepe, & Daminet, 2010). O aumento de IL-6 e a diminuição da concentração da citoquina anti- inflamatória IL-10 têm sido observados em casos de pancreatite grave. Também a presença de necrose pancreática se correlaciona fortemente com o aumento na concentração de IL-8 (Mansfield & Jones, 2001b).