V. A BIOTECNOLOGIA INTERFERINDO NO PARENTESCO E NA FILIAÇÃO
V.1. OUTROS PARADÍGMAS E DIFERENTES PONTOS DE PARTIDA
Dentre os diversos conceitos e institutos do Direito de Família, foi o
parentesco um dos mais afetados pela evolução tecnológica. Como se viu alhures,
aqui há o total distanciamento do paradigma de definição do parentesco pela
consangüinidade.
A descendência, desvinculada da consangüinidade, passa a se afirmar
tendo por base o amor, as relações afetivas ou outros vínculos definidos pelos atores
envolvidos na relação e com arbítrio para tal definição. É um projeto parental
alicerçado por uma gama de emoções, desejos e esperança, o traço principal com o
qual se inicia o esboço do parentesco pela reprodução não circunscrita a
parentalidade biológica ou à consangüinidade.
O Código Civil de 2002 trata rapidamente da modalidade de filiação e do
parentesco advindos da reprodução assexuada. O artigo 1.597 quando se refere às
novas técnicas reprodutivas, o faz apressadamente, dando margem a um cabedal de
questionamentos. Persistem, de todo modo na dinâmica codificada, a compreensão
da filiação através da certeza angariada pela reprodução sexual. A filiação
bioecnológica se baseia na afetividade, na responsabilidade e na exatidão do desejo
incondicional de maternidade/paternidade, motivado por incontáveis razões. Em se
considerando a afetividade como elemento estruturante do parentesco nas
descendências originárias das técnicas de NTRs, chega-se, ao mesmo tempo, às
seguintes conclusões: a sexualidade não é mais o único ponto de partida, a
consangüinidade passa a uma posição de irrelevância, a hereditariedade genética
pode deixar de existir tanto do lado materno quanto do paterno.
Para Rodrigo da Cunha Pereira (2006), é esta modalidade de parentesco
quem demanda um novo olhar do direito
76, ante a impossibilidade dele se distanciar
dos componentes sociais.
76
Maria Berenice Dias é quem relembra estarem rompidos os paradigmas a que se estava condicionada a família: casamento, sexo e procriação ao explicar que o casamento não serve mais para o reconhecimento da entidade familiar, o sexo deixou de ter lugar exclusivo no matrimônio e o contato sexual tornou-se dispensável para procriação. (2004, p. 21).
Independentemente da modalidade de reprodução, a conseqüência do
projeto parental bem sucedido é sempre filiação, biológica ou sócio-afetiva. As NTRs
contam com forte elemento, o desejo incondicional de paternidade/maternidade,
Guilherme Calmon Nogueira da Gama (2003) chega a denominá-lo “vontade/risco”.
Com isso o fato de se ter auxílio de profissional de saúde, de se estar
diante de material genético de outrem ou de gestação em útero alheio, não elidem a
força da filiação, dos laços que unem os filhos e os pais sócio-afetivos.
Levam-se em conta elementos subjetivos. Em lugar da verdade biológica
tem-se a verdade tecnológica fecundada no desejo humano, suficientemente forte
para desencadear um longo processo, hoje ainda desgastante, dispendioso,
impeditivo de outros projetos pessoais e da família. Marcado por um difícil período de
tentativas e esperas. Vai do momento da descoberta da impossibilidade de procriar
biologicamente; da tomada de decisão de se submeter a uma das NTRs; da escolha
do médico; da possibilidade pessoal - física, psicológica, profissional, financeira - de
submissão, até o sucesso da aplicação da técnica. Daí decorrem os pressupostos
laços afetivos originários a unir pai, mãe e filhos, tendo em vista a natureza das
emoções envolvidas e os sacrifícios demandados.
A reprodução da família biotecnológica deve ter valores, princípios e regras
definidoras das relações de parentesco, reorganizadas através de novos
questionamentos sociais e jurídicos. Ela surge na contemporaneidade impondo a
necessidade de conceitos e regramentos distintos dos da família biológica. É
detentora de exigências e especificidades inerentes à sua modalidade de
conformação. Não se trata de mais um desafio contemporâneo, mas de um grande
desafio histórico, suas questões demandam reflexões acuradas tendo em vista um
árduo caminho a percorrer.
A família biotecnológica, assim como qualquer família, tem as
características enunciadas por François Singly (1996), é espaço para constituição de
novas identidades e lugar de reprodução da sociedade. Ou, como quer Luiz Edson
Fachin (2003), é “um corpo que se reconhece no tempo. Uma agregação histórica e
cultural como espaço de poder, de laços e de liberdade. Uma aliança composta para
representar harmonia e paradoxos” (p.3).
A invasiva evolução tecnológica do século XXI contribui para alterar a
dinâmica social familiar - já tão modificada pelas revoluções industrial e cultural,
primeiro na Europa, depois na América - e obriga a configuração de conceitos
jurídicos diversos dos tradicionais. A família e o Direito de Família passam a ter que
pensar e regulamentar relações advindas da reprodução medicamente assistida, uma
nova prática social. Questões novas exigem soluções atuais. Luiz Edson Fachin
(2003), mais uma vez, com toda propriedade, esclarece que o Direito Civil se
encontra em franca transformação e observa a posição de destaque do Direito de
Família no novo cenário social:
No modelo herdado dos valores vigorantes no século passado,
um ruído, elementos estranhos. Nova pauta das discussões.
Crises e transformações emergem, gerando mudanças nos
papéis tradicionalmente cometidos aos institutos fundamentais
do Direito Civil: trânsito jurídico (contrato), projeto parental
(família) e titularidades (posse, apropriação). A família e o
Direito de Família alavancam esse novo olhar possível sobre o
governo jurídico dos institutos de base do Direito Privado.
Tarefa de Sísifo? A releitura desses estatutos é útil e
necessária para compreender a crise e a superação do sistema
clássico que se projetam para o contrato, a família e o
patrimônio (p. 44).
E Gama (2006) diz que há um esgotamento do modelo pautado
exclusivamente na relação sexual, ora substituída pela manifestação inequívoca de
vontade do casal, associada ao desejo responsável de descendência, à relação de
confiança entre os envolvidos, à dedicação e ao afeto dispensados à criança que
está por vir.
A presunção de paternidade, embasada no casamento, aquela presunção
que, de acordo com as palavras de Eduardo de Oliveira Leite (1995), foi o alicerce
edificador de toda a estrutura do parentesco do mundo ocidental, consagrada a partir
do Código de Napoleão, em 1804. A evolução científica e as contribuições do
desenvolvimento tecnológico foram, paulatinamente, reduzindo o papel desta
verdade, cedendo lugar às conquistas obtidas pela verdade genética, a exemplo do
exame de DNA, ao permitir excluir ou atribuir a paternidade calcada na verdade
biológica, reduzindo a nada a verdade estabelecida no registro de nascimento. A
procriação artificial alterou esta evolução natural e nega uma tradição assentada,
inicialmente na presunção de paternidade e depois na verdade biológica, em proveito
de uma verdade biotecnológica. Uma nova ordem funda a filiação sobre a vontade e
sobre a promessa da verdade afetiva.
No documento
UNIVERSIDADE CATÓLICA DO SALVADOR
(páginas 91-94)