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Apesar de ser de Aristóteles o mais respeitado sistema de mundo da antiga Grécia, houve quem dotasse a Terra de movimento antes mesmo dele propor seu sistema geocêntrico! A seguir iremos ver alguns sistemas de mundo de épocas próxima a de Aristóteles.

O primeiro grande nome é do pitagórico Filolau (480-400 a.c). Em seu sistema, além da Terra não ser o centro do Universo, era dotada de movimento. O centro do universo era um Fogo Central (que não era o Sol) e era ao redor deste Fogo que todos os planetas, inclusive o Sol e a Terra, giravam. A partir do Fogo Central a ordem dos orbes celestes era: Anti-Terra, Terra, Lua, os cinco planetas e a esfera das estrelas fixas (NETO, 1973. P.26).

A Anti-Terra é um elemento estranho, parece ter sido inserido neste sistema para que o sistema de Filolau ficasse com 10 orbes celestes, pois este parecia ser um número perfeito para os pitagóricos:

Quando eles (os pitagóricos) encontravam em algum lugar uma lacuna nas relações numéricas das coisas, eles, imediatamente, ocupavam-na a fim de fazer toda a teoria coerente. Como dez é um número perfeito, e admitindo que ele contenha a natureza toda dos números (sendo a soma dos quatro primeiros números) eles sustentavam que devia haver dez corpos movendo-se no céu, mas como somente nove são visíveis eles fizeram antiehthon [Anti-Terra] o décimo planeta. (ARISTOTELES apud EVORA, 1987. p.11 – grifo nosso)

Obviamente a Anti-Terra não era visível, já que não passava de pura invenção para entrar em acordo com o misticismo do número dez. Explicavam que esse corpo adicional não era visível ou por estar sempre perto da Terra (e do lado oposto da região que os gregos viviam) ou por estar diametralmente oposto a ela (ver figura 3 a seguir).

É importante mencionar que neste sistema não há movimento de rotação da Terra e que o sistema de Filolau não é nem geocêntrico nem heliocêntrico, já que os planetas não giram nem ao redor da Terra e nem ao redor do Sol.

Passemos agora para um sistema semi-heliocêntrico e semi-geocêntrico ao mesmo tempo. Ele foi proposto por Heraclides de Ponto (390 – 310 d.C.) no século IV a.c. Em seu sistema a Terra é o centro do universo e dotada do movimento de rotação. O primeiro corpo a orbitar a Terra era a Lua, logo em seguida vinha o Sol, Marte, Júpiter e por último Saturno. Ao redor do Sol orbitavam Mercúrio e Vênus, que eram carregados pelo Sol em seu movimento de translação em torno da Terra (PEDUZZI, 2008. p.18). Devido parte dos planetas orbitarem a Terra e outra orbitarem o Sol, seu sistema é semi-geocêntrico e semi-heliocêntrico ao mesmo tempo. Heraclides concebia ser o cosmos infinito (EVORA, 1987. p. 36).

Aristarco de Samos (320 – 250 d.C.) foi o (provavelmente primeiro) homem que conhecemos a propor um sistema de mundo em que a Terra possui movimento, antes da era cristã. Propôs um sistema heliocêntrico. Isso mesmo, aproximadamente dois mil anos antes de Copérnico já tinha havido quem tivesse proposto um sistema Heliocêntrico! Aristarco propôs um sistema em que todos os planetas, inclusive a Terra, giravam em torno do Sol, com a Terra girando em torno de um eixo próprio e a Lua orbitando-a.

Os desenvolvimentos desses sistemas astronômicos que colocam a Terra em movimento tendem para concepções modernas do nosso sistema solar, entretanto, ao contrário do que se pode imaginar, não foram essas concepções as reinantes nos próximos séculos. O sistema

Figura 3 - Sistema de Filolau. a) a Terra está diametralmente oposta a Anti-Terra e como ambas giram

com mesma velocidade angular, em momento algum o lado habitado da terra estará em posição que permita visualizá-la. b) A Anti-Terra gira com mesma velocidade angular, porém, diferente da figura anterior, está perto da Terra, em momento algum o lado habitado da Terra teria chance de vê-la.

geocêntrico aristotélico-ptolomaico foi que perdurou por dois mil anos (com algumas modificações, claro) e o sistema Heliocêntrico da antiguidade só voltara a ser lembrado com a obra De Revoluitionibus de Copérnico.

Poder-se-ia esperar que a atribuição de movimento ao planeta Terra deveria ter sido proposto depois das alegações geocêntricas, mas, não foi. O Sistema de Filolau, por exemplo, foi apresentado antes mesmo do nascimento de Aristóteles. Podemos dividir os desenvolvimentos astronômicos em duas partes: aquela que culminou no sistema ptolomaico, que começa em Platão e passa por Eudóxo, Calipo, Aristóteles, Apolônio, Hiparco e por fim, Ptolomeu. A esse podemos chamar de tendência aristotélico-ptolomaico, por esses nomes serem os mais influentes na fundamentação do geocentrismo; Por outro lado, temos o desenvolvimento que vai em direção ao geocentrismo de Aristarco, passando pelos nomes de Filolau e Heraclides. Como Aristarco é quem, pela primeira vez, propôs o sistema heliocêntrico, chamaremos de tendência aristarquiana. Temos então a importante pergunta: por que a tendência aristotélica-ptolomaica e não a tendência aristarquiana de descrever o cosmo triunfou e predominou nos séculos seguintes? Esta pergunta está ligada a outra: “por que que Copérnico, e não Aristarco, triunfou ao apresentar o sistema heliocêntrico?”. Para esta pergunta podemos encontrar diversas respostas respaldadas na literatura sobre o tema. Uma delas parece nos ajudar a entender o porquê a humanidade escolheu o caminho do geocentrismo.

Ao apresentar seu sistema de mundo, Aristóteles também cria uma mecânica coerente com esse sistema, de modo que, mesmo hierarquizado, mesmo dividindo o cosmo entre mundo sublunar e das esferas celestes, possuía uma mecânica para os céus e outra para a região sublunar de forma que uma mudança significativa de uma traria a necessidade de mudança na outra. O fato dessas regiões possuírem leis distintas, não quer dizer que não sejam ligadas de alguma forma. Ao dizer, por exemplo, que se o movimento circular não é natural na Terra, mas o é em outro lugar, dá para perceber essa ligação. Isso não foi feito, pelo que se saiba, pelos preponentes da tendência aristarquiana. Dessa forma é mais lógico os gregos antigos escolherem o geocentrismo ao invés do heliocentrismo, pois é para este que se tem uma mecânica coerente (a de Aristóteles). E qualquer proposta que coloque a Terra em movimento, para triunfar, deveria vir com uma nova mecânica que supere a que Aristóteles expôs e que era coerente para o geocentrismo. A proposta de Aristarco, vinda após a de Aristóteles, não tinha uma nova mecânica e nem era coerente com essa “Física” apresentada por Aristóteles. A proposta heliocêntrica de Copérnico também não ofereceu uma nova mecânica, mas, em

compensação, pouco tempo depois de tê-la lançado houve homens como Kepler, Galileu e Newton que desenvolveu uma mecânica totalmente nova, capazes de fazer previsões muito mais precisas e com regras universais (para aquela época), para assim, o heliocentrismo parecer plausível22.

Escolhido o geocentrismo, só restava aprimorar a teoria o máximo possível para entrar em acordo com as observações. Por volta da mesma época da proposta de Aristóteles, já eram notados fenômenos que o sistema geocêntrico falhava em explicar, como, por exemplo, a variação de brilho dos planetas, “fato que só se podia explicar admitindo mudanças em suas distancias em relação a terra” (KOYRÉ, 2011. p. 86). Para tornar a teoria coerente com a observação, foi necessário o desenvolvimento e a aplicação de novas ferramentas matemática: os epiciclos e excêntricos de Apolônio de Perga (261-190 a.c). Posteriormente desenvolvidas por Hiparco de Nicéia (190-120) e chegando ao seu estágio final com as aplicações de Ptolomeu (85-165 d.c).

Apesar de criar os epiciclos, (Apolônio) “aparentemente não aplicou aos movimentos celestes” (GLEISER, 2014. p. 78), quem o fez foi Hiparco. Mesmo em Hiparco, os usos dos Epiciclos foram destinados a descrição do Sol e da Lua, cabendo a Ptolomeu usar dessa técnica para descrição completa dos movimentos dos corpos celestes (id, p.79). Além de criar o epiciclo, Apolônio criou o excêntrico, que foi usado até mesmo por Copérnico. Também descobriu que tanto faz usar um excêntrico ou dois epiciclo na descrição dos movimentos dos planetas que os resultados seriam os mesmos.

Hiparco foi considerado o maior astrônomo da antiguidade. Além de aperfeiçoar o sistema de epiciclos, lhe são atribuídos: O primeiro a lançar ideia da força impressa (PEDUZZY, 2008. p.48); um dos criadores da trigonometria; observou 850 estrelas a olho nu, classificando-as em acordo com o brilho; descobriu a precessão dos equinócios; listou todos os eclipses acontecidos nos últimos 800 anos; discutiu a precessão dos equinócios; primeiro a calcular a duração de um ano com exatidão: 365 dias, 5 horas e 55 minutos (ROONEY, 2013. p. 156); inventou o astrolábio (GLEISER, 2014. p. 79); entre outros feitos.

22 ver, por exemplo, BASTOS F.(1995).

Todos esses novos elementos que foram aplicados na astronomia para darem conta dos fenômenos observados serão apresentados concomitantemente com a apresentação do sistema de Ptolomeu a seguir.