PARTE I: REVISÃO DA LITERATURA
4.1 Arquitetura e o clima
4.1.4 Outros usos e o clima
Uma obra referencial relacionada ao clima e que expressa bem a influência do projetar “frondoso” de Armando de Holanda é o Terminal Rodoviário de Maceió78, projeto dos arquitetos Mario Aloisio Melo, Leonardo Bittencourt e Eduardo Assumpção79.
FIG. 67 - Slide sobre a influência de Armando Holanda no projetar “frondoso” do Terminal Rodoviário de Maceió.
Fonte: arq. Mario Aloisio Melo.
A edificação possui planta com formato quadrado, sua volumetria destaca-se na paisagem por sua localização (na parte mais alta e plana do terreno) e por sua grande cobertura em treliça espacial metálica pintada de vermelho. Internamente, atrai a atenção um grande jardim interno, inscrito em um dos quadrantes para distribuição de luz e ventilação nas áreas internas.
FIG. 68 – Terminal Rodoviário de Maceió – Vista do acesso.
Fonte: Arq. Mario Aloisio Melo.
FIG. 69 - Terminal Rodoviário de Maceió – Jardim interno e painéis de fibra de vidro.
Fonte: MELO, 2005, p.127
78
Ver planta baixa no apêndice 01 – Obra 05.
79
Mario Aloisio Barreto Melo, arquiteto, nasceu em Penedo em 1950, formou-se pela UFPE em 1973.
Eduardo Assumpção, arquiteto, nasceu no Rio de Janeiro, foi professor da UFAL (não foram obtidas mais informações sobre este arquiteto).
Segundo Mario Aloisio Melo (2005, p.120), o Terminal “foi projetado segundo princípios de rigorosa funcionalidade, forma simples, economia e rapidez de construção, além de adequação às características de uma região de clima quente e úmido”. Quanto às soluções projetuais relacionadas ao clima:
O terminal pode ser definido como um grande sombreiro ventilado, partindo do princípio de uma região quente e úmida basta estar sob uma sombra para que a temperatura esfrie consideravelmente desde que a brisa possa atravessá-la. No entanto, em se tratando deste caso foi necessário também evitar que as chuvas invadissem o terminal juntamente com o vento, e a solução adotada com uso de painéis de fibra de vidro como anteparo se mostra eficiente até hoje (MELO, 2005, p.123).
O projeto é de fácil compreensão espacial e estrutural80, é simples visualizar a forma geométrica quadrada de sua planta e coberta suportada por seus nove pilares, sua centralidade e seus eixos. Há um predomínio do vazio sobre o cheio e a sensação para quem percorre seus espaços é de liberdade. Quanto aos aspectos climáticos, seus amplos beirais (12,90m) promovem sombra e os painéis de vidro (existentes nas fachadas nordeste, sudeste e na extremidade leste da fachada sudoeste) protegem da chuva, tornando a edificação bastante agradável a maior parte do dia e do ano, causando apenas a sensação de frio durante a noite quando está ventando muito.
Recentemente, Cavalcanti e Bittencourt (2008) verificaram alguns detalhes que poderiam ser melhorados no Terminal: i) com relação à proteção solar, os painéis da fachada sudoeste teriam sido mais bem aproveitados se fossem localizados na extremidade oeste e ii) a ventilação dos banheiros poderia ser favorecida, caso os sheds localizados para noroeste fossem localizados para sudeste. No entanto, no contexto geral, estes são pequenos detalhes que não tiram o mérito do desempenho bioclimático da edificação.
Outra obra que se preocupa com a questão climática é o Núcleo de Pesquisas Multidisciplinares da UFAL81:
Neste prédio a variável climática, somada às preocupações relacionadas ao conforto ambiental e eficiência energética, foi incorporada no processo projetual. Foram adotados artifícios arquitetônicos, tais como captadores de vento, brises, beirais, prateleiras de luz e peitoris ventilados, como forma de otimizar-se a ventilação e iluminação natural dos ambientes e minimizar a dependência de meios mecânicos de refrigeração e iluminação (CÂNDIDO, TORRES e CABÚS, 2005).
80
Ver comentários gerais no apêndice 01 – Obra 05.
81
FIG. 70 - Núcleo de Pesquisas Multidisciplinares da UFAL (2003).
Projeto: arq. Leonardo Bittencourt, Antônio Rodrigues do Nascimento Jr. e Elisabeth de Albuquerque Cavalcanti. Foto: Claudio Bergamini, 2007.
Pode-se verificar estes artifícios no corte do projeto de arquitetura:
FIG. 71 - Corte AA`- Núcleo de Pesquisas Multidisciplinares da UFAL.
Fonte: CÂNDIDO, TORRES e CABÚS, 2005.
No entanto, após a ocupação, alguns destes elementos arquitetônicos estão sendo fechados. Há duas explicações para essa ocorrência: ou os usuários não estão sabendo utilizar os dispositivos propostos de forma correta (por hábito ou desconhecimento) ou talvez uma solução projetual passiva não fosse essencial à função do prédio que contém laboratórios que não necessitam primordialmente de ventilação natural, mas sim de climatização do ar.
Paradoxalmente, em tempos em que se discute tanto sobre sustentabilidade há obras em Maceió, tais como o Hotel Brisa Tower, na orla da Jatiúca, e o novo Palácio República dos Palmares, no Centro da cidade, que parecem negar o clima, adotando
uma linguagem que tenta ser minimalista mais que acaba se aproximando mais do “estilo internacional”.
No Hotel Brisa Tower a pele de vidro encontra-se na fachada leste, recebendo, toda a insolação da manhã, sendo que no clima tropical e na latitude de Maceió, a pele de vidro só é aceitável na fachada sul, pois assim não recebe insolação na maior parte do ano (exceto no verão). No novo Palácio República dos Palmares, por se tratar de dois prismas de vidro interligados por um volume recuado também em pele de vidro, o caso se agrava ainda mais, pois o sol aquece a edificação em todas as orientações, tornando a edificação altamente dependente de equipamentos mecânicos para climatização.
FIG. 73 - Hotel Brisa Tower (2006), Jatiúca, Maceió-AL.
Projeto: arq. Humberta Farias. Foto: Claudio Bergamini, 2009.
FIG. 72 - Novo Palácio República dos Palmares (2006), Centro, Maceió-AL.
Projeto: arq. Juliana Lessa e equipe. Disponível:
http://www.gabinetecivil.al.gov.br/alagoas/palacios/foto02.jpg
O maior conflito entre arquitetura e clima é verificado na arquitetura comercial, na qual a necessidade de expor os produtos e a orientação solar nem sempre se harmonizam. Geralmente, verifica-se que o maior número de vitrines possíveis é o principal requisito de projeto, mesmo sendo informado pelos arquitetos sobre as conseqüências, a maioria dos comerciantes optam pela visibilidade de seus produtos.
No entanto, ao se concretizarem, estas vidraças são geralmente cobertas com toldos, persianas ou adesivos, a fim de amenizar o calor e ofuscamento causados pela forte radiação solar, assim como desbotamento dos produtos. Seguem dois exemplos, o primeiro de uma loja feminina cuja vitrine da fachada poente está coberta com pano e persianas e o segundo de um supermercado com os vidros cobertos com películas para proteger prateleiras de produtos encostadas no vidro.
FIG. 74 - Loja de roupas femininas, Ponta Verde, Maceió - AL.
Foto: Claudio Bergamini, 2009.
FIG. 75 - Supermercado Palato, Ponta Verde, fachada nascente.
Foto: Claudio Bergamini, 2009.