2.1 OS (TRÊS) PODERES
2.1.4 Outros velhos e novos poderes
Outros velhos e novos poderes podem ser identificados na literatura. O mais conhecido, talvez, seja o quarto poder. O termo quarto poder não é recente. Segundo Ianoni (2005), o mesmo foi cunhado pelo inglês Lord Macaulay (1800-1859), em 1828. Segundo a concepção de Macaulay, a imprensa desempenharia um duplo papel: como a guardiã dos cidadãos contra governantes tiranos que até então não haviam revelado sua face perversa e como veículo de informação, no sentido de munir os cidadãos com ferramentas para exercer seus direitos, expressando suas necessidades, preocupações e revoltas. Desta maneira, a mídia tonar-se-ia o quarto poder, numa clara dimensão política, no sentido de fiscalizadora dos outros três poderes dos Estados liberais – o Executivo, o Legislativo e o Judiciário -. Paralelamente a esta conotação positiva da mídia, caminha a ideia de que ela exerceria tanta influência em relação à sociedade, quanto os outros três poderes.
Em outra versão do quarto poder, este seria exercido pelo Ministério Público (MAFRA FILHO, 2005), o qual seria responsável pela defesa dos direitos fundamentais e pela fiscalização dos Poderes Públicos, garantindo, desta maneira, a eficiência do sistema de freios e contrapesos. “Cumpre ressaltar, contudo, que há divergência de opiniões a respeito da existência deste quarto poder” (MAFRA FILHO, 2005, p.3).
Neste sentido, em Tese aprovada por unanimidade no VIII Congresso Nacional do Ministério Público, em Natal, no ano de 1990, entendeu-se que a função do Ministério Público "é a de defender os interesses da sociedade, quer em relação ao Governo e/ou à Administração Pública, quer quando a ofensa seja cometida pelos particulares". Desta forma, tem-se um Ministério Público autônomo, e esta autonomia não é apenas de índole funcional, financeira e administrativa, posto que não se vincula a nenhum dos poderes da República. No mesmo Congresso mencionado anteriormente11, foi reafirmado que "O Ministério Público no Direito positivo brasileiro é órgão independente, que não integra nem o Legislativo, nem o
11 Disponível em: http://biblioteca.versila.com/9351454/ministerio-publico-as-funcoes-do-estado-e-seu-
42
Executivo e nem o Judiciário, embora exerça função administrativa que, todavia, não se confunde com a tradicional função administrativa exercida caracteristicamente pelo Poder Executivo (...)". Inclusive a Constituição Federal valorizou de tal maneira a independência e autonomia do Ministério Público que considera crime de responsabilidade do Presidente da República a prática de atos atentatórios ao livre exercício da Instituição (CF, art. 85, II).
Voltando, porém, à ideia da Mídia como o quarto poder, Ianoni (2005) propõe uma inquietante questão: se o quarto poder funciona como fiscalizador dos outros três poderes e como influenciador da sociedade, quem o fiscalizará? O mesmo autor complementa:
O problema da influência da mídia sobre a opinião pública será tanto mais sério quanto mais oligopolista for a estrutura dos veículos de comunicação de massa. A globalização tem acentuado fortemente a concentração da mídia em grandes organizações corporativas, poderosas empresas capitalistas (p. 7)
.
Ainda neste sentido, a problemática da questão anteriormente referida se agrava, quando se recorda o artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovada em 1948 pelas Nações Unidas: “Toda pessoa tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e ideias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras”. Isto significa que, formalmente, são direitos a livre expressão e o acesso à informação. Por outro lado, sabe- se que a informação se transformou em mercadoria valiosa e propriedade de organizações cada vez mais poderosas e “que operam dentro da lógica da lucratividade” (IANONI, 2005, p. 10).
Nesta situação tão paradoxal é que Ianoni (2005) insere a ideia de um quinto poder:
a ideia do quinto poder se nutre de iniciativas como a luta pelo direito de antena, pela legalização das rádios comunitárias e TVs comunitárias, pela teledemocracia. [...] Trata-se de iniciativas que, por dentro ou por fora do sistema de comunicação dominante e por dentro ou por fora do marco político-institucional em que opere a mídia, caminhem no sentido da ampliação da democracia e do desenvolvimento de contra-hegemonia e caminhos alternativos de atuação comunicacional (p. 13).
Desta maneira, completa o autor, o quinto poder seria um fiscalizador do quarto poder, e a ele alternativo. Aqui talvez fosse possível situar a própria sociedade civil organizada, por meio de seus Conselhos e observatórios. Neste sentido, a pesquisa realizada por Allebrandt (2010) mostra que esta interação é possível, citando exemplos como o dos Coredes (Conselhos Regionais de Desenvolvimento) e Comudes (Conselhos Municipais de Desenvolvimento), ainda que apresente limites quanto à participação devido ao seu caráter recente, mas
43
As conclusões sinalizam que Coredes e Comudes se constituem em arranjos institucionais de interação entre a sociedade civil e o Estado que vem impactando significativamente a dinâmica de organização política e social do Rio Grande do Sul. No entanto, evidencia-se a necessidade de ampliar a participação dos cidadãos, especialmente dos segmentos menos organizados e populares, nas diferentes instâncias dos processos e estruturas organizadas nestes espaços públicos, aumentando as chances de práticas efetivamente deliberativas dessa experiência (p. 8).
Ainda segundo o autor, “organizados inicialmente em 21, hoje são 28 os Coredes em que se divide o território gaúcho, respeitando sempre o limite territorial oficial dos municípios que integram cada um deles” (ALLEBRANDT, 2010, p. 31). Mesmo alguns Conselhos Municipais de Desenvolvimento tendo sua criação datada no início da década de 1990 ou mesmo anteriormente, foi a partir de 2003 que a grande maioria dos municípios oficializou a criação dos seus Comudes.
O Fórum dos Conselhos, “integrado pelos presidentes e outros membros dos Coredes, reúne-se ordinariamente uma vez por mês, normalmente em Porto Alegre, e é o principal espaço de interação com o Governo Estadual, com a Assembleia Legislativa, com as estruturas do aparelho de Estado” (ALLEBRANDT, 2010, p. 31-32). Além disso, constitui-se em um amplo espaço de deliberação deste movimento no estado do Rio Grande do Sul. A figura 06 retrata o mapa dos 28 Coredes gaúchos e suas regiões de abrangência.
FIGURA 06: Mapa de abrangência dos 28 Coredes gaúchos
44