RESULTADOS E DISCUSSÃO
5.2 OUVINDO A ESCOLA
de busca constante de aceitação de seus impedimentos. Em contrapartida, tem dificuldade de aceitar o que ele considera “limitante” em si próprio.
A coordenadora vê certo comodismo por parte dos pais, pois, muitas das vezes não levam seus filhos para atendimento na APAE, restando apenas às atividades da escola. Um ponto alto da entrevista com a coordenadora é quando ressalta o despreparo do corpo docente:
“o professor, ele não tem, ele não sabe como lidar com esses alunos, e eles buscam as professoras do AEE da escola e, em alguns momentos elas não sabem como é que vão explicar como, por exemplo: o romantismo, que a professora está trabalhando no do 2º ano, Como fazer para que o aluno tenha aquela compreensão? Então... tem conteúdos possíveis:
os estados físicos da água dão para ilustrar, levar desenhos. Espaço e forma na matemática, mas outros conteúdos não! E aí os professores ficam de mãos atadas”.
Diante do exposto surge o empasse relativo às notas dos alunos especiais no relato da Prof.ª Lurdes: “o que eu tenho que fazer? Simplesmente dar nota por dar nota, porque esse aluno não teve aprendizagem alguma!”.
E continua, com a seguinte indagação: “Então o que o sistema quer?”.
A coordenadora diz que a escola dispõe de uma cuidadora, para guiar os alunos até o pátio, cantina, banheiros, etc., sendo que na realidade a escola necessita é de pessoas especializadas que possam trabalhar com essa clientela, tornando-se um mediador e/ou facilitador, podendo fazer explicações, criar mecanismos, criar formas, métodos pedagógicos, para que determinado conteúdo pudesse ser acessado por aquele jovem, JM e outros, de forma similar, gerando aprendizagem. “Dentre os especialistas são citados neurologistas, terapeutas ocupacionais, psicólogos, psiquiatras, fonoaudiólogos, assistentes sociais, entre outros”.
Portal. MEC.Gov.br.
Prosseguindo com a entrevista, a Prof.ª Lurdes expressa literalmente seu conflito com relação à inclusão: “E assim a gente acredita que essa inclusão só há no papel, na teoria, porque na prática é diferente! Na verdade eles estão sendo excluídos!”.
Perguntamos sobre a formação de professores e seu preparo para lidar com esse público. A coordenadora diz que nenhum professor tem especialização para lidar com o público especial. Segundo ela, tais profissionais deveriam ter algum tipo de treinamento prévio à inserção de alunos deficientes em suas salas. Segundo ela, nunca foi disponibilizado nenhum treinamento aos professores. Diz também que existem cursos no NAPI (Núcleo de Apoio Pedagógico à Inclusão), mas por não ser de obrigatoriedade, os professores não fazem.
Ressalta também que seria importante a disponibilização de palestras ou algo desse tipo para que os professores pudessem compreender melhor e trabalhar mais a contento com os alunos especiais.
E a escola estaria fisicamente preparada para receber esses alunos, perguntamos à ela.
Quanto à estrutura física da escola, a coordenadora diz que a escola está adequada ao atendimento aos especiais, ressaltando a existência de rampas e a sala de recursos que atendem no contra turno de cada aluno, provida de notebooks e outros equipamentos. Salienta mais uma vez que muitos pais não levam seus filhos para tais atendimentos por “preguiça e indisposição”.
Mesmo em meio a tantas dificuldades, segundo a coordenadora o processo de inclusão teve início na escola ano passado, sendo que nesse período registrou-se apenas uma evasão.
A Prof.ª Lurdes nos faz refletir sobe as reais contradições existentes no processo de inclusão escolar. Ao longo de seu relato há pelo menos três pontos importantes, que somados às demais informações da pesquisa, podem atuar positiva e negativamente nesse processo:
1- O sentimento de exclusão da professora no processo decisório de sua escola, quanto à implantação do sistema de inclusão.
2- A evidência da necessidade de formação dos professores para lidar com essa realidade
3- As concepções que a escola tem do que vem a ser inclusão.
5.3- O ELO DE JM COM A ESCOLA: A PROFESSORA SANDRA (SALA DE RECURSOS)
Prosseguindo com a pesquisa, entrevistamos a professora Sandra, da sala de recursos, onde nos pareceu acontecerem momentos de aproximação e conatos diferenciados com JM vislumbre da possibilidade do processo de inclusão naquele contexto escolar.
Sem muitas delongas, a professora Sandra é incisiva em sua resposta sobre processo de inclusão na escola Craveiro Costa: “Olha, em relação à inclusão aqui na escola Craveiro Costa, eu acho que ainda está muito a desejar!”.
Ressalta a existência de alunos deficientes que estão sem atendente pessoal. Para nossa surpresa, destacou outro ponto acerca da deficiência, de JM que não foi sequer citada pelos professores: “ele quase não enxerga”, o que, segundo ela, já ocasionou pelo mesmo um tombo ao descer as escadas, e um profundo corte na perna, necessitando de auxílio médico.
Também salientou que “JM precisa de adaptações nos trabalhos e provas dele e isso não está acontecendo, é uma das barreiras enfrentadas pelo aluno, ele não tem a acessibilidade que ele necessita”.
Com base nessa contextualização, a professora da sala de recursos vê como uma forma de saída o processo de interação em grupo, e diz que às vezes isso acontece, mas na maioria das vezes não. Salienta, ela, que JM geralmente é excluído dos grupos, seus colegas o excluem e os professores nada fazem para contornar a situação.
Como um fator positivo dentro da escola, a professora ressalta a sala de recursos, construída no decorrer desse ano. Segundo ela é um espaço pequeno fisicamente, mas nesse espaço os alunos possuem um tratamento diferenciado, com jogos e atividades prazerosas que eles venham a gostar. Segundo ela, JM gosta muito da sala de recursos, pois, nesse cantinho os alunos deficientes podem fazer suas atividades, sem preconceito e discriminação.
A professora Sandra adquiriu uma proximidade diferenciada com JM. Podemos perceber a coerência dessa afirmação nos relatos de JM e sua mãe. Embora a inclusão deva ocorrer no contexto escola como um todo para que seja efetiva, “o cantinho da professora Sandra” nos pareceu um oásis onde a aprendizagem pode acontecer, uma vez que JM pode ser aceito e percebido (podemos citar aqui a preocupação e o cuidado da professora com a perda progressiva de visão de JM como um dos maiores empecilhos para seu processo de aprendizagem, caso não seja cuidado convenientemente).