CAPÍTULO 3 ROTAS, ROTEIROS E PERCURSOS TRILHADOS
3.4 Ouvindo, organizando e evidenciando sentidos
A análise de conteúdo é uma técnica que tem por finalidade estudar o sentido e significação da informação, a partir da freqüência, da presença ou da ausência de certas expressões, palavras, conceitos ou temas, permitindo analisar documentos escritos e não escritos, a partir do agrupamento de significações.
Laurence Bardin (1977, p. 42) assim define a análise de conteúdo:
Um conjunto de técnicas de análise das comunicações visando obter, por procedimentos sistemáticos e objetivos de descrição do conteúdo das mensagens, indicadores (quantitativos ou não) que permitam a inferência de conhecimentos relativos às condições de produção/recepção (variáveis inferidas) destas mensagens.
Ao analisar as significações, a análise de conteúdo permite captar informações explicitamente apresentadas no documento, mas também idéias envolvidas de modo implícito. Dessa forma, proporciona a possibilidade de fazermos inferências e interpretações acerca do conteúdo latente ou manifesto nas mensagens apresentadas pelos sujeitos. Para Cecília Minayo (2004), a vasta utilização da análise de conteúdo em pesquisas educacionais deve-se ao fato das suas possibilidades de “ultrapassar a mera descrição do conteúdo manifesto na mensagem, para atingir, mediante a inferência, uma interpretação mais aprofundada” (p. 203). O caminho da análise desse trabalho obedeceu as etapas básicas apontadas por Laurence Bardin (1977) para a composição de uma análise temática: a pré-analise, a exploração do material, o tratamento dos resultados, a inferência e a interpretação. Para a autora, fazer uma análise temática “consiste em descobrir os núcleos de sentido que compõem a comunicação e cuja presença, ou freqüência de aparição podem significar alguma coisa para o objetivo analítico escolhido” (LAURENCE BARDIN, 1977, p. 105). O trabalho consistiu, então, em encontrar “os núcleos de sentido” das mensagens no intuito de “construirmos uma leitura significativa da realidade pesquisada” (SILVA, 2007, p. 40).
Para a análise dos dados, num primeiro momento realizamos a leitura dos relatos de vida das professoras narradoras produzidos através de entrevistas, transcritas integralmente e sistematizadas para a organização das histórias de vida. Redigimos um perfil de cada história, buscando destacar os principais acontecimentos, vivências e significados atribuídos pelas professoras à trajetória de suas vidas. Codificamos cada uma das profissionais entrevistadas com o número que recebeu o questionário de identificação. Posteriormente, substituímos os números por nomes de mulheres negras que são referências no Movimento Social Negro da Cidade do Recife.
Na análise das histórias de vida das professoras narradoras, utilizamos a técnica de análise temática, construída a partir da leitura exploratória, quando identificamos os núcleos de sentido das narrativas. Para cada uma das temáticas construídas produzimos um mapa das respostas, agregando e codificando os sentidos e suas narradoras por meio de cores e números. Esses mapas constituíram-se em um texto básico que remetia à análise e à interpretação dos dados produzidos.
Podemos conferir esse procedimento com a leitura do mapa a seguir (quadro 2), que trata dos momentos e situações nos quais as professoras deram conta de seu pertencimento.
Quadro 2
Mapeamento sobre a percepção do pertencimento étnico-racial Unidade de
Contexto Sentido Unidade de Registro
A Percepção do Pertencimento
- Relacionamento amoroso inter-racial e visita a espaços “de brancos”- P2.
- Estudando História e Cultura Afro – P2, P5, P12, P20, P21
- Cedo: discurso familiar – P7,P10, P20, P13
- Convivência com pessoas brancas: rejeição ao cabelo/ percepção da cor – P7, P10, P17 - Vivencia de Situações de discriminação: ambiente escolar/ na infância – P3, P12, P13
- O discurso público sobre relações e desigualdades étnico-raciais P17, P21
. meu namorado é extremamente branco... a gente estava passeando ... ele disse assim: “Não entra nenhum negro aqui dentro” - P2
. quando eu fiz o curso de História e Cultura Afro, você vai se reconhecendo - P2
. A partir do curso que eu fiz... de História e Cultura Afro- Brasileira...eu vim notar que eu não era branca - P5
. Me identificar... foi mais no magistério...a gente discutia muito essa questão da cidadania...comecei a ler textos que falavam sobre a origem do homem ...a contribuição que o nosso povo deixou como herança - P12
. Só fui ter a plena...[certeza], como se eu fosse vestir a camisa, no curso - P20
. no magistério, a professora levou sobre isso: as pessoas acham que negro é só aquele que tem a pele bem escura. Mas aí ela tocou na questão da pele mesmo mais clara, que não existe mais morena, não existe moreninha, é negra - P21
. percebi cedo. Porque meu pai dizia assim: “filho de nego é nego P7
.percebia, quando era pequena quando diziam: “a morena e a branquinha” mas... não me afetava P10
.isso era uma coisa que era trabalhada também em casa,... sempre [tínhamos] essas conversas de que: eu sou isso mesmo, foi assim que Deus me fez e nós não devemos nos abater a ponto de sentir que isso seja uma agressão. Muito pelo contrário, isso seria um elogio. P13
. Desde pequena eu achava que era.Todo mundo dizia: “Morena” P20
. na adolescência eu tinha uma amiga que era bem branca, dos olhos claros, a gente gostava do mesmo menino, ele escolheu por ela.. percebi que...era por causa da minha corP10
.meu problema era o cabelo, eu queria que ele fosse liso P7 .sempre me achei branca... eu via as pessoas brancas, elas são assim branca, branca, branca... eu não sou essa branca assim. Mas também... não sou negra...então eu devo ser parda P17
.me percebi como diferente... lá na escola... tenho esse cabelinho crespo... usá-lo solto...não podia. Vovó fazia dois pitós,... meus coleguinhas de escola viviam me “pentelhando” por conta disso...a partir da vida adulta... Cheguei nessa escola
...começaram a me boicotar... lembro que uma delas quando eu fui passando disse: vamos dar gelo a essa negrinha pra ver se ela vai embora P3
. sabia que eu era negra, porque alguns coleguinhas diziam: ”negra safada”P12
.desde criança. ..sempre tem aquelas brincadeiras das crianças: nega feia, nega preta, do cabelo duro. .. Quando eu estava na quinta... o pessoal marcou um dia para fazer escova no cabelo. Eu disse: eu não vou fazer. Por que não?” me vi mais diferente de que todo mundo P13
. veio com a abertura tipo da mídia, da educação...da questão de cotas, para a valorização do negro, do pardo P 17
. fui pra faculdade...tinha uma colega lá, que ela era do
movimento racial. E uma vez uma professora disse assim, aquela morena... Aí ela disse assim: morena não, professora. É negra. Eu sou negra.
Na seqüência, realizamos a leitura dos sentidos encontrados, tendo em vista os pressupostos e objetivos do estudo, em articulação com o quadro teórico no qual nos fundamentamos e com o contexto sócio, histórico e cultural. Portanto, a análise e a interpretação inferencial emergiram da leitura das histórias de vida, que foram produzidas a partir dos relatos de vida narrados pelas professoras. O mesmo percurso foi realizado com todas as temáticas e sub-temáticas que foram construídas, a saber:
1. Sobre o processo de construção da identidade étnico-racial - A percepção do pertencimento
- Os sentimentos vivenciados
2. Sobre os saberes mobilizados no processo de construção identitária - Saberes mobilizados na construção do pertencimento étnico-racial 3. Sobre a valoração da formação temática recebida pelas professoras
- Importância da formação para a vida profissional - Importância da formação para a vida pessoal - Mudanças na prática pedagógica
4. Sobre a ação pedagógica desenvolvida pelas professoras - O trabalho sobre relações étnico-raciais no espaço escolar
- Conteúdos e atividades desenvolvidas sobre relações étnico-raciais - Contribuições das práticas para a superação do racismo
A abordagem metodológica utilizada proporcionou-nos, portanto, a compreensão de práticas, hábitos, valores, crenças, sentidos e significados que nos auxiliaram a retratar a visão pessoal das participantes da pesquisa, sem contudo negligenciar o contexto sócio/cultural no qual esta visão se inscreve.
3.5 Reconstruindo o processo de discussão sobre relações étnico-raciais na Secretaria de