Progymnasma VI De materia Rhetoricae
17. OUVINTE. Estou a ouvir-te
ORADOR. Sem uma demasiada longa série de palavras.
OUVINTE. Estou atento.
ORADOR. Sem excessiva ostentação das palavras.
OUVINTE. Já não me sairá da cabeça.
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ORADOR. Sem frases truncadas.
OUVINTE. Justamente advertes.
93 Cic., Orat. 47, 3
94 Cf Quint. Inst. 8, 2, 19, 1 – 21, 6
Cícero.
Quintiliano .
Cícero em Sobre o Orador, 3.
68 ORADOR. Sem tempos invertidos.
OUVINTE. Falas com muito clareza.
ORADOR. Sem confusão de pessoas.
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OUVINTE. Notas com muito zelo.
ORADOR. Sem ordem abalada.
OUVINTE. Diligentemente se tratará isso.
ORADOR. Mais palavras para quê? Se for todo ele latino, nunca será estrangeiro.
OUVINTE. Aqui mais reclamarei eu do que aclamarei: a verdade é que se inserem 510
palavras gregas com muita elegância entre as latinas.
ORADOR. Dá exemplos, se acaso tens uma memória desenvolta.
OUVINTE. Marcial no livro primeiro [dos Epigramas] uniu aos hendecassílabos latinos aquela palavra grega, Μισῶ μνάμονα συμπότην,
isto é, “odeio o companheiro de bebedeira que tem boa memória”95. O mesmo no livro 515
segundo, inclui este provérbio grego ao hexâmetro latino, πάντα κοινὰ φιλῶν, isto é,
“todas as coisas dos amigos são comuns”96.
ORADOR. A oportuníssima memória de um antigo. Mas falas-me de um poeta, pois cultiva leis mais livres.
OUVINTE. Ouve o orador contra Pisão. Diz ele: “A razão é evidente: a 520
prata οἴχεται”97, isto é, desapareceu.
ORADOR. Túlio certamente não tirou isso da sua despensa, mas de As três moedas de Plauto98. Esta palavra, uma vez que era usada na fala de todos, escurece em muito pouco o discurso, e espalhava alguns encantos da fala popular nos ouvidos de todos.
18. OUVINTE. Arrancaste-me toda dificuldade. Mas falta que 525
desenvolvas o género ornamentado de discurso, para chegares ao fim.
ORADOR. Está atento, é aquele do qual todas as palavras podem defender o direito à toga.
OUVINTE. Onde devem ser elas procuradas?
ORADOR. Primeiramente de Cícero, depois de outros escritores de primeira qualidade.
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95 Mart., Epigr. 1, 27.
96 Mart., Epigr. 2, 43.
97 Cic., Pis. 61.18
98 Plaut., Trin. 419.
Marcial, livro 1.
Idem, livro 2
Cícero em Contra Pisão.
Género ornamentado de discurso.
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OUVINTE. Não: apenas de Cícero. Na verdade, aqueles que depois fizeram uso da palavra falam meras pedras.
ORADOR. Tens ouvidos demasiado delicados, se não me engano; rodeia-as com um capacete, suplico, para que não sejam feridas.
OUVINTE. O quê? Então, vais encontrar o puro cuidado do discurso junto de outros que 535
não Cícero?
ORADOR. É o que estou a dizer. Ninguém no seu perfeito juízo seguramente dirá que podem tão grande bagagem de eloquência ser posta na tão pequena arca de Cícero.
Acrescenta que das obras de Cícero uma parte perdeu-se com a adversidade dos tempos, outra parte incendiou-se nos arquivos perdidos da Itália; sobraram-nos as restantes 540
truncadas, mutiladas, e com lacunas. Por isso, é forçoso que tenha havido perda de muitas palavras, as quais outros ilustríssimos escritores nos devolvem e restauram.
OUVINTE. Afastaste-me da minha opinião. E então se por acaso eu procurar a necessária abundância de palavras junto de quaisquer outros óptimos escritores?
19. ORADOR. Torna-te um logodédalo99, isso de arquitetar novos vocábulos.
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OUVINTE. Quintiliano discorda, diz: “Devemos usar o discurso tal como uma moeda de cunhagem pública.”100 Portanto, tal como erram, os
que cunham moedas em oficina particular, assim também, os que fabricam palavras sem os apoios de ninguém, a não ser do próprio Marte.
ORADOR. Considero de longe que é outro o raciocínio de Quintiliano, 550
uma vez que ensina em outro lugar que se deve ousar, e difere de Celso,
o qual proibiu qualquer uso de novidade e estrangeirismo. Apenas quer dizer que na inovação das palavras se devem poupar os ouvidos, se deve aplicar o juízo para que a chuva das palavras não nos pareça afluir numa gota de juízo – aquilo que outrora acerca de não sei que retor Estratonico dizia.
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OUVINTE. Apresentas o pensamento de Fábio, mas ainda me atormenta aquela dúvida de que outrora não havia nenhum costume de inovar palavras. Com efeito, Hermógenes é repreendido por Antíoco, pelo facto de que era uma criança entre os
velhos: isto é, porque se abstinha da velha eloquência, e usava a nova infância.
99 Cf. Platão, Fedro 266e. Provém do grego 'λογοδαίδαλος' que Platão, através de Sócrates, faz uso para referir-se a alguém que utiliza da palavra tão bem quanto Dédalo manuseava o metal e outros materiais que transformava em obras de arte.
100 Quint., Inst. 1, 6, 3. O Padre Mendoça apresentou esse passo como sendo do capítulo 9, entretanto é do 6.
Quintiliano, livro 1, 9.
Idem, livro 8, 3. Estratonico.
Antíoco.
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ORADOR. Justa repreensão: na verdade, como diz Catão: “as crianças 560
criam palavras sem qualquer verificação da razão”, à comida e à bebida chamam de
“mama” e “papa”, mãe de “mamã”, e o pai de “papá”. Hermógenes, porque as imita, deve ser rejeitado. Por outro lado, os antigos retores eram ao mesmo tempo inovadores e censores de palavras. Horácio propõe na “Carta aos Pisões” que eles devem ser por si e por nós imitados.
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OUVINTE. Cantas-me Horácio? Tenho todo na minha mente, que não lugar pequenino.
ORADOR. Portanto mais vale acreditar nas ações do que nas palavras: recita.
OUVINTE. Pronta e fielmente:
“Porque é que, podendo eu obter umas poucas palavras, sou atacado, quando a língua de Catão e de Énio
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enriqueceu o discurso pátrio, e trouxe novas palavras para as coisas? Foi e sempre será
lícito trazer um nome marcado pela modernidade.”101 ORADOR. Tens o passo no qual se satisfaz a tua dúvida.
OUVINTE. Reconheço-o. Mas muitas coisas dissemos já acerca do género ornado da 575
oratória.
ORADOR. No entanto ainda faltam muitas coisas. E primeiramente o que se deve ser dividir em membros.
OUVINTE. Adiemo-lo, se te parece bem, para outra altura.
ORADOR. Não, é perfeitamente aconselhável.
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Proginasma IV
Quantos são os géneros ornados da oratória?
20. OUVINTE. O género ornamentado de oratória é simples ou