1 MUDAM AS PRÁTICAS, MOVIMENTA-SE O MUNDO
2.1 PÁGINA DE FACEBOOK: UM GÊNERO DE DISCURSO
O conceito de gênero de discurso que empregamos aqui é o proposto por Maingueneau (2001), que de modo mais geral entende gêneros “como dispositivos que só podem aparecer quando certas condições sócio-históricas estão presentes”
(MAINGUENEAU, 2001, p. 61). O autor recorre a diferentes concepções de gêneros antes de apresentar a sua própria concepção. Primeiramente, distingue essa noção daquela outra de tipos de discursos, já que uma categoria como a de tipologia não é suficiente para diferenciar variados discursos que circulam em determinado setor de atividade. Um dos exemplos é o talk show, um gênero do discurso, no interior de um discurso televisivo (tipologia), que por sua vez faz parte de um conjunto mais vasto, o midiático. Portanto, o gênero possui um caráter variável e a tipologia um caráter mais estático. Essa primeira reflexão é, de certa forma, herdeira do conceito de gêneros de discurso desenvolvido por Bakhtin (2000), segundo o qual o gênero é um todo único, formado pelo tema, estrutura composicional e estilo. A estrutura composicional é relativamente estável, ou seja, em dada esfera, os indivíduos possuem um arsenal de gêneros possíveis que se apresentam, no momento da interação, de forma mais ou menos igual, e com alguns gêneros mais maleáveis que outros. rastro deixado por um discurso em que a fala é encenada” (MAINGUENEAU, 1997, p. 21), propõe uma abordagem dos gêneros do discurso em que adquirem maior importância o caráter institucional da enunciação e os papéis atribuídos ao enunciador e aos coenunciadores6, pensando a categoria de gênero a partir do conceito de cena da enunciação.
6 Aqueles a quem o discurso se dirige que, no entanto, estando sempre já pressupostos no próprio ato de enunciar, são coenunciadores e não simplesmente enunciatários de um discurso.
O gênero adquire, portanto, uma concepção em que se destaca seu papel de instância reguladora do discurso, cujos parâmetros coercivos dizem respeito à vasta gama de restrições que caracterizam cada um dos modos de utilização da linguagem em cada sociedade.
Sendo assim, podemos pensar as páginas da rede social Facebook como um gênero do discurso, cujos parâmetros, estabelecidos a priori para cada enunciação, de alguma forma moldam os enunciados que ali se pode encontrar.
Para compreender melhor a reelaboração da categoria de gênero que Maingueneau propõe, é importante considerar a questão da subjetividade enunciativa, já que as instâncias de enunciação (sujeitos) são vistas a partir da consideração do seu lugar social e de suas implicações, ou seja, há uma rede de lugares discursivos nos quais os falantes se inscrevem para enunciar. Não se pode, pois, pensar em nenhuma relação de exterioridade entre os sujeitos e seus discursos.
Para Maingueneau, os lugares e as práticas sócio-históricas são decisivos para a definição das circunstâncias em que um dado gênero se manifesta.
A cena de enunciação se define, então, em três níveis, sempre interdependentes entre si: a cena englobante, a cena genérica e a cenografia. Vamos nos deter primeiramente na cena englobante e na cena genérica, uma vez que são elas que compõem o quadro cênico mais ou menos estável e, portanto, sempre de algum modo dinâmico, que torna possível uma enunciação, atuando como instâncias reguladoras da discursividade.
A cena englobante atribui ao discurso um estatuto pragmático e diz respeito ao tipo de discurso. A cena genérica é a do contrato que diz respeito a um gênero do discurso dentro de um tipo de discurso. Por exemplo, um panfleto (cena genérica) é um gênero do discurso publicitário (cena englobante). Temos então que todo tipo é um agrupamento de gêneros, e todo gênero está relacionado a um tipo, havendo sempre uma relação de complementaridade entre as cenas englobante e genérica, daí seu caráter de instância reguladora, que faz do quadro cênico o “espaço estável no interior do qual o enunciado adquire sentido” (MAINGUENEAU, 2001, p. 87).
Assim, ao pensarmos numa página do Facebook, temos aí um quadro cênico, no interior do qual os discursos são produzidos, circulam e fazem sentido para sujeitos colocados em posição de interagir na rede social, mas que se configura e se
reconfigura em torno de cada página, cada perfil. Tratam-se, portanto, as páginas, de lugares de inscrição de sujeitos dos discursos.
Num mundo em que as novas tecnologias de comunicação propiciam, a todo momento, novas formas de interação, de produção e disseminação de informações, surgem novas práticas sociais e, portanto, novas práticas discursivas, propiciando a configuração de novos gêneros. As páginas do Facebook são, portanto, numa primeira visada, um gênero digital, midiático, característica dos fenômenos contemporâneos que refletem novas formas de interação e novas práticas.
Desse modo, em tais páginas, como em todos os demais quadros cênicos, o sujeito apresenta um comportamento discursivo condizente com o gênero discursivo em que está inserido, pois sendo ele parte da prática social-histórica e cultural sofre mudanças em relação à produção do discurso. De acordo com Maingueneau (2001), os gêneros são garantia de interação, por isso apresentam finalidades bem distintas, que surgem das necessidades de interação. Eles são criados para atender às demandas de uma determinada comunidade discursiva.
A rede social Facebook possui uma forma complexa de interação por meio de textos verbais, músicas, imagens fixas e em movimento etc. Além disso, os efeitos de sentidos ali são produzidos muitas vezes por meio de postagens e comentários às postagens, num processo de constituição ainda mais interativo do que aquele que, já o sabemos desde Bakhtin, constitui todo e qualquer ato de linguagem.
As páginas do Facebook apresentam campos pré-estabelecidos a serem preenchidos por cada usuário, como são chamadas as pessoas que interagem na rede.
A primeira etapa de interação é sempre padronizada, pois é necessário cadastrar-se na rede social, fornecendo dados como nome, endereço, data de nascimento e e-mail, dentre outros, e criando um login e senha (Figura 4, na página a seguir):
Figura 4: Página inicial do Facebook .
Fonte: http://facebook.com. Último acesso em 16.fev.2014.
Após cadastrar-se, será preciso que o usuário crie um perfil. Ser-lhe-ão apresentadas opções de “preferências”, tais como times de futebol, filmes, programas de televisão, músicas etc. Assim, ao expor seus gostos e preferências, o enunciador, usuário do Facebook, constrói seu perfil não somente na rede social, mas um perfil de enunciador, propriamente, um fiador dos discursos que fará circular em perfil.
Diferentes dos perfis, que geralmente são para uso pessoal, há também as fanpages, que são uma modalidade de perfil na maioria das vezes utilizadas por empresas e profissionais que têm intenção de divulgar trabalhos e produtos, ou por organizações investidas em alguma causa, artistas divulgando trabalhos enfim, usuários que querem se corresponder com outros usuários mas não numa troca entre iguais, tal como ocorre nos perfis, mas por meio da opção “curtir”. Por meios dos perfis, os usuários do Facebook enviam e aceitam convites de amizade. Por meio das fanpages não se pode fazer amigos, mas arregimentar fãs, visitantes que curtem a página uma única vez e a partir desse gesto passam a receber atualizações da página.
As páginas não possuem limite de fãs, enquanto que os perfis estão limitados ao máximo de 5 mil amigos. A fanpage do guaraná Antartica, por exemplo, possui 9 milhões de fãs. Ao criar uma página, o administrador deverá optar por um perfil, dentre “negócios”, “artista, banda ou figura pública”, “causa”, dentre outros (Figura 5, a seguir):
Figura 5: Página inicial para criação de fanpage no Facebook.
Fonte: http://facebook.com/pages/create.php. Último acesso em 16.fev.2014.
As páginas são gerenciadas por administradores que se cadastram na rede para essa finalidade e assumem a responsabilidade sobre sua página. As regras do Facebook devem ser seguidas por todos os usuários, sob o risco de serem bloqueados se não as seguirem. Alguns padrões devem ser seguidos para que os participantes da rede possam publicar suas próprias histórias, ver o mundo pelos olhos de muitas outras pessoas, compartilhar conteúdos etc. Alguns conteúdos não são aceitáveis, podendo ser denunciados e removidos. É o caso de mensagens que contenham violência e ameaças, conteúdos de autoflagelação, bullying e assédio, discurso de ódio, conteúdo pornográfico, invasão de privacidade, desrespeito à propriedade intelectual etc. Cada usuário tem o poder de denunciar esses conteúdos nos perfis e páginas de outros usuários, e a administração central da rede suspenderá o usuário denunciado por um determinado período, mantendo o conteúdo fora de circulação.
O administrador de uma fanpage pode escolher, no momento de criação da página, entre modalidades que permitem conhecer ou não o perfil dos fãs (dados socioeconômicos, demográficos etc), ter ou não controle sobre estatísticas de acesso à página etc, e com esses dados poderá direcionar as postagens em função de seus interesses. Por meio da ferramenta inight, pode medir o alcance do seu conteúdo e a quantidade de interação e curtidas que recebe em suas postagens.
Uma vez criada a fanpage, o administrador (ou administradores) poderá criar mecanismos variados de comunicação com seus fãs. Além das mensagens simples,
com textos verbais e/ou visuais e sonoros, poderá propor jogos, enquetes, sorteios e outras formas de promoção e premiação de fãs, de modo a incrementar a visitação da página.
Dito isto, convém explicitar melhor o terceiro nível, uma terceira dimensão proposta por Maingueneau para a cena de enunciação. Uma vez estabelecido o quadro cênico como resultante de uma cena englobante e de uma cena genérica, um discurso poderá ainda caracterizar-se por uma cenografia, que não é imposta pelo gênero, mas construída pelo próprio texto: um sermão pode ser enunciado por meio de uma cenografia professoral, profética, amigável etc. A cenografia é a cena de fala que o discurso pressupõe para poder ser enunciado e que, por sua vez, deve validar através de sua própria enunciação, já que qualquer discurso, por seu próprio desenvolvimento, pretende instituir a situação de enunciação que o torna pertinente (Cf. MAINGUENEAU, 2008). A cenografia não é, pois, um quadro, um ambiente, como se o discurso ocorresse em um espaço já construído e independente do discurso, mas aquilo que a enunciação instaura progressivamente como seu próprio dispositivo de fala.
Há gêneros de discurso que se atêm a sua cena genérica, isto é, que não são susceptíveis de permitir cenografias variadas (por, exemplo, a lista telefônica, o receituário médico, dentre outros). Outros, ao contrário, exigem escolhas de uma cenografia, como é o caso dos gêneros literários, filosóficos, publicitários, e também, as fanpages do Facebook.
Entre esses dois extremos, situam-se os gêneros que podem ter cenografias variadas, mas que usualmente mantêm sua cena genérica rotineira. Por exemplo, diz o autor, há a cena genérica rotineira dos manuais universitários, mas o autor de um manual sempre tem a possibilidade de enunciar por meio de uma cenografia que se afasta dessa rotina, formulando seu ensinamento por meio de uma cenografia de romance.
Em língua portuguesa, no campo dos manuais de ensino da Linguística, podemos tomar como exemplo o célebre manual de introdução à Sociolinguística escrito por Marcos Bagno (1997), “A língua de Eulália – novela sociolinguística”, que como o próprio subtítulo já diz, propõe ensinar os conceitos da área por meio de um enredo de ficção que reúne três universitárias em férias no interior de São Paulo, na casa de uma tia que é linguista e que tem uma empregada, Eulália. Ao chegar, as
três moças criticam cheias de preconceitos o modo de falar de Eulália. Ao término das férias, terão compreendido princípios da Linguística e desenvolvido um novo olhar para as variedades não-padrão da língua. A cena englobante e a cena genérica desse livro permitem entendê-lo como um manual universitário, mas a cenografia é de novela de ficção.
Na fanpage que tomamos para nosso estudo, alguns campos serão preenchidos de acordo com as práticas discursivas características do quadro cênico, mas encontraremos variadas cenografias que, associadas a um ethos discursivo, noção sobre a qual nos deteremos em um próximo tópico, construirão sentidos diversificados para os discursos ali reunidos.
No alto da página, como acontece com todas as demais páginas e também nos perfis, temos uma imagem em destaque, a chamada foto de capa, que ocupa toda a extensão horizontal da tela. Ela tem uma função fática na página, ou seja, deve chamar a atenção do internauta que frequenta a rede para a página em questão, mas também, ao mesmo tempo, busca-se utilizar uma foto, ou mesmo imagem de outra natureza (uma ilustração, uma pintura tec), que estabeleça um valor de índice, de antecipação em relação aos conteúdos que a página aborda. Essa imagem pode e geralmente é trocada mais ou menos frequentemente de acordo com o interesse do administrador. Trocar a foto da capa com certa frequência é uma característica do gênero perfil e fanpage do Facebook. Os usuários fazem isso com frequência e esperam que os demais donos de perfis e administradores de fanpages o façam. Cada alteração de foto de capa é registrada no feed de notícias dos usuários (quando se entra no Facebook com um login de usuário se tem acesso ao feed de notícias, uma lista das publicações dos amigos ou das páginas que cada um curte). Um instantâneo da fanpage se encontra na Figura 6, abaixo:
Figura 6: Tela de abertura da fanpage.
Fonte: http://facebook.com/ApenasUmJovemLeitor. Acesso em agosto.2013.
Na margem inferior esquerda da foto de capa, num pequeno quadro, geralmente se coloca uma foto do perfil – nos caso das páginas individuais – ou uma ilustração, uma logomarca etc. E ao lado desse quadro, à sua direita, o nome da página. Na linha de baixo, a quantidade de curtidas e o número de pessoas falando sobre a página no momento do acesso. Do lado direito, na mesma linha do nome da página, temos os botões “curtir” (na Figura 6, acima, lê-se aí “curtiu”, pois a opção já havia sido marcada), utilizado para começar a frequentar a página e receber suas atualizações; e “mensagens”, que permite o envio de textos para o administrador em privado.
Depois, um texto curto traz informações acerca da finalidade e um resumo dos conteúdos da página. Logo abaixo desse texto, o botão “sobre” dá acesso a informações a respeito do administrador, nomeado Felipe Maycon, que diz ser o criador da página no meio de 2012. O Facebook, no entanto, registra o início da página em 2013.
Temos ainda as “fotos”; novamente a quantidade de “curtidas” em destaque e o botão “top fans”, por meio do qual se pode cadastrar para uma categoria especial
de frequentador da página, que desfruta de um estatuto intermediário, entre o administrador e os demais usuários.
Depois, abaixo desses botões, vem o mural, onde os internautas acompanham as novidades, as postagens, leem e escrevem comentários em cada postagem, interagem com as notícias e informações das páginas, podendo eles também postar conteúdos em mensagens verbais e também por meio de fotos e vídeos para serem lidos por outros frequentadores da página.
Todos esses campos são mais ou menos padronizados, já previstos pelo sistema, e caracterizadores, portanto, do gênero página de Facebook. Entretanto, cada página vai gerir as postagens, em forma e conteúdo, da forma que lhe convier, construindo cenografias variadas. Na página “Apenas um Jovem Leitor”, os posts giram em torno dos livros cuja leitura agrada aos jovens e de filmes baseados nesses livros. Entre os mais comentados estão a saga Harry Porter, as aventuras do herói adolescente Percy Jackson e vários títulos divulgados pelos próprios autores, geralmente jovens como os frequentadores da página e que estão se lançando no mercado editorial.