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CAPÍTULO 8 – RESULTADOS PRÁTICOS: ENTREVISTAS E IMPRESSÕES PESSOAIS

8.2. Estrutura Comunicativa e Design

8.2.4. Público-alvo

A maneira da qual o OP foi construído no Brasil teve um formato cujo objetivo era notório: trazer voz para a população anteriormente marginalizada e sem poder político. Isso não muda nas três capitais estudadas. A divulgação do processo, o estabelecimento de comissões, o preparo da equipe das prefeituras e a conscientização da população (uma das frases mais repetidas nas entrevistas, quase de maneira automática, era que o OP “é um processo democrático”) são construídos para criar um ambiente propício à participação popular.

A campanha publicitária, como visto anteriormente, escolheu meios de divulgação que objetivavam a agitação política nos bairros, principalmente, os de classe socioeconômica mais baixa. Os próprios logotipos e slogans escolhidos demonstram isso.

Desde 2005, com o ingresso do PT no governo municipal de Fortaleza em 2004, a cidade orgulha-se por ter sido o primeiro município brasileiro a elaborar um PPP – Plano Plurianual Participativo (apesar de não ter sido o primeiro a

implementar o OP). A gestão de sua campanha trazia frases emblemáticas como 266 “Você construindo uma Fortaleza Bela” e “Por amor a Fortaleza”, traçando um discurso de valorização da cidade e um sentimento regional de amor à coisa pública. O povo, nesta narrativa, é elevado à condição de sujeito político ativo. O discurso que demanda um engajamento afetivo aparece nas entrevistas, refletido no sentimento de orgulho do cidadão de ter o poder de fazer algo para tornar sua cidade melhor. Também surge na população, então, um sentimento de solidariedade, de “estamos fazendo juntos com a Prefeitura”, deixando, assim, de ser sujeito político passivo, apenas receptor das benesses das ações públicos dos representantes.

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No OP recifense, esse sentimento de empoderamento do povo é carregado na marca e slogan publicitário “Orçamento Participativo: O povo decide. A Prefeitura faz.” 267

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FORTALEZA. Comissão de Participação Popular. In: Prefeitura de Fortaleza. Disponível em: 266

http://www.fortaleza.ce.gov.br/cpp/index.php?option=com_content&task=view&id=285. Acesso em: 01 de maio de 2012

RECIFE. Orçamento Participativo. In: Prefeitura do Recife. Disponível em: http:// 267

Como lembra o representante da COMFORÇA Noroeste de Belo Horizonte, Rafael Frois, a frase-tema para o OP/BH sempre foi “Transformar BH é uma ESCOLHA SUA”. E complementa, em seu discurso de abertura do OP 2010: “Este auditório mostra que já fizemos nossa escolha. Eu fiz minha escolha há seis anos atrás”.

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A partir da inserção tecnológica do OPD, Belo Horizonte começou a investir fortemente no caráter quase recreativo e eficiente da interação social. A novidade da Internet passou a atrair o público para um processo que era, ao mesmo tempo, útil

Panfleto distribuído para divulgação do OP2012/BH. Várias mãos segurando peças do mosaico 268

para a sociedade e divertido. Além de fotos, vídeos e ilustrações, o sítio permite a utilização de um serviço de busca por georeferenciamento, através do Google Maps, para a localização das obras a serem executadas. Esse sistema permite ao internauta navegar pela página, interativamente, e conhecer o processo “de um jeito divertido”, como promete o slogan. É por causa disto que a Prefeitura usa, em sua campanha, argumentos que ressaltam o caráter inventivo e inovador do OPD, como “Orçamento Participativo Digital: Pode se orgulhar. Belo Horizonte é a primeira cidade do mundo a ter.” . 269

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Uma vez atingido o resultado de incluir no debate político, através da participação, os interesses daqueles antes “desempoderados”, as Prefeituras passaram a mirar na ampliação da participação, através do aumento quantitativo de outros segmentos sociais, antes apáticos ao processo. O foco agora passava a ser a redução do custo da participação e criar novos elementos identitários, através da eficiência das TICs. Com isso, objetivava-se ampliar, quantitativamente, o contingente participante do OP, através da inclusão de grupos como a classe média (detentora do amplo acesso às TIC no Brasil) e os chamados nascidos digitalmente (jovens já habituados com a linguagem tecnológico e estimulados a relacionar-se cada vez mais no âmbito dos espaços virtuais).

Nas três capitais, obteve-se resultados bem distintos, no tocante ao uso das tecnologias e o público-alvo destas.

Em Fortaleza, não existe uma votação online propriamente. O uso das TICs é voltado para o acompanhamento e fiscalização do processo votado presencialmente

Campanha publicitária de 2006. 269

por aqueles participantes das assembleias. O SISOP e o próprio sítio da Prefeitura possuem uma linguagem bastante acessível a todos os usuários. Não existe um real estímulo institucional da Prefeitura para promover um debate no âmbito virtual hoje. Mas isso não impede da sociedade civil organizada realizar, por iniciativa própria, tal debate. Em Fortaleza, foi encontrado a maior movimentação espontânea da população, através de redes sociais como Facebook, Orkut e Twitter, em comparação com as doutras duas capitais.

Percebendo este perfil conectado da população, a Prefeitura possui um projeto para instalar o OP Digital Fortalezense, como informa César Weyne, de maneira complementar ao OP presencial, em moldes mais próximos à etapa digital de Recife do que a do OPD/BH. A busca é por uma população mais conectada e mais informada, a partir deste processo inclusivo:

Em termos de ação institucional, a gente vem estudando se é viável ou não a implementação do OP digital. A ideia não é nem substituir um OP pelo outro, mas, na verdade, complementar, ampliar e diversificar o segmento porque a gente não quer um OP que concorra com outro. A gente tem que renovar a participação, mas que isso seja um complemento. [...] Fortaleza tem um número de usuários de lan-houses que é um dos maiores do Brasil. E a ideia é lançar o OP Digital simultaneamente com outro projeto da Prefeitura que é o GigaFor, que oferece Internet gratuita para toda a cidade. Uma vez isso se consolidando, a gente vai ter uma porta aberta, escancarada para o OP Digital. Para além do usuário de Internet residencial ou de Internet privada (como no trabalho), você vai permitir que qualquer pessoa com conexão de Internet sem fio possa ter acesso à rede da Prefeitura, conectar e votar. [...] Esse outro OP, que é um OP de massas mesmo, o plano de mídia tem que ser repensado totalmente.

Como em Recife, a sua etapa digital também possui o intuito de complementar o OP presencial, ocorrendo dentro do mesmo ciclo e englobando outros setores sociais, as entrevistas relacionadas a esta etapa da pesquisa passaram a sensação de que o público-alvo é absolutamente distinto. Quem vota no OP presencial, não se aproxima da votação online (normalmente por considerar menos completa, sem discussão). Por outro lado, quem já votou no OP online não possui o hábito de participar das assembleias (são pessoas que valorizam a brutal redução dos custos da participação, por não precisarem sair de casa para votar ou mesmo se informar sobre as obras). Dentre as pessoas entrevistados sobre a maneira de votar no OP, não foram encontrados participantes que tiveram ambas experiências: a do OP presencial e via Internet.

Para entrevistar participantes do OP presencial, basta entrar dentro de uma plenária. As pessoas se mostravam, normalmente, receptivas ao diálogo e não foram encontrados óbices ao fornecimento de entrevistas. Por outro lado, houve uma certa dificuldade para localizar pessoas que votassem via Internet. Não existe registro público acessível do cadastro dos participantes online . Para tanto, foram 270 utilizadas as próprias redes sociais, na busca desses usuários da etapa digital do OP recifense. Ainda assim, boa parte das pessoas consultadas mostravam completo desconhecimento a respeito desta possibilidade tecnológica de OP.

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A inexistência desse acesso se justifica pelo respeito à privacidade dos dados pessoais, 270

O caso de Belo Horizonte destoa bastante das realidades das outras duas capitais. O seu OPD somente pode ser considerado complementar ao OP presencial, se for levado em consideração o cenário total e a temporal da cidade. Assim, a cidade de BH vem tendo notórias melhorias em função da ativa participação da população local nos OPs presenciais, digitais e habitacionais.

Contudo, se a avaliação for anual, por ciclo, esses OPs são absolutamente distintos e independentes. Isso se justifica graças ao próprio desenhos institucional. Em ano que ocorra o OPD, não ocorre o OP presencial, e vice-versa.

Por causa disto, o público-alvo é mais heterogêneo que em Recife. Enquanto nesta última cidade, os participantes de suas duas etapas, presencial e digital, parecem ser de setores socioeconômicos bem distintos, em Belo Horizonte existem representantes de todas as classes no OPD. Isso é refletido no número de participantes em cada OP. O OP presencial de 2009 mobilizou cerca de 44 mil pessoas. Já o OPD de 2008, teve 124.320 votantes.

Vale ressaltar que isso também é reflexo dos seus objetivos. Enquanto o OP presencial possui a finalidade de uma construção e urbanização local, o OPD visa a construção e urbanização da cidade como um todo, em um prospecto bem mais amplo.

Em Belo Horizonte, as entrevistas mostram um resultado peculiar, mas compreensivo em função do próprio desenho: quem participa das assembleias nos anos de OP presencial participa do OPD; mas a recíproca não é verdadeira. A maioria dos entrevistados nas plenárias se mostraram ativos do processo de debate e de voto do OPD. Contudo, muitos dos entrevistados do OPD justificam sua ausência nas plenárias presenciais e participação exclusiva no âmbito virtual em função da facilidade e redução dos custos da participação online. A hipótese de que a facilidade do acesso às tecnologias realmente reduz os custos da participação aparece em várias falas dos votantes online, entretanto, precisaria ser testada através de surveys com os internautas.