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2 O ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA NO BRASIL: BREVES

6.2 P9EP: Professora de LP da turma 9º EF da Escola Particular

A P9EP estava com 31 anos de idade e atuava na Escola Particular (EP), a mesma escola onde a P3EP lecionava à época. A P9EP lecionava para turmas do ensino fundamental II, dentre elas, estava a turma de nono ano a cujas aulas assistimos (9º EF). Acompanhamos 18 aulas da P9EP, no período de 7 de abril a 22 de maio de 2017.

A P9EP ministrava cinco aulas semanais de Língua Portuguesa (LP) para essa turma de ensino fundamental que acompanhamos; era uma turma formada por 28 alunos. As aulas dessa professora, nessa turma, aconteceram pela manhã, sendo divididas desta maneira: duas às segundas-feiras; uma às quartas-feiras; e duas às sextas-feiras.

Durante as observações das aulas da P9EP, também não pudemos ter acesso ao material didático utilizado por ela como base de ensino de LP, sob a mesma alegação que relatamos com relação às aulas da P3EP. Isto é, trata-se de apostilas do Sistema Anglo, um material que os alunos precisam pagar para utilizar, ou seja, o acesso a ele não é livre tal como os livros didáticos o são nas escolas públicas. O fato de não podermos acompanhar as aulas tendo em mãos o manual utilizado durante as mesmas, dificultou a observação, mas isso não nos impediu de interpretarmos a atuação da P9EP quanto ao problema que propúnhamos investigar.

Essa professora, da mesma maneira que a P3EP, teve o material apostilado como seu principal guia de ensino-aprendizagem de língua, o que faz parte da política educacional da escola. Durante as aulas, ela se mostrou preocupada porque, devido a algumas alterações no calendário, ela ainda não havia conseguido chegar ao ponto da apostila em que deveriam estar naquele momento. Ela nos afirmou que, se houver atrasos na discussão dos conteúdos da apostila, os pais dos alunos exigem explicação, eles acompanham o material dos filhos e cobram a pontualidade da escola. Então há um rigor, por parte do professor, em concretizar os manuais. Mas a P9EP inovou em alguns aspectos: ela trouxe para a sala de aula materiais complementares, como um vídeo retirado da internet e utilizou o datashow para algumas

aulas expositivas. Porém, o prevalecente, ainda assim, foi o ensino pautado no material apostilado.

A docente trabalhou, durante a maior parte das aulas, com explicações de conteúdos a partir da leitura do material didático: à medida que ela e os alunos liam a matéria, faziam pausas para as explicações e questionamentos de pontos específicos; geralmente ela indicava qual aluno iria ler determinada parte. Após esse momento da aula, a turma resolvia as atividades contidas na apostila, e enquanto isso, a professora, quando solicitada, ia até as carteiras, para sanar dúvidas. A correção era feita a partir das respostas expostas pelo Datashow, quando ela questionava os alunos sobre as respostas criadas por eles. Então eles liam a resposta “correta” apresentada por slides, e quem não tivesse construído uma ideia próxima à apresentada pela P9EP, deveria copiar a resposta dada no quadro. A leitura das respostas não era realizada diretamente da apostila, mas essas respostas idealizadas estiveram sempre presentes, com o título de respostas “certas”, das quais o aluno deveria aproximar a sua produção escrita. Durante uma das aulas, acompanhamos a professora ensinar “os tipos de discursos”, e, a partir do material didático, ela falou sobre haver marcas da oralidade nas expressões do discurso direto, e afirmou como sendo aceitável, por ser próprio desse tipo de discurso. No entanto, não houve ênfase nessa questão. Acreditamos que isso criou uma situação em que se poderia ter discutido conceitos como os de oralidade e escrita, suscitando a participação dos alunos, levando-os a perceberem o sentido e a importância da oralidade na escrita, nesse contexto. Mas, o foco dessa aula recaiu sobre verbos dicendi, usos de travessão, transformação de discursos: direto em indireto, indireto livre em direto, pronomes, narrador etc., com posterior resolução de exercícios da apostila pelos alunos. A P9EP verificou as atividades de todos os alunos, por meio de um visto, como forma de garantir que eles as fizessem. Além disso, todos os exemplos apresentados para ilustrar os diferentes tipos de discursos foram dados a partir de fragmentos de textos.

Algumas aulas que observamos foram dedicadas à parte da apostila “rumo ao ensino médio”, que tem como intuito preparar os alunos aos exames para ingressarem no ensino médio técnico dos Institutos Federais e do Coluni (da Universidade Federal de Viçosa). Nessa parte da aula, os alunos resolveram as questões retiradas do ENEM ou adaptadas dele. Essas atividades trataram, principalmente, de questões de gramática e literatura, como por exemplo: elementos temáticos do poema; metáfora; paradoxismo; figura de retórica, interpretação; texto jornalístico; vocativo; tipo de sujeito; oração; período; frase; tipo de discurso; conjunção –

esses foram os conteúdos sobre os quais os alunos precisaram saber/aprender para responder às questões preparatórias ao concurso. Após os alunos terminarem, a professora corrigiu juntamente com eles. Com isso, nos atentamos para o fato de que os discentes apresentaram uma média de 9 a 11 acertos, para cada 13 questões respondidas nos moldes de um vestibular. Ainda durante a nossa imersão às aulas da P9EP, foi discutido também o conteúdo sobre “textos dissertativos”. O método usado foi o de leitura inicial do capítulo da apostila pelos alunos, enquanto a professora seguia acompanhando e indicando as partes importantes que os alunos deveriam grifar. Depois, conforme o padrão, os alunos eram levados à resolução de exercícios.

Posteriormente, a professora levou uma vídeo-aula retirada da internet, sobre como elaborar uma redação para o Enem. Esse vídeo ensinava, basicamente, acerca da estrutura da redação: introdução, desenvolvimento e conclusão. Isso para solicitar aos alunos, ao término do vídeo, que abrissem a apostila para fazer a leitura do tópico que aborda “dissertação expositiva e argumentativa”, marcando os pontos mais importantes do texto, aqueles considerados por ela. Depois, eles precisaram fazer os exercícios sobre esse conteúdo, identificando, dentre textos diferentes, aquele referente a uma dissertação argumentativa, para, por último, produzirem um texto expositivo, cuja proposta foi “uma redação em que se exponham aspectos positivos e negativos das redes sociais, sem tentar convencer o leitor: sem dar opinião”.

As aulas de produção textual, gramática e literatura, nessa turma 9º EF - EP, não eram divididas por horários e dias distintos, trabalhavam-se todos os conteúdos nas mesmas cinco aulas. No entanto, observamos, quanto à literatura, que as leituras e exercícios tinham o trabalho com gramática como objetivo também. Os textos literários trabalhados nas aulas que acompanhamos foram contos de Edgar Allan Poe e de Machado de Assis. A professora solicitava a leitura em voz alta, a cada aluno cabia ler um trecho na apostila, enquanto ela seguia questionando, em determinados pontos, os conceitos de termos ou expressões no texto, desta forma: “o que é esse “o” aí no texto? A que ele se refere?”, e os alunos deveriam responder que o termo representava um pronome que retomava determinado personagem, por exemplo. Após lerem e interpretarem o texto, normalmente os alunos tinham que resolver exercícios do livro e produzir um texto em sala de aula ou em casa, dentre outras atividades, sobre as quais não iremos nos ater, por não serem contributivas à construção da presente discussão.

Nesse sentido, sobre as aulas de gramática, receberam atenção ainda, os conceitos e relações de coordenação e subordinação na oração; separação e classificação de oração; conceito de sintagma nominal e verbal, por meio de leitura da apostila, pelos alunos, com intervenções da professora, que explanou alguns pontos da leitura e indicou as partes relevantes a serem destacadas no texto. Ela afirmou, “vocês têm que vasculhar as funções sintáticas já aprendidas desde o 6º ano”, esse é um exercício necessário para que os alunos dominem os novos conteúdos gramaticais, segundo a P9EP.

E, mais especificamente, foram abordadas todas as nomenclaturas das orações coordenadas, por meio de exposição no datashow, leitura do capítulo da apostila, vários exercícios e correções, com a finalidade de:

- diferenciar oração coordenada sindética e oração coordenada assindética; - perceber as relações semânticas entre as orações coordenadas sindéticas; - classificar as orações coordenadas sindéticas;

- conhecer regras de emprego de vírgula entre orações coordenadas.

A P9EP justificou o ensino minucioso dessas nomenclaturas, afirmando que “é preciso conhecer as nomenclaturas, pois elas são cobradas”.

Ademais, A P9EP demonstrou ser uma profissional que apresenta uma tendência a se aproximar dos alunos por meio da linguagem, talvez tendendo a conseguir a atenção deles, mostrando-se “descolada”. Mas, em algumas situações, ela usou determinadas expressões, em tom de escárnio, para criar um cenário descontraído – por exemplo: “não tem ‘pobrema’!”, “é ‘craro’!”. O contexto em que essas expressões foram ditas foi o de breves intervalos entre as explicações dos conteúdos “importantes”. Diante disso, alguns alunos sorriram, criando um espaço de depreciação de palavras recorrentes na fala de determinadas pessoas. Isso, como entendemos, lendo as teorias e diretrizes do ensino de língua, pode servir para que os alunos tenham a crença de que as pessoas que possuam, em suas produções, esse tipo de ocorrência linguística – que foge ao padrão - podem ser ridicularizadas.

Portanto, durante o período de observação não houve qualquer discussão acerca das variedades linguísticas ou atitude otimista com relação a elas.

A partir disso, concordamos com Faraco (2016, p. 137) quando ele afirma que “é notório [...] que o português popular é alvo de arraigado e ativo desprezo pelos falantes do português dito culto, desprezo que se manifesta na mídia, no sistema escolar e nas diversas situações interacionais do cotidiano”. Esse tipo de postura, quando tomada principalmente no espaço

escolar, pode fazer com que se criem condições para que os alunos desenvolvam intolerância e preconceito linguísticos mediante formas diferentes daquelas consideradas cultas.

A postura da P9EP remeteu-nos a quem adere ao discurso a que Faraco (2008) chama de norma curta, que se refere a um discurso “categórico, dogmático, [que] se compraz em ridicularizar o falante, numa prática gratuita, desagradável e, [...], até repugnante de violência simbólica [...]. Esse discurso é apenas uma das faces da cultura do erro que veio tomando corpo desde os fins do século XVIII.” (FARACO, 2016, p. 205-6).

O Planejamento de Aula não se refere a um documento pensado e escrito pela professora, ele vem anexado às apostilas com que a professora deve trabalhar. A variação linguística é inserida ao Planejamento da turma 9º EF da Escola Particular apenas no final do “caderno 4”, que seria a última apostila de Língua Portuguesa com que os alunos dessa turma teriam contato, antes de concluir o ano letivo. Assim, conforme esse documento, a abordagem sobre a diversidade da língua aparece como um conteúdo no módulo “estudo da língua”, devendo ser discutida no penúltimo item da parte final da última apostila, como “concordância e variação linguística”. A saber, esses módulos dividem-se em “Leitura” de textos literários; “Estudo da Língua” ou, como observamos, estudo da norma-padrão; e “Produção Textual” ou, como entendemos, escrita de texto com foco em vestibulares.

Assim, as apostilas apresentam 49 itens a serem discutidos com os alunos na sala de aula, mas apenas um item foi dedicado à variação, o qual aparece como “concordância e variação linguística”, ou seja, essa questão surge de forma restrita e específica. E não sabemos como seria a aula desse conteúdo, já que observamos essa abordagem somente no Planejamento, não na prática docente.

É necessário ressaltar, ainda, o fato de que, ao professor dessa Escola Particular, não é concedida autonomia para planejar as suas aulas. O conhecimento já está pronto e o professor deve repassá-lo aos alunos. Ele pode ter estratégia própria de ensino, mas não pode se desviar do material didático, ou será interpelado pelos pais dos alunos e pela instituição de ensino. Contudo, de forma geral, os alunos demonstraram domínio do conteúdo apresentado pela professora: sempre que ela os questionou, eles responderam conforme o esperado pelo manual e também pela P9EP, isto é, dando a resposta “certa”. Além disso, eles fizeram todos os exercícios propostos; foram participativos durante as aulas, mostrando interesse. Ao devolver

o resultado de uma prova, a P9EP afirmou que “todos foram muito bem”, isto é, conseguiram uma boa nota.