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No documento Reforma Política Urgente (páginas 84-87)

Por José António Girão

Professor da FE/UNL

Nas sociedades modernas o termo democracia é seguramente um dos que nos é mais familiar. Tal não significa, porém, que à essência e implica-ções do conceito corresponda idêntica familiaridade.

Na célebre frase de Abraham Lincoln, democracia é «o governo do povo, pelo povo e para o povo», ou seja, a forma de institucionalizar a liberdade e garantir a cidadania. Contudo, em sociedades e organizações complexas, o sistema de democracia direta é impraticável. É por isso que nas democraci-as ocidentais, os cargos públicos são exercidos em nome dos cidadãos, por políticos eleitos de acordo com regras que assegurem a sua representativida-de, e perante os quais estes deverão ser responsáveis, relativamente às ações que em seu nome praticam. As eleições desempenham, assim, um papel primordial, enquanto processo de delegação do poder pelos cidadãos. Há, pois, que garantir que elas são livres, justas, periódicas, inclusivas e condu-zem a resultados em que os cidadãos se revêm, nomeadamente em termos da proporcionalidade dos eleitos, face aos votos partidários expressos. Daqui o papel crucial que lhe está associado nos regimes democráticos, e que terá de ser assegurado pelo sistema eleitoral.

Numa democracia a regra prevalecente é a da maioria, mas no respeito pelos direitos humanos das minorias (políticas, religiosas, étnicas ou outras) garantidos pelas leis e instituições democráticas. Estes direitos constituem, assim, limites aos poderes da governação e são as bases em que assentam as democracias constitucionais. Contudo, a democracia é mais do que um conjunto de normas e de procedimentos tendo em vista o funcionamento do governo. Este é apenas um dos elementos constitutivos da democracia,

coexistindo com um conjunto de outras instituições: partidos políticos e de-mais organizações e associações de natureza social. Daqui que a existência, legitimidade e autoridade destas não dependa do governo, mas dos direitos inalienáveis dos cidadãos.

Porém, e de um outro ponto de vista, a democracia pode ser encarada como uma forma de gerir conflitos, na medida em que os indivíduos aspiram à liberdade, mas num contexto de igualdade perante a lei e de efetiva justi-ça social. Estes conflitos têm, assim, de ser geridos num âmbito de limites, por forma a dar origem a compromissos, consensos e outros tipos de acor-dos que as partes considerem legítimos. Aceitar a inevitabilidade de conflitos em democracia, implica igualmente subscrever a necessidade de tolerância. É neste pressuposto que assenta a «cultura democrática». Uma cultura de compromisso, de pragmatismo, conducente à emergência de coligações. Em suma, a democracia impõe limites à governação; nâo por forma a que ela seja fraca, mas sim resiliente. A sua força advém da cultura democrática; não de ser eficiente. Lembremos a célebre definição de W. Churchill: A democra-cia é o pior sistema político, com exceção de todos os outros!

No entanto, com vista a melhorar a sua eficácia, as democracias socor-rem-se de práticas ditas de «controlos e equilíbrios» («checks and balances») na terminologia de Montesquieu, e cujo fim último é permitir que o poder legítimo governe e as boas ideias sejam implementadas, em detrimento do abuso do poder, da opressão e da corrupção. Para isso Montesquieu propôs o princípio da separação de poderes nos órgãos da governação, em que cada um dos ramos (executivo, legislativo e judicial) tem poderes separados e in-dependentes, mas por forma a igualmente terem capacidade para estabelecer limites ao poder exercido pelos demais domínios. Em boa verdade trata-se mais de uma partilha de poder, do que de uma separação de poderes.

Subjacente a estes «controlos e equilíbrios» está a constatação de que o egoismo e ambição humanas, fazem com que, na ausência de controlos, os indivíduos tendam a comportar-se por forma a ganhar poder e riqueza, em detrimento do seu semelhante. E não só pela força, mas também por táti-cas de manipulação da informação, de pessoas, e do dinheiro. É assim que surgem as tiranias. «O poder corrompe e o poder absoluto corrompe

abso-lutamente», como algúem disse. São pois imprescindíveis os controlos, para assegurar os equilíbrios! Mas como consegui-lo?

As já referidas garantias de liberdade dos cidadãos e proteção das mi-norias – através do seu contributo para as decisões, poder de veto, ou prote-ção legal contra eventuais prejuízos – e o modelo da separaprote-ção de poderes, combinando a descentralização funcional e o método dos «controlos e equi-líbrios» na ação governativa, constituem as vias para alcançar a democracia constitucional. Esta não é, porém, uma realidade estática, antes apresentan-do um caráter dinâmico. Daí que, nem as instituições nem as leis que regem a democracia possam considerar-se imutáveis, sem prejuízo da estabilidade que garanta a sua relevância essencial.

Em conclusão, e como vimos, no âmago da democracia está o papel desempenhado pelo sistema eleitoral. Para isso, é imprescindível que as elei-ções legislativas deixem de assentar numa votação em listas fechadas,elabo-radas por diretórios partidários e clientelas políticas – tal como atualmente sucede entre nós – sem que seja dada aos eleitores a possibilidade de uma escolha preferencial, como sucede em vários países. É esta uma via de per-sonalizar o voto e conseguir uma maior proximidade entre cidadãos e elei-tos, contribuindo simultaneamente para que estes resultem de uma seleção competitiva, em que os eleitores se revêm, e eles próprios se considerem prioritariamente vinculados aos cidadãos eleitores.

Acresce que, sobretudo em sistemas parlamentares, em que o governo (diferentemente do que ocorre nos sistemas presidenciais) é uma emanação do parlamento e em que o poder legislativo tende a ser um apoiante sub-serviente do executivo – particularmente se este emerge de um partido com maioria absoluta – há que garantir, também, que o controlo do poder exe-cutivo, pelo legislativo, enquanto equilibrador dos interesses do eleitorado que ele representa, é devidamente assegurado. Sem isso, corre-se o risco da perda de legitimidade democrática no exercício do poder, podendo mesmo chegar-se ao ponto de se pôr em causa a democracia.

Foi com estes objetivos e preocupações básicas, que um grupo de ci-dadãos subscreveu o Manifesto «Por Uma Democracia de Qualidade» (dispo-nível na Internet).

No documento Reforma Política Urgente (páginas 84-87)