O memorialismo de Nilo Pereira carrega uma característica peculiar. Ele está dissolvido em praticamente todos os escritos do cearamirinense, como partes que foram sendo costuradas e re-costuradas, ao longo da vida. Prova disso é que todos os seus livros de memória são pedaços de outros textos escritos em diversos períodos. Esse memorialismo aparece inicialmente nos artigos que ele publicou nos jornais entre as décadas de trinta e quarenta, nos quais o memorialista aparece sob a forma do cronista, descrevendo as paisagens da sua cidade.
Em novembro de 1939, Nilo Pereira, estabelecido no Recife desde 1931, de passagem pelo Rio Grande do Norte, mantendo relações com o jornalismo e com a intelectualidade local, publicou, no jornal A Republica do dia 08 daquele mês, artigo no qual encontramos uma descrição do vale e da cidade do Ceará-Mirim, uma exaltação às tradições da terra. O artigo publicado no jornal inicia com as seguintes declarações:
Há poucos dias tive a emoção de rever o Ceará-Mirim. A companhia agradavel de Aldo Fernandes me levou a visitar tudo quanto deixei, há dez anos, naquela terra que é uma das mais aristocraticas do Estado e
64 Idem, p. 100.
onde vivi toda a minha meninice. Vi a cidade com a sua igreja, que é um grande marco da espiritualidade da terra; com o seu cemiterio, em cujas lapides se inscrevem nomes ilustres na politica e na economia do Rio Grande do Norte, com as suas ruas largas e claras como as de um burgo medieval, com o seu casario, onde não há o estilo barroco como em Mariana, Ouro Preto e Olinda, mas onde o perfil semi-colonial recorda a fisionomia das cidades velhas, cheias de tradições. Mas, sobretudo vi o vale do Ceará-Mirim, de um verde tranquilo e vasto, onde aqui e ali se levantam os velhos engenhos da cana da açucar, de perfil austero e senhorial 66.
Nilo Pereira narra no artigo publicado no jornal o reencontro com o Ceará- Mirim, depois de ter se mudado, definitivamente, para o Recife. Ao narrar o passeio que realizou na companhia de Aldo Fernandes, Secretário do Governo, numa tarde de novembro de 1939, pelas ruas da cidade, caminho que o levaria sempre ao Vale, o cearamirinense usa a palavra emoção logo na primeira linha do texto (“tive a emoção de rever...”). No entanto, o texto guarda uma certa sobriedade, mesmo empregando adjetivos como aristocrática, ilustre, austero e senhorial para qualificar a cidade. O Vale, referenciado como um lugar de vasta tranqüilidade que guardava o verde dos canaviais, abrigo dos engenhos e da tradição, ainda não representava a dor da saudade da infância perdida, da perda da “meninice” do homem e da cidade. Os dezessete anos que distanciavam o intelectual do lugar onde viveu os primeiros anos de sua vida não eram, ainda, suficientes para abrir a ferida com que a saudade dos tempos idos costuma marcar aqueles que já viveram o bastante para se voltar para o passado com a esperança de revivê-lo, com a necessidade de recuperar, através das lembranças, o vigor e os horizontes da juventude. Em 1939, Nilo era ainda um bacharel que buscava, como muitos outros, abrigo nas letras, no magistério, no jornalismo, um escritor que construía ainda um estilo. O vale, a cidade, antes de se tornarem objetos de inspiração para a prosa poética do escritor, que começava a construir a sua imagem de menino do vale, seriam a bandeira erguida em defesa da tradição.
Na década de 1930, a intelectualidade brasileira estava empenhada no projeto de construção da identidade nacional, buscando reinventar as origens e as tradições brasileiras. Os olhares se voltavam para o passado colonial, para a herança desse passado, revestido agora pela aura da tradição, transformando-se em objetos do
patrimônio nacional 67. No entanto, havia uma tensão envolvendo os rumos que tomaria a cultura brasileira, naquele período. No Nordeste, os regionalistas tradicionalistas, liderados por Gilberto Freyre, reivindicavam fortemente a primazia dessa tradição, muito ciosos que eram dos seus engenhos de açúcar, das capelas contíguas às casas grandes, da paisagem canavieira do Nordeste açucareiro. Nilo Pereira, mais próximo das idéias regionalistas, almejava colocar a cidade encravada na Zona da Mata do Rio Grande do Norte, mesmo que numa posição subalterna, ao lado das velhas cidades açucareiras. A tradição defendida por ele não é a mesma tradição barroca da arquitetura de Minas Gerais, mas a da arquitetura forte e singela do Nordeste do açúcar. O texto que apresentamos traz um pouco da oposição que dividia os intelectuais brasileiros no período em que ele foi publicado.
Ao elencar os elementos que caracterizam a herança e tradição do Ceará- Mirim, Nilo acaba por confessar o abandono da cidade marcada pela desvalorização dos antigos engenhos, das casas grandes, levando à morte a alma do lugar que recorda as cidades velhas, tradicionais. O texto se constrói sob uma tensão: a morte dos personagens que deram vida à tradição defendida por ele, transformando a cidade num cemitério, amesquinhando aquilo que para ele era um dos patrimônios deixados pela sociedade açucareira, também é o que torna aquela pequena cidade de arquitetura semi- colonial digna de fazer parte da história da sociedade do açúcar, de figurar como um lugar, onde “A história anda, como a saudade, em cada canto” 68. Os adjetivos mais fortes no texto de 1939 são aqueles que conferem à cidade o status de cidade velha que carrega o peso do tempo, que assistiu à ascensão e à queda de uma sociedade e que guarda ainda suas marcas. Austero, senhorial, aristocrático, assim seria Ceará-Mirim, nos escritos de Nilo Pereira: produto e herança da sociedade do açúcar. O texto de 1939 foi o primeiro passo dado na direção do caminho que o cearamirinense começaria a trilhar naquele ano e que transformaria sua escrita no lugar de evocação e exaltação não apenas da cidade do Ceará-Mirim, mas do próprio Nilo, filho daquela cidade fundada ao pé de um vale, onde prosperou a cultura e a sociedade do açúcar.
67 Podemos ver um panorama desse projeto em: CAVALCANTI, Lauro (Org.). Modernistas na repartição. 2 ed. Rio
de Janeiro: Ed. da UFRJ, MINC - IPHAN, 2000.