2.3. PERDAS DE ÁGUA
2.3.3. P RINCIPAIS COMPONENTES DAS PERDAS APARENTES
Qualquer perda de água, que não seja visível aos olhos das pessoas, será considerada uma perda aparente. Os custos que estas acarretam à Empresa resultam da soma do custo da aquisição da água com o custo da não faturação da mesma. Entenda-se que uma fuga de água (perda real) não implica um custo de não faturação, implica sim, um custo superior na aquisição. Uma perda aparente já introduz um custo de não faturação, isto porque, além da Entidade pagar mais metros cúbicos de água na sua aquisição, também esta parte não irá ser faturada pela mesma.
Esta não faturação acontece devido a vários fatores, que poderão estar ou não associados à Entidade Gestora. Aqueles que a EG poderá ser responsabilizada são os erros de medição, os erros humanos e os erros informáticos. Na face oposta das perdas aparentes está o consumo não autorizado. Esta componente não poderá ser controlada pela EG, estando dependente de fatores externos à mesma, neste caso concreto, dependente de ilegalidades. Para que o leitor consiga distinguir e compreender estas diversas componentes, estas serão explicadas convenientemente nos pontos que se seguem.
2.3.3.1. Erros de m edição
Os erros de medição estão associados a erros nos contadores, ou porque estes foram “vandalizados” propositadamente, ou porque apresentam um certo desgaste devido à idade do contador. Estima-se normalmente um período de vida para um dado contador que varia com o modelo e a marca do mesmo. O mais comum é a idade variar entre os doze e quinze anos, no entanto, existem alguns mais resistentes que poderão durar até vinte anos.
À medida que o tempo vai passando, o contador vai aumentando a subcontagem devido ao desgaste da utilização. Além da constante utilização e passagem da água é necessário ter em conta os agentes agressivos provenientes na água. A sua composição física e química poderá ter uma ação direta sobre o contador levando-o mais rapidamente ao desgaste. É necessário ter em atenção as partículas em suspensão transportadas pela água, pois ao cruzarem o contador podem fazê-lo parar imediatamente.
Estas pequenas entradas de areias e outros grãos podem resultar de reparações nos ramais domiciliários.
A acumulação de calcários é também natural nos contadores. Este facto aliado ao uso sazonal de água pode levar a uma maior dificuldade de rotação das peças móveis de um contador. Estando estas danificadas é natural que as voltas que estas dão não sejam contabilizadas o que conduz a uma não eficiência do contador.
Um ponto importante que merece discussão é a utilização de contadores com diâmetros “sub” ou sobredimensionados. Existe sempre uma preocupação de utilizar diâmetros maiores devido às perdas de carga e ao possível aumento dos consumos, acabando por ser colocados diâmetros maiores que aqueles necessários. A grave consequência que o sobredimensionamento pode acarretar é a subcontagem dos contadores. Isto acontece porque o contador fica a trabalhar na parte inferior da sua escala de desempenho, provocando uma constante deterioração do mesmo. (RIZZO, S/ DATA)
Por outro lado um subdimensionamento pode proporcionar muito rapidamente a deterioração do contador. Apesar de ter um registo com elevada precisão no momento da instalação e nos primeiros dias, existe uma grande tendência da rutura de algumas peças devido à pressão exigida pela água. De uma forma ou de outra existe uma necessidade enorme de dimensionar o contador de forma a responder a estes dois entraves possíveis. (ARREGUI, ET AL.,2005)
2.3.3.2. Erros hum anos
Apesar de todos os tipos de perdas analisados terem a “mão do Homem”, considera-se como erros humanos as leituras mal interpretadas numa Entidade Gestora. O cliente não apresenta qualquer tipo de culpa na fatura final apresentada, a não ser que seja ele a reportar as leituras mensalmente. O que acontece essencialmente é uma falta de coerência entre a informação recolhida pelo leitor com o valor realmente existente no contador. A perda de informação poderá acontecer de várias formas. Uma delas é a falta de visibilidade na leitura do contador assim como a dificuldade de acesso ao mesmo. Como a maioria dos contadores estão instalados ao nível do solo encontrando-se em condições de pouca visibilidade e até mesmo embaciados, devido à humidade, estes proporcionam erros de leitura com facilidade.
Numa rede com um certo número de clientes é impossível avaliar todo esse conjunto mensalmente, daí a recolha de dados ser, normalmente, de dois em dois meses. Além disso é necessário um trabalho constante de aferição por parte dos leitores. É com naturalidade que o erro humano pode acontecer, como, por exemplo, na simples troca de números por parte do leitor. Mais uma vez a experiência do trabalhador é um aspeto fundamental que se deve ter em conta na análise.
Para se ter uma ideia clara do modo de intervenção de um leitor explica-se de seguida detalhadamente o seu modo de trabalho. Uma Empresa de Abastecimento de Água tem normalmente técnicos especializados, que recebem formação para tal, que têm o conhecimento necessário para interpretar as leituras dos contadores. São acompanhados por um plano de trabalho definido na Empresa que indica o caminho a percorrer pelo técnico e os contadores a analisar. É evidente que essa ordem de análise deve ser estudada de modo a que o resultado diário apresente eficiência. Devido à recente modernização dos sistemas informáticos, o técnico é também acompanhado por um PDA que está ligado à base de dados dos clientes da EG. Além da morada associada a cada instalação (contador), o PDA transmite ainda informações sobre o tipo de tarifa e o período de tempo decorrido desde a última leitura.
Para o maior controlo da situação contratual associada a cada instalação, o PDA pode apresentar também os últimos registos retirados quer pelo leitor quer pelo cliente. Desde logo poderá ser analisada uma possível situação de contador parado ou até mesmo vandalizado assim como ruturas inerentes ao contador.
Como dá para perceber facilmente, este tipo de erros aparentam ser facilmente detetáveis, uma vez que a falta de coerência é suscetível aos olhos de qualquer técnico da Empresa. Na realidade, isto não acontece. Numa Empresa com milhares de dados de clientes é natural que estes pequenos erros de leitura passem despercebidos, o que se acaba por traduzir na emissão de faturas erradas. Todo o processo inerente ao balanço hídrico sofrerá as alterações devidas sem conhecimento pela parte da EG. Aliado à perda de água e ao aumento da ANF aparece o possível descontentamento dos clientes da Rede de Abastecimento. A alteração do preço da fatura poderá criar um certo desconforto que levará certamente a um mal-estar da EG perante a sociedade.
2.3.3.3. Consum o não autorizado
A falta de honestidade no consumo de água de alguns cidadãos resulta numa problemática designada consumo não autorizado. A ligação à rede sem autorização por parte da EG, mais conhecido por furto ou ligação clandestina, compõe uma “grande fatia” do total das perdas aparentes. A grande diferença face às outras formas de perdas de água é a responsabilidade do cliente. Enquanto nos outros pontos, anteriormente vistos ,os erros se deviam à falta de capacidade da EG e a questões técnicas, neste caso, a Água Não Faturada provém da falta de civismo de alguns clientes.
As ações propositadas de alguns clientes passam na maior parte das vezes por alterações no funcionamento normal do contador. As mais conhecidas formas de sabotagem são então:
Agulhas nos contadores
By-pass em paralelo ou em vez do contador Contadores instalados ao contrário
Ramais clandestinos
No caso das ligações clandestinas a água nem chega a passar pelo contador, sendo consumida diretamente da rede de distribuição.
Além destas causas propositadas, existem ainda consumos em obras públicas de pequena dimensão provenientes de bocas-de-incêndio existentes nas proximidades.
2.3.3.4. Erros inform áticos
Os erros informáticos vêm de encontro aos já vistos erros humanos. O que caracteriza e distingue este tipo de erros é a falha no processamento de dados a nível informático. Apesar da constante evolução dos sistemas informáticos ainda é importante para uma EG procurar corrigir as possíveis falhas dos mesmos.
Como já foi referido nesta dissertação, atualmente, estão a ser usados PDA’s que permitem a introdução direta das leituras realizadas pelos técnicos. Esta nova tecnologia reduz a probabilidade de ocorrência de erros mas não garante desde logo uma eficácia dominadora. Aliás, é pertinente que haja um constante trabalho de verificação de leituras por parte de técnicos informáticos de modo a analisarem a veracidade das mesmas.
Posteriormente esses mesmos dados são colocados no sistema de faturação da Empresa. Os erros informáticos existentes serão encontrados na fatura da água enviada ao cliente. Torna-se óbvio que se o erro estiver contra o cliente, este apresentará de imediato um pedido de verificação da instalação. O mesmo não se passa se acontecer o inverso. Raro será o cliente que se queixará por pagar menos que o normal. E é aqui que reside a problemática dos erros informáticos.